Cartas de Amor...
Above And Beyond
Sandra Brown



      As cartas de Kyla para seu marido, o sargento Richard Stroud, em servio do outro lado do mundo, revelavam uma paixo capaz de superar a distncia e fortalecer 
os laos do amor. Mas seu casamento terminou de forma trgica, deixando Kyla viva com um filho recm-nascido. E o destino das cartas foi uma caixa de metal... Trevor 
Rule era o melhor amigo de Richard. Ao voltar para casa aps seu tempo de servio, trouxe consigo a correspondncia de Kyla. A cada Unha, se apaixonava mais pela 
mulher que as escrevera. Agora, ele precisa demonstrar a Kyla seus sentimentos, e convenc-la de que ambos tm direito  felicidade. No entanto, ele ainda esconde 
um segredo capaz de destruir o amor que tanto tenta proteger...


Digitalizao: Silvia
Reviso: Crysty



      
      Sandra Brown leva muito a srio seu trabalho. Como a primognita de cinco filhas, ela era a mais responsvel e amadurecida, e sempre preferia ler um livro 
a brincar com bonecas. Sua postura de seriedade permaneceu durante os anos de faculdade, quando cursou Letras na Texas Christian University, e depois como reprter 
do programa de televiso PM Magazine. Incentivada pelo marido, comeou a escrever fico durante o perodo livre em que seus filhos estavam na escola. Em pouco tempo, 
j estava publicando seus romances em seis editoras diferentes. Sandra lanou diversos ttulos sob o pseudnimo Erin St. Claire, e hoje  uma das autoras de maior 
destaque da lista de mais vendidos do The New York Times.
      
Traduo Sylvio Gonalves

HARLEQUIN
B O O K S
2010

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B,V/S..r.l.
Todos os direitos reservados. Proibidos a reproduo, o armazenamento ou a transmisso, no todo ou em pane.
Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas  mera coincidncia.

Ttulo original: ABOVE AND BEYOND
Copyright  1986 by Sandra Brown
Originalmente publicado em 1986 por Silhouette Intimate Moments

Arte-final de capa: Isabelle Paiva
Editorao Eletrnica:
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     Captulo Um
      
      
      
       Voc est indo bem, Kyla. Respire raso e rpido. Isso, isso. Como se sente?
       Cansada.
       Eu sei, mas aguente firme. Suporte as dores agora e empurre. Isso. Um pouco mais forte.
      A mulher jovem na mesa de parto rangeu os dentes enquanto era acometida pelas dores. Quando as dores diminuram, ela forou seu corpo a relaxar. O rosto, embora 
enrubescido e manchado, estava radiante.
       J est vendo ele?
      As palavras mal tinham sado de sua boca quando foi acometida por mais uma dor. Ela empurrou com todas as suas foras.
       Agora estou  disse o mdico.  Empurre mais uma vez... a... l vamos ns. Muito bem!  exclamou ele quando a nova vida escorreu para suas mos.
       O que ?
       Um menino. Lindo. E o pilantrinha  pesado.
       E tem pulmes excelentes  disse a enfermeira obsttrica, sorrindo para Kyla.
       Um menino  sussurrou ela, feliz. Kyla permitiu que a abenoada letargia se apoderasse dela e a fizesse afundar de volta na mesa.  Deixem-me v-lo. Ele 
est bem?
       Ele  perfeito  assegurou-lhe o doutor enquanto levantava o beb inquieto e barulhento para que sua me o visse.
      Lgrimas arderam nos olhos de Kyla quando viu seu filho pela primeira vez.
       Aaron.  assim que vamos batiz-lo. Aaron Powers Stroud.  Por um momento foi brindada com o privilgio de segur-lo contra seu peito. Emoo fervilhou dentro 
dela.
       O pai vai se orgulhar muito deste menino  disse a enfermeira. Ela levantou o beb dos braos enfraquecidos de Kyla, envolveu-o num lenol macio e o carregou 
atravs da sala para ser pesado. O mdico estava atendendo Kyla, embora o parto tivesse sido fcil, rotineiro.
       Em quanto tempo a senhora poder notificar seu marido?  perguntou o mdico.
       Meus pais esto esperando l fora. Papai prometeu mandar um telegrama para o Richard.
       Ele pesa quatro quilos e oitenta e cinco gramas  anunciou a enfermeira do outro lado da sala de cirurgia.
      O obstetra retirou as luvas e estendeu uma mo flcida para Kyla.
       Vou sair agora e dar as notcias para a sua famlia, para que possam enviar imediatamente o telegrama. Onde a senhora disse que Richard est postado?
       No Cairo  respondeu Kyla, distrada. Ela estava observando Aaron chutar furioso enquanto a enfermeira tirava a impresso de seu pezinho. Ele era lindo. 
Richard ficaria to orgulhoso!
      Considerando que Aaron nascera ao anoitecer, ela passou uma noite razoavelmente tranqila. Trouxeram-no a ela duas vezes durante a noite, embora ela ainda 
no tivesse comeado a produzir leite e o beb ainda no estivesse com fome. O prazer de segurar o corpinho quente contra o seu era imenso. Eles se comunicavam num 
nvel diferente de qualquer outro que ela havia conhecido.
      Kyla o estudou, virando as mozinhas e examinando as palmas quando conseguiu abrir os dedos que ele teimosamente mantinha em punho cerrado. Ela investigou 
cada dedo, cada fio de cabelo, as orelhas. Julgou tudo perfeito.
       Seu papai vai amar muito voc  sussurrou sonolenta enquanto o entregava a uma enfermeira.
      Sons de hospital  carros de lavanderia guinchando, pratos trepidando em bandejas, equipamentos sendo empurrados sobre rodinhas  acordaram-na bem cedo. Ela 
estava no meio de um grande bocejo e uma espreguiada deliciosa quando seus pais entraram no quarto particular.
       Bom dia  disse ela alegremente.  Estou surpresa por vocs estarem aqui em vez de na vitrine do berrio, com os narizes espremidos no vidro. Se bem que 
eles no abrem a cortina...  A voz de Kyla morreu em sua garganta quando notou a expresso de pesar de seus pais.  Alguma coisa errada?
      Clif e Meg Powers entreolharam-se. Meg estava apertando a ala da bolsa com tanta fora que os ns de seus dedos estavam brancos. Clif estava com cara de quem 
tinha acabado de engolir um remdio de gosto ruim.
       Me? Pai? O que aconteceu? Oh, meu Deus! O beb? Aaron? Tem alguma coisa errada com Aaron?  Kyla empurrou as cobertas vigorosamente, alheia  dormncia 
que sentia entre as coxas, concentrada apenas em sair de seu quarto e correr at o berrio.
      Meg Powers avanou para perto da cama da filha e a conteve.
       No, o beb est bem. Ele est bem. Juro.
      Os olhos de Kyla procuraram desesperadamente os dos pais.
       Ento o que est errado?  Estava  beira do pnico e sua voz saa aguda. Era muito raro ver seus pais nervosos. O fato de estarem to obviamente transtornados 
era o motivo do alarme de Kyla.
       Querida, ns recebemos notcias tristes esta manh  disse Clif Powers baixinho, pousando uma das mos no brao da filha.  Ele consultou silenciosamente 
a esposa antes de dizer:  A embaixada americana no Cairo foi bombardeada esta manh.
      Um tremor violento atravessou o estmago e o peito de Kyla. Sua boca ficou seca. Seus olhos comearam a piscar. O corao pareceu parar antes de lentamente 
recomear a bater. E ento, gradualmente obtendo foras enquanto assimilava o que seu pai havia dito, ele acelerou para um ritmo assustador.
       Richard?  perguntou ela numa voz rouca.
       No sabemos.
       Digam-me!
       No sabemos  insistiu seu pai.  Est tudo um caos, como na poca em que isto aconteceu em Beirute. Ainda no houve pronunciamento oficial.
       Liguem a televiso.
       Kyla, acho que voc no deveria...
      Surda ao aviso do pai, Kyla pegou o controle remoto na mesinha de cabeceira e ligou o televisor, que estava instalado na parede de frente para a cama.
       ...a extenso da destruio ainda no foi determinada. O presidente definiu este atentado terrorista como um ultraje, um insulto s naes defensoras da 
paz mundial. O primeiro-ministro...
      Kyla trocou de canais, freneticamente apertando os botes do controle remoto com dedos trmulos.
       ...embora a lista oficial de vtimas ainda possa demorar horas, talvez dias, para ser divulgada. Unidades de fuzileiros navais foram mobilizadas e, juntamente 
com tropas egpcias, esto limpando os escombros  procura de sobreviventes.
      O trabalho do operador de cmera estava abaixo dos padres televisivos, e testemunhava o pandemnio que cercava as runas do que havia sido o prdio da embaixada 
americana. A gravao estava trmula e fora de foco, aleatria e no editada.
       A autoria desta abominao foi clamada por um grupo terrorista chamado...
      Kyla mudou de canal novamente. Mais do mesmo. Quando a cmera percorreu a rea e ela viu os corpos que j haviam sido recuperados, dispostos organizadamente 
no cho, Kyla largou o controle e cobriu o rosto com as mos.
       Richard, Richard!
       Querida, no abandone as esperanas. Eles acreditam que haja sobreviventes.  Mas as palavras calmantes de Meg bateram em ouvidos surdos. Ela abraou com 
fora o corpo trmulo da filha.
       Aconteceu no horrio do Cairo  disse Clif  Fomos notificados hoje de manh, assim que acordamos. Neste momento no podemos fazer nada alm de esperar. 
Cedo ou tarde, teremos alguma notcia sobre Richard.
      
      A notcia chegou trs dias depois, entregue por um oficial da marinha que tocou a campainha da casa dos Powers. Kyla compreendeu, no instante em que viu o 
carro oficial parar no meio-fio, aquilo que ela vinha esperando subconscientemente. Ela fez sinal para que seu pai no se preocupasse e foi atender sozinha  porta.
      Sandra Brown
       Sra. Stroud?
       Sim.
       Sou o capito Hawkins e  meu dever inform-la.
      
       Mas querido, isso  maravilhoso!  exclamara Kyla.  Por que voc est to triste? Pensei que ficaria eufrico.
       Mas que droga, Kyla, eu no quero ir para o Egito enquanto voc est grvida  dissera Richard.
      Ela tocou os cabelos dele.
       Eu admito que no gosto por essa razo, Mas  uma honra. No  todo fuzileiro naval que  selecionado para a guarda de uma embaixada. Escolheram voc porque 
 o melhor. Estou muito orgulhosa.
       Mas eu no preciso fazer isso. Poderia requisitar...
        uma chance de uma vida, Richard. Voc acha que eu poderia viver comigo mesma se voc recusasse essa honra por minha causa?
       Mas nada  mais importante que voc e o beb.
       E ns sempre estaremos aqui.  Ela o abraou.  Esta ser sua ltima viagem e uma oportunidade nica. Voc vai para l e no se discute mais.
       No posso deixar voc sozinha.
       Vou ficar com mame e papai enquanto voc estiver fora. Este  o primeiro netinho deles e eles vo me enlouquecer ligando a toda hora para saber se estou 
bem. Vai ser bem mais fcil para todos ns se eu me mudar para a casa deles.
      Ele emoldurou o rosto de Kyla entre suas mos.
       Voc  maravilhosa, sabia?
       Isso significa que no tenho que me preocupar com voc e aquelas misteriosas mulheres do Oriente?
      Ele fingira pensar no assunto.
       Voc sabe a dana do ventre?
      Ela dera um soquinho nele.
       Ia ser uma viso e tanto, com a barriga que logo vou ter.
       Kyla  disse numa voz terna enquanto corria os dedos pelos cabelos dela.  Tem certeza? Posso viajar mesmo?
       Absoluta.
      
      Aquela conversa, que acontecera sete meses antes, repassou na mente de Kyla enquanto ela olhava para o caixo embrulhado na bandeira. As notas comoventes do 
trompete eram roubadas pelo vento cruel que soprava no cemitrio. Os carregadores do caixo, todos fuzileiros, puseram-se rigidamente em posio de sentido, resplandecentes 
em seus uniformes.
      Richard estava sendo sepultado ao lado dos pais, que haviam morrido num intervalo de um ano antes que Kyla os conhecesse.
       Eu estava completamente sozinha no mundo antes de conhecer voc  dissera certa vez a ela.
       Eu tambm.
       Voc tem seus pais  lembrara-lhe, perplexo.
       Mas eu nunca pertenci a ningum como perteno a voc.
      Como eles haviam amado tanto um ao outro, ele compreendera.
      O corpo de Richard tinha sido enviado para casa num caixo lacrado que ela fora aconselhada a no abrir. Ela no precisara perguntar por qu. Tudo que restara 
do prdio no Cairo fora uma pilha de pedras e ao. Como a bomba explodira no comeo da manh, a maior parte do corpo diplomtico ainda no chegara ao trabalho. As 
vtimas tinham sido aqueles, como Richard e os outros militares, que ocupavam apartamentos no prdio anexo.
      Um amigo de Clif Powers oferecera-se para levar a famlia de avio at o Kansas para o funeral. Kyla s podia ficar afastada de Aaron durante algumas horas 
por vez devido ao seu horrio de amamentao.
      Ela estremeceu quando lhe entregaram a bandeira americana, que fora removida do caixo e dobrada cerimonialmente. O caixo pareceu nu sem ela. Irracionalmente, 
Kyla se perguntou se Richard estaria com frio.
      Oh, Deus!, pensou ela, sua mente gritando silenciosamente. Eu preciso deix-lo aqui.
      Como ela conseguiria fazer isso? Como poderia dar as costas e deixar aquela cova aberta como uma ferida obscena, aberta no cho? Como ela conseguiria entrar 
naquele avio particular e ser conduzida de volta para o Texas como se estivesse desertando Richard neste terreno rido que ela subitamente odiava?
      O vento assobiou um lamento.
      Ela conseguiria fazer essas duas coisas, porque no havia escolha. Esta parte de Richard estava morta. Mas uma parte viva dele estava esperando por ela em 
casa. Aaron.
      Enquanto o pastor recitava a prece de encerramento, Kyla, silenciosamente, tambm ofereceu uma:
       Eu manterei voc vivo, Richard, Eu juro. Voc sempre estar vivo no meu corao. Eu te amo. Eu te amo. Voc sempre estar vivo para Aaron e para mim porque 
irei mant-lo vivo.
      
      Ele estava encasulado dentro de uma bola de algodo. De vez em quando o mundo invadia seu confinamento e essas interrupes sempre eram desagradveis. Todos 
os sons eram estridentes. O mais leve movimento parecia um terremoto em seu organismo. Luz, de qualquer fonte, sempre era dolorosa. Ele no queria nada do mundo 
externo, queria apenas a paz do limbo.
      Mas as intruses ficaram cada vez mais freqentes. Compelido por uma fora que ele no compreendia, encontrando pontos de apoio em sons e sentimentos, segurando-se 
precariamente a cada sensao que insinuava que ele ainda estava vivo, ele escalou. Lentamente, subiu para fora da nvoa branca para encontrar o aterrorizante desconhecido.
      Ele estava deitado de costas. Estava respirando. Seu corao estava batendo. Ele no tinha certeza de mais nada.
       Consegue me ouvir?
      Ele tentou virar a cabea na direo da voz suave, mas farpas de dor trespassaram seu crnio como balas em ricochete.
       Est acordado? Consegue me ouvir? Sente dor? 
      Demorou um pouco, mas ele conseguiu instruir sua lngua a entreabrir os lbios, Ele tentou umedec-los, mas o interior de sua boca estava seco e spero como 
l. Estava com uma sensao estranha no rosto e achou que no conseguiria mover a cabea nem se a dor no fosse to grave. Aos poucos, tentou levantar a mo direita.
       No, no. Apenas fique parado. Voc tem uma sonda intravenosa nesse brao.
      Ele lutou com valentia at enfim conseguir espiar por fissuras entre as plpebras. Seus clios, formando uma tela atravs de seu campo de viso, estavam ampliados. 
Ele praticamente podia cont-los individualmente. Finalmente eles se abriram um pouco mais. Uma imagem tremeluziu na frente dele como um anjo. Um uniforme branco. 
Uma mulher. Uma touca. Uma enfermeira?
       Ol. Como se sente? Pergunta estpida, moa.
       Onde...  Ele no reconheceu aquele grasnado como sua prpria voz.
       Voc est num hospital militar na Alemanha Ocidental.
      Alemanha Ocidental? Alemanha Ocidental? Ele devia ter se embebedado mais do que pensava na noite passada. Isto era um sonho.
       Estivemos preocupados com voc. Esteve em coma por trs semanas.
      Em coma? Por trs semanas? Impossvel. Na noite passada ele tinha sado com a filha do coronel e eles haviam visitado cada point do Cairo. Por que diabos o 
anjo em seu sonho estava lhe dizendo que ele estivera em coma... onde... na Alemanha Oriental?
      Ele tentou compreender melhor o ambiente que o cercava. O quarto parecia estranho. Sua viso estava borrada. Alguma coisa...
       No fique nervoso se a sua viso estiver difusa. O seu olho esquerdo est coberto por uma bandagem  disse com gentileza a enfermeira.  Fique deitado enquanto 
chamo o mdico. Ele vai querer saber que voc acordou.
      Ele no a ouviu sair. Num instante ela estava l, no seguinte ela havia desaparecido. Talvez ela fosse produto de sua imaginao. Sonhos podem ser bizarros.
      As paredes pareceram ondular nauseantemente. O teto esticava e encolhia, como se ele estivesse dentro de um balo. A luz que vinha da nica lmpada machucava 
seus olhos... olho.
      Ela dissera que seu olho esquerdo estava coberto por uma bandagem por qu? Desconsiderando o conselho da mulher, ele levantou a mo direita novamente. Foi 
um esforo hercleo. A fita que segurava a intravenosa puxou os plos de seu brao. Ele pareceu levar uma eternidade para alcanar sua cabea e, quando o fez, foi 
tomado pelo pnico.
      A minha cabea inteira est coberta por bandagens! Ele levantou a cabea do travesseiro o mximo que podia, que era apenas um ou dois centmetros, e baixou 
os olhos para seu corpo.
      O grito que ecoou pelo quarto segundos depois veio direto das entranhas do Inferno e fez a enfermeira e o doutor virem voando do corredor.
       Vou segur-lo enquanto voc lhe aplica uma injeo!  gritou o mdico.  Se ele continuar se debatendo assim, vai rasgar tudo que fizemos at agora.
      O paciente sentiu a picada de uma agulha na coxa e gritou em indignao e frustrao por sua incapacidade de falar, de se mover, de lutar.
      Ento a escurido se fechou novamente em torno dele. Mos gentis baixaram-no de volta para a cama. Quando sua cabea tocou o travesseiro, o limbo em veludo 
o havia reclamado novamente.
      Ele ficou entrando e saindo do limbo por dias... semanas? Ele no tinha qualquer ponto de referncia com o qual mensurar o tempo. Ele comeou a saber quando 
as garrafas de soro eram trocadas, quando sua presso era tirada, quando os tubos e cateteres que entravam e saam de seu corpo eram monitorados. Certa vez ele reconheceu 
a enfermeira. Outra vez reconheceu a voz do mdico. Mas eles se moviam em torno dele como fantasmas, espectros solcitos num sonho enevoado.
      Pouco a pouco ele comeou a permanecer acordado por perodos de tempo maiores. Ele passou a conhecer o quarto, a conhecer as mquinas que emitiam bipes que 
correspondiam aos seus sinais vitais. Ele estava cada vez mais ciente de sua condio fsica. E sabia que era sria.
      Ele estava acordado quando o mdico entrou pela porta, estudando um pronturio numa prancheta de metal.
       Bem, ol  disse o medico ao ver seu paciente fitando-o. Ele procedeu um check-up de rotina, e ento se encostou na lateral da cama.  Voc est ciente de 
que est num hospital e bem ferido?
       Foi... um acidente?
       No, sargento Rule. H um ms, a embaixada americana no Cairo sofreu um atentado a bomba. Voc foi um dos poucos que sobreviveu  exploso. Depois que o 
desenterraram dos destroos, mandaram voc de avio para c. Quando estiver suficientemente bem, ser enviado para casa.
       O que... o que h de errado comigo? Um leve sorriso tocou a boca do mdico.
       Seria mais fcil dizer o que h de certo.  Ele coou o queixo.  Quer franqueza?
      Um meneio de cabea quase imperceptvel o encorajou a prosseguir sem papas na lngua.
       O lado esquerdo do seu corpo foi esmagado pela queda de uma parede de concreto. Praticamente cada osso que voc tem desse lado foi quebrado, se no deformado. 
Arrumamos o que foi possvel. O resto...  Ele fez uma pausa para respirar fundo.  Bem, isso vai dar algum trabalho para os especialistas l em nosso pas. Voc 
ainda tem muita estrada pela frente, meu amigo. Eu diria pelo menos uns oito meses, embora o dobro disso talvez seja uma previso mais precisa. Vrias operaes. 
Meses de terapia fsica.
      Testemunhar o sofrimento refletido no rosto coberto de ataduras era quase insuportvel, mesmo para um mdico que ganhara suas divisas nos campos de batalha 
do Vietn.
       Eu vou poder...?
       Neste momento ningum pode dizer como ser sua recuperao. Muito depende de voc. De sua determinao. O quanto voc quer voltar a caminhar de novo?
       Eu quero correr  disse o fuzileiro naval. O medico quase caiu na gargalhada.
       Bom. Mas por enquanto, o seu trabalho  ficar mais forte para podermos remendar seu corpo.
      O mdico apertou carinhosamente seu ombro direito e se virou para sair.
       Doutor?  O mdico virou-se ao ouvir o som rouco.  Meu olho?
      O medico olhou com simpatia para seu paciente.
       Sinto muito, sargento Rule. No pudemos salv-lo. Enquanto se retirava do quarto em passos rpidos e profissionais, o mdico tentou conter as lgrimas. O 
sinal mais eloqente de desespero que ele j tinha visto fora aquela nica lgrima descendo pelo rosto macilento e barbado.
      
      No dia seguinte George Rule recebeu permisso para ver seu filho. Ele parou ao lado do leito e apertou a mo direita de Trevor. Lentamente, George Rule sentou-se 
numa cadeira prxima. Trevor no lembrava de ter visto seu pai chorar, nem mesmo quando sua me morrera, muitos anos antes. Agora, o advogado da Filadlfia, que 
instilava terror no corao de qualquer testemunha mentirosa, chorou amargamente.
       Devo estar com uma aparncia pior do que pensei  disse Trevor com um trao de humor seco.  Chocado?
      O Rule mais velho se recomps. Ele recebera instrues da equipe mdica para parecer otimista. 
       No, eu no estou chocado. Cheguei aqui vrias horas antes de voc e vi quando o trouxeram. Pode no parecer, mas voc passou por muita coisa desde ento.
       Bem, eu sinto como se tivesse passado por muita coisa.
       Eles s me deixaram ver voc uma vez por dia enquanto estava em coma. Depois, quando saiu do coma, eles passaram a no me deixar v-lo nunca. Voc vai ficar 
bem, filho. Vai ficar bem. Estive conversando com mdicos nos Estados Unidos, cirurgies ortopdicos que...
       Faa uma coisa para mim, pai.
       Qualquer coisa, qualquer coisa.
      A ltima vez que Trevor vira seu pai no tinha sido em bons termos. Se Trevor no estivesse to preocupado com outros pensamentos agora, ele teria notado a 
mudana drstica na forma como seu pai o estava tratando.
       D uma olhada na lista de baixas. Veja se o sargento Richard Stroud sobreviveu.
       Filho, voc no deveria se preocupar...
       Pode fazer isso?  gemeu Trevor, j fisicamente exaurido pela visita do pai.
       Sim, claro que farei  apressou-se em dizer George quando viu a ansiedade do filho.  Stroud, voc disse?
       Sim. Richard Stroud.
       Amigo seu?
       Sim. E rezo a Deus para que ele no tenha morrido. Porque, se morreu, foi por minha culpa.
       Como pode ter sido sua culpa, Trevor?
       Porque a ultima coisa de que me lembro  de ter dormido no beliche dele.
      
       Psst! Stroud? Est acordado?
       Estou agora  foi a resposta.  Caramba, Beijoca! So trs da manh. Est bbado?
       Que tal uma bebida?
      Richard Stroud sentou em seu beliche e balanou a cabea para afugentar o sono.
       Deve ter sido um tremendo fim de semana.
       Maravilhoso. Sabe o que  um orgasmo? Stroud riu.
       Voc est mesmo bbado. Deixe-me ajud-lo a tirar as calas.
       Um orgasmo, um orgasmo. Foram trs ontem. Ou ser que foram quatro?
       Quatro?  um recorde at para voc, no ?
      Um dedo trmulo foi apontado para a ponta do nariz de Stroud.
       Entenda, Stroud. Voc sempre pensa o pior de mim. Um orgasmo.  vodca com licor e... J estou sem as calas?
       Vai estar, se levantar os ps.
       Opa!  Trevor Rule caiu sobre o beliche de Stroud, arrastando o outro homem com ele.  Conhece a Becky?  perguntou com um sorriso bobo no rosto.
       Achei que o nome dela fosse Brenda  disse Stroud, desemaranhando seus membros.
       Oh, sim. Agora que estou pensando no assunto, acho que  Brenda, sim. Grandes pernas.  Ele piscou lascivo enquanto Stroud ajudava-o com a camisa.  Coxas 
fortes. Sabe o que quero dizer?
      Stroud soltou uma risadinha e balanou a cabea.
       Sim, eu sei o que voc quer dizer. E no acho que o coronel Daniels gostaria de ouvir voc falar sobre as coxas fortes da filha dele.
       Acho que estou apaixonado por ela.  Trevor disse as palavras com a seriedade que apenas um bbado conseguiria conjurar. Um arroto sonoro marcou o fim da 
declarao.
       Claro que est. Na semana passada voc estava apaixonado pela secretria morena do terceiro andar. E na semana anterior era a reprter loura da AR. Agora 
vamos, Beijoca. Temos de ir at o seu beliche.
      Ele colocou os braos debaixo dos de Trevor e tentou levant-lo, mas o outro homem era um peso morto.
       Tenho uma idia melhor  disse Stroud quando viu que seria impossvel carregar Trevor.  Por que no dorme no meu beliche esta noite?
      A guisa de resposta, Trevor caiu de costas no travesseiro. Stroud tateou pelo quarto escuro at encontrar o beliche de Trevor. Ele se acomodou para voltar 
a dormir.
       Bons sonhos.
      Ele levantou a cabea para ver Trevor meneando os dedos para ele como se fosse um retardado. Rindo, Stroud disse:
       Bons sonhos.
      Antes que qualquer um dos dois acordasse, os terroristas atacaram.
      
      A recuperao de Trevor foi mais difcil do que ele havia previsto  e ele havia previsto que ela seria um inferno na terra.
      Ele ficou no hospital na Alemanha Ocidental por mais um ms antes de ser transportado para casa. Os mdicos especialistas que o examinaram imediatamente balanaram 
as cabeas com expresses pesarosas. O lado esquerdo de seu corpo estava lastimvel.
       Conserte  disse sucintamente Trevor.  Sei que vocs podem. Eu farei o resto. Mas tenham certeza de uma coisa: eu vou sair andando daqui.
      Ele fizera as enfermeiras lerem para ele notcias sobre o atentado a bomba  embaixada. Ele passou por estgios de descrena, desespero e raiva. A raiva foi 
saudvel. Conferiu-lhe a fora de que precisava para lutar contra a dor, superar o trauma de uma operao depois da outra, para suportar as horas excruciantes de 
fisioterapia.
      Depois que sua dispensa foi oficializada, ele deixou seus cabelos crescerem, saindo do corte de fuzileiro. Ele mandou a enfermeira que vinha barbe-lo todas 
as manhs deixar seu bigode. Ele recusou que colocassem uma prtese em seu olho.
       Acho que est... lindo  foi a opinio de uma enfermeira.
      Havia vrias pessoas ao redor de sua cama enquanto um mdico lhe aplicava um tapa-olho preto. Metade das enfermeiras do hospital estavam apaixonadas por ele. 
A grande quantidade de ferimentos no prejudicara seu fsico musculoso. No posto de enfermagem comentava-se muito sobre o rosto bonito e msculo, os membros longos, 
o peito largo e os quadris estreitos.
       Combina com seus cabelos pretos ondulados  acrescentou a enfermeira.  Quando voc sair daqui, ter de afugentar as mulheres com um basto.
       Com a minha bengala, voc quer dizer  disse Trevor, estudando o tapa-olho no espelho de mo que algum havia lhe passado.
       No desista ainda  encorajou o doutor.  Ns apenas comeamos.
      Ele sabia a respeito das mudanas das estaes do ano apenas atravs da paisagem que via pela janela de seu quarto. Os dias se juntavam uns nos outros. Ele 
acompanhava a passagem do tempo atravs de um calendrio que pusera na sua mesinha de cabeceira. Cada dia ele riscava um quadradinho no calendrio.
      Certa noite, um enfermeiro que vinha ocasionalmente jogar pquer com ele depois de seu turno, largou uma sacola de papel na cadeira ao lado da mesa.
       O que  isso?
       Tudo que eles conseguiram salvar do seu quarto no Cairo  disse o enfermeiro.  O seu pai achou que voc talvez quisesse dar uma olhada e ver se tem alguma 
coisa que valha a pena guardar.
      No havia. Mas uma coisa chamou sua ateno.
       Me passe aquela caixa de metal, por favor.
      Era uma caixa de metal verde com uma tampa fechada por pequenas dobradias. A combinao da fechadura tinha apenas um nmero. Miraculosamente, ele lembrou 
qual era. Ele girou a fechadura e, quando ela abriu, levantou a tampa.
       O que  isso?  O enfermeiro estava espiando o contedo sobre o ombro de Trevor.  Parece um mao de cartas.
      Trevor sentiu um aperto no peito. Tambm sentiu sua garganta apertada, tanto que teve dificuldade para dizer:
        exatamente o que .
      Ele no havia lembrado deles at agora, mas subitamente ele lembrou daquela tarde com clareza absoluta.
       Ei, Beijoca?
       Oi, Stroud. O que posso fazer por voc?
       Sabe aquela caixa de metal na qual voc guarda as suas contagens de pquer?
       O que tem ela?
       Voc se importaria se eu guardasse isto aqui nela?  Embaraado, Stroud mostrou um mao de cartas, amarrados com um elstico.
       Hum. So daquela esposa que te mantm casto como um monge?
       Sim  admitiu envergonhado.
       No imaginava que ela soubesse escrever.
       Hein?
       No sabia que anjos fazem coisas mundanas  provocou Trevor, cutucando o amigo nas costelas.
       At voc? Os rapazes ficam fazendo troa de mim porque guardo as cartas dela, mas eu gosto de l-las vrias vezes.
       Picantes?  perguntou Trevor com os olhos verdes cheios de lascvia.
       Na verdade no. Apenas pessoais. E quanto  caixa?
       Certo, claro. Pode trancar as cartas nela. Tudo que voc precisa fazer  girar a fechadura para quatro.
       Quatro? Valeu, Beijoca.
      Stroud j estava se virando quando Trevor o segurou pelo brao.
       Tem certeza de que no so picantes? Stroud sorriu.
       Bem, s um pouquinho.
      Eles tinham sado para tomar uma cerveja e essa for a ltima vez que Trevor pensara nas cartas da esposa de Stroud. Ate agora.
      Ele fechou a tampa, sentindo-se to culpado quando se os tivesse espionado enquanto faziam amor.
       Jogue o resto do lixo fora  disse, irritado.
       Vai guardar a caixa com as cartas?  perguntou o enfermeiro.
       Sim, vou guardar.
      Ele no sabia por qu. Provavelmente tinha alguma relao com sua culpa de estar vivo quando Stroud morrera por dormir em seu beliche. Ele disse a si mesmo 
um milho de vezes durante os exerccios de mo e brao daquela tarde que ele no ia violar a privacidade de um morto lendo as cartas de sua esposa.
      Mas  noite, depois que todos os visitantes do andar tinham ido embora, depois que ele tomara o ltimo medicamento, depois que o turno das enfermeiras mudara, 
Trevor pegou a caixa na mesinha de cabeceira e pousou-a em seu peito.
      Ele sentia-se solitrio. Estava escuro. Ele dormira sozinho h mais noites do que tinha coragem de contar. Fora um alvio imenso para ele descobrir que seu 
corpo respondia sempre que o enfermeiro trazia para ele as edies do ms de Playboy e Penthouse. Essa parte dele estava funcionando perfeitamente.
      Ele precisava de uma mulher.
      No que ele no pudesse ter uma. Ele sabia que para saciar suas necessidades, tudo que precisava fazer era lanar um certo olhar a qualquer uma dentre um grupo 
de vrias enfermeiras.
      Mas ele j tivera melodrama suficiente em sua vida. Num hospital as fofocas corriam soltas, de modo que seria burrice da parte dele envolver-se romanticamente 
com algum daqui, especialmente quando o que ele queria e precisava tinha pouco ou nada a ver com romance.
      Ele sentia falta do toque de uma mulher. Da voz de uma mulher. Ele no encontrava mais prazer em olhar mulheres em revistas. Essas mulheres, com seus corpos 
voluptuosos, cabelos abundantes e sorrisos afetados, eram to bidimensionais quanto as pginas lustrosas nas quais elas eram impressas.
      A redatora das cartas era real.
      A tampa da caixa de metal abriu sem um som, mas o papel farfalhou quando tocou as cartas. Ele recolheu abruptamente a mo. E ento, xingando a si mesmo por 
ser um idiota, pegou uma carta no topo da pilha.
      Eram ao todo 27 cartas. Ele as colocou em ordem cronolgica. Depois que o trabalho  projetado para postergar o ato que ele supunha ser um pecado grave  estava 
terminado, Trevor abriu o primeiro envelope, retirou a folha de papel amarelada, e comeou a ler.
      
      
      
     Captulo Dois
      
      
      
      7 de setembro
      Meu querido Richard,
      Foram apenas semanas, mas tenho a impresso de que se passaram anos desde que voc partiu. Perder voc se tornou uma doena. Em vez de melhorar a cada dia, 
eu pioro. Minha imaginao me prega truques cruis. Muitas vezes penso ver voc, especialmente no meio de uma multido. Meu corao comea a bater depressa. Ento 
percebo dolorosamente que apenas acabo de ver algum que me lembrou voc...
      
      15 de setembro Amado Richard,
      Ontem  noite sonhei com voc e acordei chorando...
      
      16 de setembro Meu querido,
      Perdoe-me pela carta de ontem. Eu estava triste...
      
      2 de outubro 
      Querido Richard,
      Senti o beb mexer hoje! Oh, querido, no posso lhe dizer que experincia emocionante foi isso. No comeo foi apenas um tremor. Prendi minha respirao e fiquei 
absolutamente parada. Ento ele (tenho certeza de que  um menino) se moveu de novo, bem mais forte. Eu ri. Eu chorei. Mame e papai chegaram correndo. Eles no 
puderam sentir os movimentos porque foram muito leves, mas de algum modo sei que voc poderia. Se voc estivesse aqui, me tocando, voc teria sentido o beb. Tenho 
certeza. Eu te amo. Eu te amo tanto.
      
      25 de outubro
      ...e sua excurso s pirmides parece ter sido maravilhosa. Estou com inveja. Mame e eu fomos ontem a North Park e fizemos algumas compras. Parece que o trfego 
em Dallas est piorando. Eu estava to cansada quando cheguei em casa, que mal consegui subir a escada. Depois papai apareceu no meu quarto com o jantar numa bandeja. 
Mas ns tivemos um dia muito produtivo! No terei de comprar roupas para o beb at ele fazer seis anos!
      Todos rimos com a sua histria sobre a esposa do cnsul. Ela realmente se veste daquela maneira? E quanto ao seu amigo Beijoca? FIQUE LONGE DELE! Ele no parece 
uma influncia muito boa para um homem casado com uma esposa grvida...
      
      Dia de Aes de Graas
      ...e eu quero tanto voc aqui! Fui assistir a um filme com a Babs ontem. Eu devia ter imaginado. Foi um filme sexy, quase pornogrfico. E agora eu quero voc 
aqui! Estou escalando as paredes. Que vergonha! Senhoras grvidas no deviam se sentir como gatas no cio, deviam? Mas est frio e chuvoso... Acho que se estivesse 
aqui, poderia at fazer voc esquecer que tem jogo na TV hoje.
      
      21 de dezembro 
      Meu amor,
       Recebi sua carta ontem e ri muito. Ento voc quer que eu fique longe da Babs? Ento faamos um acordo: se voc terminar sua amizade com Beijoca, eu termino 
a minha amizade com a Babs. Esse tal Beijoca parece o tipo de homem que eu detesto. Ele pensa que  o presente de Deus s mulheres, no  verdade? Mesmo voc tendo 
dito o quanto ele  bonito, eu sei que eu no gostaria dele...
      
      24 de dezembro 
      Meu amado,
      Os dias so curtos, mas parecem infindveis. Ando muito desanimada. Eu gostaria de dormir durante o Natal. Para todo lugar que olho, as pessoas esto celebrando, 
sorrindo, compartilhando a poca com as pessoas a quem amam. Eu me sinto uma aliengena num mundo feito apenas de casais. Onde voc est? Percebo que papai e mame 
esto preocupados comigo porque ando muito deprimida. Eles j fizeram de tudo para me animar, mas sinto tanta falta de voc que nada funciona. Os presentes que voc 
me mandou esto debaixo da rvore. Papi resolveu esbanjar este ano e comprou um abeto, minha rvore de Natal favorita. Espero que voc tenha recebido seus presentes 
a tempo. Eu trocaria todos os presentes que j recebi e que virei a receber nos natais futuros pelos seus beijos. Um daqueles beijos longos e lentos que satisfazem 
e provocam. Oh, Richard, eu te amo. Feliz Natal, meu bem.
      
      11 de janeiro
      ...mas estou bem melhor agora que as festas acabaram e que ns passamos da metade do seu ano fora.
      Dormir est cada vez mais desconfortvel. Achei que voc gostaria de saber que seu filho vai ser jogador de futebol americano. Do jeito que ele chuta, dentro 
de uns vinte e dois anos ele certamente ser recrutado pelos Cowboys! A propsito, o que voc acha do nome Aaron? Se for menino, claro. Que  melhor que ele seja, 
porque at agora no pensei em nenhum nome de menina.
      Voc ficaria maluco com os meus peitos. Esto imensos! Infelizmente, o resto de mim combina com eles. Eu no tinha percebido que o beb causaria uma mudana 
to drstica neles. At os mamilos cresceram. Eu os estou preparando para a amamentao. (A Babs diz que queria ter uma desculpa to boa quanto esta... ela  uma 
menina to m!). Eu queria que voc estivesse aqui para me ajudar no projeto. (Como est vendo, tambm estou ficando m.)
      Mas no consigo pensar em nada mais maravilhoso do que alimentar o nosso beb... Aaron...
      
      25 de janeiro
      ...e foi o sonho mais horrvel que j tive. Acordei toda suada. No vou comer mais chili at a chegada do beb!
      O Beijoca foi com voc na viagem a Alexandria sobre a qual voc escreveu? Voc no mencionou ele e estou achando que fez de propsito. Se voc fez alguma coisa 
indiscreta, se est tendo um caso com uma danarina do ventre, pode me contar. Ontem me senti uma vaca de to gorda, e chorei... ao mesmo tempo em que engolia uma 
banana split que a Babs me garantiu que ia me animar. (Trs bolas de chocolate com amndoas!) As vezes me desespero pensando que nunca mais vou v-lo de novo, Richard. 
Voc vai voltar a me abraar? Eu vou sentir voc dentro de mim novamente? As vezes acho que voc no  real, que  uma pessoa maravilhosa com quem sonhei. Eu preciso 
de voc, meu querido. Preciso saber que voc me ama. Como eu o amo. Com todo o meu corao...
      
       Vai receber alta semana que vem? Trevor virou-se da janela.
       Vou. Finalmente.
       Isso  maravilhoso, filho  disse George Rule com toda franqueza.  Voc parece novo em folha.
       No completamente.
      No havia amargura no tom de Trevor. Nos ltimos 13 meses, ele passara a compreender como tivera sorte. Seus passeios pelas alas do hospital o haviam convencido 
disso. Ele poderia ter ficado confinado numa cadeira de rodas pelo resto da vida, como tantos outros que via fazendo fisioterapia.
      Trevor podia caminhar, mancando de leve, mas podia caminhar. Como at se acostumara ao tapa-olho, no estava mais esbarrando nos mveis. Era verdade o que 
se dizia sobre a capacidade do corpo humano em compensar a perda de um de seus componentes. Ele mal conseguia lembrar como era ter dois olhos.
       Eles queriam que eu voltasse todas as semanas como paciente no internado para prosseguir a fisioterapia, mas eu disse no  contou ao seu pai.  Acho que 
eles no podem fazer mais nada por mim. Sou perfeitamente capa2 de fazer meus exerccios sozinho.
       O que planeja fazer agora?  perguntou hesitante George Rule a seu filho.
      A escolha de carreira de Trevor tinha sido um motivo de discusso entre eles desde sua formatura por Harvard. O alistamento nos Fuzileiros Navais fora um ato 
de rebelio contra o pai, que preferira que Trevor seguisse seus passos na advocacia, e se recusara a ouvir os planos pessoais do filho.
      Sandra Brown
       O que sempre planejei fazer pai. Construo civil.
       Entendo.  A decepo de Rule foi evidente, mas ele a conteve. Rule quase perdera seu filho. O flerte de Trevor com a morte havia assustado profundamente 
o indomvel George Rule. Ele no queria perder Trevor de outra maneira. Ele no tinha nenhuma dvida de que iria perd-lo caso tentasse direcionar seu futuro.  
Onde? Onde voc pretende comear?
       Texas.
       Texas!  Era o mesmo que em outro planeta. Trevor riu.
       Voc deve ter ouvido falar do boom da construo nos estados do Sunbelt.  l que esto todas as oportunidades. Naquela regio ainda h terra disponvel 
para construo. Escolhi uma cidadezinha perto de Dallas. Chandler.  uma comunidade em crescimento e pretendo investir nela.
       Voc vai precisar de um financiamento bancrio.
       Tenho pagamentos atrasados dos Fuzileiros para receber.
       No vai ser o suficiente para iniciar os negcios, Trevor fitou intensamente o pai.
       Quanto um diploma de Harvard lhe custou, pai? George Rule fez que sim com a cabea.
       Voc tem razo.  Ele estendeu a mo e Trevor apertou-a com firmeza.
       Obrigado.
      Pela primeira vez desde que Trevor se recordava, seu pai o abraou, e o abraou forte.
      Mais tarde naquela noite, depois que havia feito as malas, Trevor se deitou na cama do hospital pela ltima vez. Mas ele estava empolgado demais para dormir. 
Ele recebera uma segunda oportunidade na vida. Sua primeira oportunidade no tinha sido bem aproveitada. Mas esta nova, que comearia no dia seguinte, iria. Nada 
mais de desperdiar sua vida com leviandades. Agora ele tinha uma misso.
      Ele pegou a caixa de metal verde. Ela jamais ficava muito longe de sua mo. As cartas estavam marcadas por dobras e amassadas nas pontas. Ele sabia de cor 
cada uma das 27. Mas ele sentia prazer em ver os volteios e curvas de sua caligrafia feminina. Ele escolheu uma. No foi uma escolha aleatria.
      ...e o seu relacionamento com Beijoca. Ele parece o tipo de homem que eu detesto. Ele pensa que  o presente de Deus para as mulheres, no  verdade? Mesmo 
voc tendo dito o quanto ele  bonito, sei que no iria gostar dele...
      Trevor dobrou a carta cuidadosamente e a recolocou em seu envelope. Ele demorou muito a dormir.
      
      Ela era linda.
      Ele a vira muitas vezes nessas ltimas semanas, mas nunca to de perto. Nunca por tanto tempo. Era um luxo ser capaz de estud-la.
      Nem em mil anos ele seria capaz de descrever a cor de seus cabelos. "Louros" no era suficiente por causa dos fios avermelhados que se entremeavam aos mais 
claros. Mas ela no era realmente uma ruiva. "Cabelos louros-rosados" seria uma descrio mais prxima, contudo inspida. E no havia nada inspido em Kyla Stroud. 
Ela irradiava energia e luz como um raio de sol.
      Aquele cabelo indescritvel era puxado para trs num rabo de cavalo casual. As pontas dele eram enroladas, assim como os fios que tinham escapado para emoldurar 
seu rosto.
      O rosto! Em forma de corao. Com um queixo delicado. Sobrancelhas que arqueavam sobre olhos grandes e redondos. Uma fronte lisa e alta, denotando inteligncia. 
Uma compleio que deixava Trevor com gua na boca. Faces naturalmente tingidas com a cor de pssegos maduros.
      Vestia calas compridas castanhas, camisa de malha de algodo listrada com mangas enroladas at os cotovelos, e um cardig amarrado em torno do pescoo. Tinha 
uma silhueta elegante e discreta. Propores perfeitas.
      Ela era... bem... ela era perfeita.
      Trevor gostava da forma como ela falava com o menino, como se ele entendesse cada palavra que ela dizia. E talvez ele entendesse, porque quando ela sorria, 
o menininho robusto tambm o fazia. Pareciam absolutamente alheios ao movimento intenso no shopping center nesta tarde de sbado,  multido de fregueses das lojas 
e lanchonetes.
      Foi numa barraquinha que ela comprou o sorvete de casquinha. Com uma agilidade miraculosa ela havia segurado o sorvete com uma das mos enquanto empurrava 
o carrinho de beb atravs de uma multido at um banco. Ela ajudara o menininho, embora ele no precisasse de muito encorajamento para descer do carrinho.
      Agora estavam sentados num banco e a criana estava destruindo a casquinha de sorvete enquanto sua me alternava-se em rir de deleite e admoest-la por comer 
como um porquinho. Com a mo direita ela governava a casquinha, enquanto com a esquerda manejava habilmente um guardanapo.
      Quando a casquinha de sorvete e o guardanapo tinham sido ambos reduzidos a uma lambana, ela falou duramente com o menino, e ento saiu do banco para jogar 
a sujeira na lata de lixo mais prxima.
      No instante em que deu as costas para o menino, ele desceu do banco para o cho do shopping e saiu correndo. Forando o mximo suas pernas curtas e rechonchudas, 
seguiu at o chafariz que esguichava gua at a clarabia. Em torno do chafariz havia um laguinho artificial com cerca de 60 centmetros de profundidade.
      Movido por seus reflexos, Trevor empurrou a si mesmo da parede na qual estivera indolentemente encostado enquanto os observava. Ele arriscou desviar os olhos 
do menino por alguns segundos para ver Kyla dar as costas para a lata de lixo e perceber que a criana sumira. Mesmo quela distncia foi possvel ler na expresso 
de Kyla o pnico instantneo que apenas a me de uma criana sumida poderia registrar.
      Sem pensar, Trevor comeou a costurar seu caminho atravs da multido, seguindo em direo  fonte. O menino agora estava escalando o muro baixo que cercava 
o laguinho e esticando a mo para a gua borbulhante.
       Meu Deus  murmurou Trevor enquanto empurrava para o lado um homem fumando um cachimbo. Ele aumentou a amplitude de sua passada para se mover mais depressa. 
Mas no depressa o bastante. Ele testemunhou a criana cair da mureta para a gua.
      Vrios transeuntes tambm notaram, mas Trevor foi o primeiro a alcanar o chafariz. Ele levantou a perna direita sobre a mureta, pisou no laguinho, pegou o 
menino por baixo de seus bracinhos e o puxou da gua.
       Aaron!  Kyla abria freneticamente caminho atravs da multido.
       Aaron, cuspindo gua, olhou com curiosidade o homem que o segurava. Aparentemente grato ao homem que o salvara, o menino sorriu, revelando duas fileiras perfeitas 
de dentes de beb, e disse alguma coisa que poderia ser "gua".
      Pingando gua, Trevor saiu do laguinho. A multido abriu em leque para lhe conceder espao.
       Ele est bem?
       O que aconteceu?
       Onde est a me?
       No tinha ningum de olho nele?
       Alguns pais deixam os filhos correrem soltos.
       Com licena, com licena.  Kyla finalmente abriu caminho a cotoveladas atravs dos curiosos.  Aaron, Aaron!  Ela tomou o filho dos braos de Trevor e 
o apertou com fora contra o peito, apesar de suas roupas molhadas.  Oh, meu beb. Voc est bem? Voc assustou a mame. Oh, Deus.
      No instante em que Aaron percebeu o nervosismo da me, sua aventura se tornou um trauma. Seu lbio inferior comeou a tremer, os olhos encheram-se de gua 
enquanto o rostinho desabava. Ento ele abriu um berreiro.
       Ele est machucado! Ele est machucado?  perguntou Kyla, frentica.
       Andando, pessoal. Por favor, abram espao para ns. Ele est bem, apenas assustado.
      Kyla estava vagamente cnscia do homem grande ao seu lado. Ela sentiu a mo dele entre as omoplatas de seus ombros, empurrando-a atravs da multido at um 
banco afastado. Estava to ocupada examinando Aaron em busca de ferimentos que o homem passou despercebido at ela estar sentada no banco. Finalmente, abraando 
Aaron enquanto o menino chorava, levantou os olhos para o homem.
      Levou muito tempo para que seus olhos alcanassem o rosto dele, de modo que sua primeira impresso do homem foi de que ele era muito alto. Ela no estava preparada 
para o bigode curvo, muito menos para o tapa-olho no lado esquerdo do rosto, e se conteve a tempo de arfar de susto.
       Obrigada.
      O homem grande sentou ao lado dela.
       Acho que ele est bem. S ficou assustado com a sua reao.
      Ela virou o rosto, mostrando-lhe que seu queixo no era apenas delicado. Ele podia ser teimoso quando desafiado. Quando entendeu que o homem no estava sendo 
crtico, ela abriu um sorriso desgostoso.
       Acho que voc tem razo. Eu exagerei. Aaron estava comeando a parar de chorar. Ela o segurou a uma pequena distncia e enxugou as lgrimas nas faces avermelhadas 
e rechonchudas.
       Voc quase me matou de susto, Aaron Stroud!  ralhou. E ento, olhando novamente para o homem, explicou:  Num momento ele estava l, no momento seguinte 
j no estava.
      Ela tinha olhos castanhos. Olhos castanhos-escuros nos quais Trevor sentiu-se afundar.
       Ele se moveu como um raio.  Quando ela inclinou a cabea, obviamente intrigada, ele explicou:  Eu estava observando ele comer seu sorvete de casquinha.
       Oh  exprimiu Kyla. No ocorreu a ela perguntar por que eles haviam atrado sua ateno. Ela estava tentando adivinhar o que acontecera com o olho dele. 
Era uma pena ele t-lo perdido, porque o que a estava fitando era verde, belssimo em seu tom escuro, e cercado por clios finos e pontudos.
      O olho respondeu ao olhar de Kyla como uma chama esmeralda. Embaraada por ter sido flagrada olhando-o, baixou o rosto. Foi ento que ela notou que ele estava 
com as calas jeans e as botas molhadas.
       Voc entrou no chafariz?
      Ele riu, olhando para suas pernas. As calas jeans estavam molhadas dos joelhos para baixo.
       Acho que sim. No me lembro. Estava pensando apenas em Aaron.
       Como sabe o nome dele?
      O corao de Trevor pulou em seu peito.
       Eu ouvi voc chamar por ele.
      Ela fez que sim com a cabea e disse:
       Sinto muito por ter se molhado.
       Vai secar.
       Mas olhe essas suas botas caras.
       No so to valiosas quanto Aaron.  Fez ccegas debaixo do queixo do menino. Aaron estava com a manga do cardig da me na boca, mastigando-a. Mecanicamente, 
ela o afastou dele e o aninhou em seu peito.
       Oh, minha nossa!  explicou ela. Como se para reforar o que ela acabara de compreender  que eles dois estavam encharcados  Aaron espirrou.
       Voc est molhada  disse Trevor.
      Ele estava olhando para a frente da blusa de Kyla de uma forma que espantou o frio que sentia. Ela se levantou.
       Mais uma vez, obrigada. Adeus.
      Segurando Aaron  sua frente como um escudo, ela correu at a sada mais prxima.
       Espere!
       Por qu?
       No est esquecendo nada?
       O qu?
       A sua bolsa, para incio de conversa. E o carrinho do Aaron. Eles ainda esto l, perto da barraquinha de sorvete.
      Sentindo-se uma idiota colossal, ela balanou a cabea, rindo trmula.
       Ainda estou...
       Transtornada. Posso imaginar. Deixe que eu pego as coisas para voc.
       Voc j fez muito.
       No tem problema.
      Ele se afastou antes que ela pudesse levantar outro protesto, Sub-repticiamente, baixou os olhos para o busto para ver se estava se expondo de forma indecente. 
Ficou apenas levemente aliviada ao ver que no seria presa por atentado aos bons costumes.
      Rapidamente olhou de volta para o homem que se afastava. Foi ento que notou que ele mancava. Era quase imperceptvel, mas ele definitivamente favorecia o 
lado esquerdo. Ele devia ter sofrido algum acidente terrvel no qual perdera o olho e tivera o lado esquerdo do corpo parcialmente mutilado.
      Mas, isso no prejudicava a graa com que caminhava. Para um homem to grande, ele era gracioso e tinha o porte de um atleta. E o corpo. Ombros largos e quadris 
estreitos. Seus cabelos eram negros como a noite, ondulados e suficientemente longos para cobrir o topo de suas orelhas e cachear sobre seu colarinho. Kyla notou 
que as mulheres por quem ele passava olhavam-no duas vezes. Nenhuma parecia importar-se com o tapa-olho. Na verdade, ele contribua para seu apelo, que era sexy 
e levemente devasso.
      Ainda assim, por mais msculo que fosse, ele no se importou de colocar a ala da bolsa no ombro e empurrar o carrinho de beb pelo shopping em direo ao 
banco onde ela aguardava com Aaron.
       Obrigada de novo  disse ela, evitando a mozinha de Aaron, que estava tentando puxar seu brinco, Ela esticou a mo para sua bolsa. Trevor deslizou a ala 
pelo brao, para em seguida coloc-la no ombro de Kyla.
      Ela  to delicada, pensou Trevor.
      Ele  to alto, pensou Kyla.
      Ela se curvou e tentou acomodar Aaron no carrinho, mas ele se recusou. Seu corpinho permaneceu rijo como uma tbua e ela no conseguiu dobrar as pernas. O 
menino comeou a protestar.
       Ele est ficando cansado  disse ela  guisa de explicao, constrangida por seu filho estar se comportando de forma to indisciplinada. Eles estavam atraindo 
ateno de novo, e os novos transeuntes olhavam com curiosidade a criana encharcada, a me mida e o homem de calas jeans molhadas.
       Por que voc no carrega Aaron e me deixa empurrar o carrinho at seu carro?
      Ela se empertigou, levantando Aaron consigo.
       No posso deixar voc fazer isso. J lhe causei muita inconvenincia.
      Ele sorriu. Seus dentes eram muito retos e brancos por trs do bigode sensual. 
       No  inconveniente nenhum.
       Bem...
      O homem deixava Kyla nervosa. Por que motivo, ela no saberia dizer. Ele havia se comportado com cortesia suficiente para merecer uma medalha de escoteiro. 
Ele no a olhara sugestivamente. Mais do que provavelmente ele pensava que ela possua um marido que estava jogando golfe ou em casa, trabalhando no jardim.
      Ainda assim, ela sabia que ele estava ciente de sua blusa molhada, e embora ele no pudesse realmente ver nada, a sugesto estava presente, e isso a deixava 
tensa.
       Vamos.  melhor irmos antes que nem duas pessoas consigam cuidar de Aaron.
      A cada segundo o menino estava ficando mais pesado nos braos dela, e mais inquieto. Ele estava se debatendo irritado, porque sem dvida estava to desconfortvel 
quanto ela nas suas roupas molhadas.
       Muito bem  disse ela, empurrando uma mecha de seus cabelos que fora puxada pelo menino.  Eu apreciaria isso.
       Por ali?  indagou Trevor, apontando com a cabea para a sada.
      Ela pareceu inquieta.
       Na verdade, no. Estacionei do outro lado da Penney's.
      Ele poderia ter perguntado por que, tendo estacionado do outro lado da Penney's, ela seguira na direo desta sada h poucos minutos, como se o diabo estivesse 
em seus calcanhares. Mas de modo autenticamente cavalheiresco ele no disse nada. Depois de esperar que ela o precedesse, ele empurrou o carrinho de beb vazio em 
direo  loja de departamentos do outro lado do shopping center.
       A propsito, meu nome  Trevor. Trevor Rule.  Prendendo a respirao, ele observou o rosto dela, esperando por sinais de reconhecimento. Quando no viu 
nenhum, sentiu um alvio no peito.
       Sou Kyla Stroud.
        um prazer conhec-la.  Ele apontou com a cabea na direo de Aaron, que parara de chorar agora que eles estavam em movimento novamente.  E Aaron,  
claro.
      Sorrisos como o dele deveriam ser contra a lei, pensou Kyla. Era perigoso para a populao feminina. O charme de Trevor transpunha barreiras de geraes. Ela 
viu algumas adolescentes flertarem abertamente com ele enquanto passavam. Ele tambm virou as cabeas de muitas avs.
      No importava se uma mulher estava acompanhada por outro homem ou no; todas elas notavam Trevor Rule.
      Ele no era dotado de uma beleza clssica. No havia nada de belo em seu rosto. Era marcado por linhas de expresso. Canais gmeos desciam das pontas de suas 
narinas at colocar entre parnteses a boca e o bigode largo. Kyla se perguntou como eles poderiam ter-se marcado to profundamente ali. Dor causada pelo acidente? 
Ele no poderia ter mais do que 30 e poucos anos. No muito mais velho do que Richard seria hoje.
      Richard. Pensar nele deflagrou uma dor j muito conhecida atravs dela. Se estivesse vivo, estaria caminhando ao seu lado. Ela no precisaria da assistncia 
de um estranho. J havia mais de um ano desde sua morte.
      De acordo com todos os livros sobre o assunto, o primeiro aniversrio era um marco, ela estaria superando a perda a esta altura. Mas nenhum dia se passava 
sem que ela pensasse em Richard, geralmente no momento em que ela menos esperava. E ela estava feliz por isso. Ela jurara manter seu marido vivo, tanto para o bem 
dela quanto o de Aaron. Acalentar lembranas de Richard dia aps dia mantinha-o uma parte vital de sua vida.
       Qual  a idade de Aaron?  perguntou Trevor de repente.
       Pouco mais de quinze meses.
       Ele  robusto, no ? Se bem que no entendo muito de crianas pequenas.
       Sim, ele  robusto  disse Kyla, rindo e passando-o de um brao para o outro.  Mas o pai dele era musculoso.
       Era?
      Por que ela deixara o porto abrir? No fora sua inteno.
       Ele morreu  explicou sem elaborao.
       Sinto muito.
      E ele sentia mesmo. Ou no?
      Trevor esperara por este dia h meses. Desde que sara do hospital, marcara o tempo, aguardando o momento certo. Estava ansioso para iniciar seus negcios, 
mas mesmo com a ajuda do pai, havia um milho de detalhes tediosos para cuidar. As horas que passara aguardando em escritrios pareciam infindveis para um homem 
que tinha meses de sua vida para recuperar. E tambm houvera as horas passadas ao ar livre sem camisa, para perder sua palidez doentia de hospital.
      Durante todo esse tempo, ele imaginara seu primeiro encontro com Kyla uma centena de vezes, perguntando a si mesmo onde aconteceria, como ela se pareceria, 
o que ele iria dizer.
      Ele no se programara para conhec-la naquele dia. Mas estava acontecendo! Ele estava vivendo aquele momento to antecipado. E, tendo-a visto, ele honestamente 
no podia dizer que lamentava ter dormido no beliche de Richard Stroud naquela noite fatdica. Por egosmo puro, ele sentia uma felicidade imensa por estar vivo 
no momento.
       Temo que ainda tenhamos de andar muito  disse Kyla,  guisa de desculpas, quando ele abriu a porta para que ela passasse.
       No me importo.
      O estacionamento era um bom indicador da multido dentro do shopping center. Motoristas que tinham acabado de chegar disputavam vagas  medida que elas ficavam 
disponveis.
        daqui, Sr. Rule? perguntou Kyla enquanto atravessavam o estacionamento,
       Pode me chamar de Trevor. No, no sou. Eu me mudei para c h um ms.
       O que o trouxe a Chandler? Voc.
       Cobia.
      Assustada pela resposta, ela olhou para ele.
       Como disse?
      Uma mecha de cabelos foi soprada diante dos lbios dela. O corao de Trevor pulou uma batida enquanto ele pensava como seria afastar aqueles fios de ouro 
para beij-la nos lbios. Ela tinha a boca mais convidativa que ele j vira.
       Sou empreiteiro  disse um pouquinho alto demais depois de pigarrear.  Quero fazer parte da expanso que est havendo aqui.
      Talvez ele devesse ter pago a uma mulher para fazer amor com ele antes de conhecer Kyla. Talvez ele devesse ter cultivado alguns relacionamentos casuais baseados 
apenas em sexo. Talvez no devesse ter-se submetido  absteno.
       Ah, entendo. Bem, aquele  o meu carro. Ela apontou para uma perua azul-clara.
       Petal Pushers?  perguntou Trevor ao ler a logomarca na lateral do veculo.
       Eu e uma amiga temos uma floricultura.
      Ballard Parkway 5298. Ele sabia exatamente onde era, as cores do toldo listrado sobre a vitrine, e quais eram as horas de funcionamento.
       Uma floricultura, hein? Parece interessante.
      Depois que ela havia prendido Aaron na cadeira de beb do carro, ele a ajudou a guardar o carrinho dobrvel no banco traseiro.
       No tenho como lhe agradecer... Trevor. Voc foi muito gentil.
       No me agradea. Gostei. De tudo, menos de ver Aaron cair daquele muro na gua.
      Kyla estremeceu.
       No quero nem pensar nisso.  Ela olhou para ele por um longo momento.  Parecia no haver nenhuma forma graciosa de se retirar. Como se dizia obrigado e 
adeus a um estranho que salvara a vida de seu filho?
       Bem, adeus  disse ela, sentindo-se constrangida e sem imaginar nada que pudesse fazer com as mos.
       Adeus.
      Ela sentou ao volante e fechou a porta. Ele recuou, acenou e comeou a se afastar. Kyla girou a chave. O carro produziu um gemido horrvel, mas o motor no 
pegou. Ela pisou fundo no acelerador e tentou de novo. Vram, vram, vram. De novo e de novo. Mas o carro no pegou. Ela murmurou alguma coisa que sua me ficaria 
mortificada em ouvir de sua boca. Bem, era provvel que sua me nem conhecesse essa palavra.
       Problema?  Trevor Rule falara atravs da janela no lado do motorista. Ele estava com as mos pousadas nos joelhos dobrados.
      Ela baixou a janela e disse:  No quer pegar.
       Parece que a sua bateria arriou.
      Teimosa, tentou de novo, vrias vezes. Finalmente admitindo a derrota, ela desligou o carro e afundou no banco, agitando todos os quatro membros de raiva. 
Este estava sendo um sbado infernal.
       Posso ajudar?  perguntou Trevor depois de um momento.
       Vou voltar para o shopping e ligar para o meu pai. Ele vir pegar a gente e mandar algum ver o carro.
       Tenho uma idia melhor. Que tal se eu levasse vocs para casa?
      Ela olhou para ele sem fala, e ento desviou os olhos. Um arrepio de medo correu por sua espinha. Ela no conhecia este homem. Ele podia ser qualquer um. Como 
ela iria saber que ele no sabotara o seu carro, e depois puxara conversa com ela no shopping e...
      Pare, Kyla. Isso  loucura. Ele no podia ter orquestrado a queda de Aaron na fonte. Ainda assim, ela era suficientemente ajuizada para no entrar num carro 
e ir a algum lugar com um total estranho.
       No, obrigada, sr. Rule. Eu me viro.
      A recusa acabou soando mais rude do que ela quisera, mas no podia correr o risco de cair nas garras de um possvel seqestrador. Ela inverteu o processo exaustivo 
pelo qual passara apenas alguns minutos antes, desafivelando Aaron e tirando-o do carro, pegando sua bolsa, fechando a janela e trancando a porta do veculo. Seguiu 
na direo da qual eles tinham acabado de chegar.
       No quero det-lo, sr. Rule  disse ela ao senti-lo caminhar ao seu lado.
       No ser incmodo nenhum levar vocs at onde queiram ir.
       No, obrigada.
       Tem certeza? Seria um...
       No, obrigada!
       No  incrvel isso?  Ele moveu a mo at seu olho esquerdo.  Eu sei que isto faz de mim automaticamente um suspeito, mas juro que voc no precisa ter 
medo de mim.
      Kyla subitamente parou e se virou para ele. Oh, Deus. Agora ele provavelmente achava que ela nutria um preconceito contra deficientes fsicos.
       No tenho medo de voc.
      A tenso em seu rosto foi gradualmente substituda por um sorriso caloroso.
       Bem, voc deveria ter. Hoje em dia no se pode confiar em estranhos.  Eles riram, sem se dar conta do trfego que estavam bloqueando. Ele deu um passo para 
mais perto dela e lhe disse, com absoluta franqueza:  S estou tentando lhe oferecer uma carona.
      Ela se sentiu uma idiota. Qualquer homem disposto a arruinar um par de botas de 400 dlares para pescar um menininho num chafariz no deveria ser inclinado 
a seqestrar, matar ou mutilar.
       Muito bem  concedeu ela.
       timo.
      A pacincia do motorista esperando para sair da vaga que eles estavam bloqueando finalmente acabou, e ele buzinou. Eles comearam a caminhar.
       Onde est seu carro?
      Trevor indicou a direo com a ponta do queixo.
       A mais ou menos um quilmetro daqui  disse ele, rindo.  Porque no me deixa carregar Aaron?
      Com apenas um trao de relutncia, Kyla passou seu filho para ele. Com a palma da mo rechonchuda, Aaron deu um tapa na testa de Trevor. Ele parecia no ter 
nem um pouco de medo do homem alto, bonito, elegante e de tapa-olho, com o charme de um vendedor de tnico miraculoso e um sorriso que poderia causar danos srios 
a um iceberg.
      
      
      
     Captulo Trs
      
      
      
      Ele se desculpou pela picape.
       Eu no sabia que iria lhe dar uma carona esta tarde. Se no, teria deixado a caminhonete em casa e vindo de carro.
      Ele destrancou e abriu a porta com a mo direita enquanto ainda segurava Aaron no brao esquerdo. Assim que Kyla estava situada na cabine da picape, ele passou 
Aaron para ela. Kyla acomodou o menino em seu colo.
      O brao de Trevor roou contra os seios dela. Ela fingiu no notar. Ele tambm. Finalmente ele fechou a porta depressa. Eles fingiram que aquilo no acontecera, 
mas ela sabia que, tanto quanto ela, Trevor devia estar pensando naquele toque acidental.
       Est quente aqui dentro  comentou ele enquanto escorregava para diante do volante e ligava o motor.  Est pegando sol h um tempo.
       Por mim est bom. Ainda estou molhada.
      Ela poderia ter mordido a lngua por ter mencionado isso. Muito rpido, com uma expresso culpada, ele olhou o busto de Kyla. Ela sentiu-se grata por Aaron 
ainda estar funcionando como escudo.
      Eles caram num silncio constrangedor enquanto ele avanava pelo trfego intenso do estacionamento. Uma vez ele olhou para ela com um sorriso de desculpas 
pelo atraso, Ela retribuiu com um sorriso provavelmente muito sem graa. Por que, perguntou-se, ela no conseguia pensar em nada para dizer?
      Quando comeou a subir a rampa da sada, ele virou a cabea para ela. Ela pde senti-lo olhando para ela, mas se concentrou em acariciar os cabelos castanhos 
de Aaron.
      Por que ele a estava olhando daquele jeito? E talvez ela devesse lhe pedir para ligar o ar-condicionado. Estava ficando desagradavelmente quente dentro da 
caminhonete. Ou seria sua prpria temperatura que estava subindo?
       Preciso lhe perguntar uma coisa  disse ele baixinho. O corao dela deu um salto.
      Est a fim?
      O que devemos fazer com o menino? Qual  o seu mtodo anticoncepcional? Sua casa ou a minha?
      As possibilidades marcharam atravs da cabea de Kyla. Ela odiaria ouvir qualquer uma delas. At agora ele tinha sido muito gentil. Ela devia ter imaginado 
que teria problemas. Nenhum homem puxa conversa com uma mulher, leva-a para o seu carro, presta-lhe um favor, e no espera nada em troca.
      Mantendo os olhos apontados para o tufo na coroa da cabea de Aaron, ela retrucou: 
       O qu?
       Esquerda ou direita?
      Uma risada nervosa de alvio escapou de seus lbios.
       Oh, desculpe. Direita.
      Ele sorriu e seguiu as instrues que ela agora oferecia sem que ele pedisse. Ele deve pensar que sou uma paranica, pensou Kyla. Ele  apenas um homem gentil 
que est bancando o bom samaritano para uma viva e seu beb. Nada mais.
      Ele talvez adequasse mais a esse papel se no fosse to bonito, to... msculo. Por exemplo, suas mos. Grandes, fortes, bronzeadas. Quando ele girou o boto 
do rdio, ela notou que suas unhas eram cortadas rudemente. As costas de sua mo e os ns dos dedos eram salpicados com pelos escuros, e queimados de sol nas pontas.
      Ele moveu o p direito do acelerador para o freio. Kyla notou a contrao e o estiramento de msculos salientes.
      O colo dele tambm atraiu sua ateno.
       O que voc acha?
       O que?
       Disse que acho que est quente. O que voc acha?
      As faces de Kyla ruborizaram. Teria ele flagrado-a olhando para...aquilo?
       Sim, est um pouco quente.
      Ele ajustou o termostato e ar frio comeou a sussurrar atravs da cabine. Mas a partir daquele momento, ela manteve os olhos afastados dele.
      Clif e Meg Powers moravam na mesma casa desde que Kyla nascera. Quando a compraram, a residncia ficava num bairro fino. Mas a expanso industrial da cidade 
e sua importncia crescente como alternativa de moradia a Dallas mudara o bairro. Ele no era mais fino.
      As casas, que j tinham sido bonitas e bem cuidadas, agora pertenciam a proprietrios que no se orgulhavam muito delas. Como senhoras que haviam se resignado 
 meia-idade, as casas e jardins pareciam sempre descuidados.
      A nica exceo no quarteiro era a propriedade dos Powers. A varanda da frente era delimitada por uma grade de ferro fundido, que Clif havia repintado no 
vero anterior. Os arbustos tinham sido podados para voltar a florir. Os canteiros estavam cheios de flores coloridas.
      Enquanto o caminho de Trevor entrava na rua, um sprinkler estava regando vigorosamente uma metade do jardim. A grama no outro lado da calada central que 
conduzia at a varanda da frente estava reluzindo  luz do fim de tarde, j tendo sido aguada.
        aqui  disse Kyla, apontando para a casa  frente dele. O p de Trevor j estava no freio. Ele sabia em que casa ela morava. No ms anterior ele passara 
de carro por ela vezes suficientes para saber em que dias o lixo era recolhido.
      Kyla no havia notado sua familiaridade com a vizinhana porque ela estava gemendo por dentro. Um carro familiar estava estacionado no caminho de acesso. Babs. 
Como se dar explicaes para seus pais j no fosse difcil o bastante, ela teria de lidar com Babs e sua imaginao fervilhante. Talvez ela conseguisse simplesmente 
descer do carro e agradecer a Trevor sem delongas. Talvez ele fosse embora antes que algum o visse.
      Ela estava sem sorte.
      Trevor mal havia freado a picape no meio-fio quando o pai dela saiu da casa. Ele olhou para a picape com curiosidade enquanto se abaixava para desligar a torneira 
e desativar o sprinkler. Ele pareceu ainda mais curioso quando reconheceu Kyla e Aaron sentados na outra extremidade da cabine.
       Aquele  o meu pai  disse Kyla, enquanto Clif Powers desceu a calada da frente. Por motivos que ela no podia explicar, Kyla sentiu-se nervosa e envergonhada.
      Trevor abriu a porta dele.
       Oi  disse ele com um ar amistoso ao saltar da picape.  Trouxe alguns passageiros que dizem que moram aqui. Clif Powers pareceu embasbacado.
      Kyla j abrira a porta quando Trevor contornou o veculo at o lado dela.
        melhor me passar o Aaron. O degrau  alto demais para voc.  Relutantemente, ela o deixou tirar Aaron de seu colo.
      Como se fizesse isso h anos, ele pegou Aaron pela cintura e o ancorou contra seu peito. Com a mo livre, ajudou Kyla a descer. Ele manteve a mo sob o cotovelo 
dela enquanto contornavam a caminhonete e se dirigiam ao intrigado pai de Kyla.
       Oi, pai.
       Onde est o seu carro? Tem alguma coisa errada?
       No, pai. No tem nada errado, mas no foi o passeio mais tranqilo que j fiz ao shopping.  Ela se perguntou como poderia tirar seu filho dos braos de 
Trevor sem criar uma situao desagradvel. Ela no queria correr o risco de toc-lo novamente. O que era ridculo, porque ele era perfeitamente indefeso.
       O que est acontecendo? Clif? Kyla?
      A voz pertencia a Meg Powers, que estava empurrando a tela da porta. O rosto agradvel de Meg exibia uma expresso preocupada. Atrs dela estava Babs. Kyla 
nem queria pensar no que a expresso preocupada de Babs estava comunicando.
      Meg desceu correndo os degraus da frente. Seus olhos se moviam entre Kyla e o estranho alto, de cabelos negros, que estava segurando seu neto.
       Mame, papai, este  o sr. Rule. Trevor Rule.
       Senhor, senhora  cumprimentou polidamente Trevor enquanto passava Aaron para seu brao esquerdo para trocar um aperto de mo com Clif Powers.
       E esta  minha amiga e scia, Babs Logan  acrescentou Kyla.
       Ol, srta. Logan.
      Os olhos de Babs danaram apreciativos sobre Trevor.
       Como ela achou voc?
      Babs no linha o menor tato. Ela no sabia como ser discreta. Ela disse exatamente o que os Powers estavam pensando, mas no tinham coragem ou falta de modos 
para perguntar.
       Ele meio que nos achou  disse Kyla.
       Onde est seu carro?  repetiu Clif.
       Ainda no shopping.
       Acho que a bateria arriou, senhor  acrescentou Trevor para Clif.
       O sr. Rule nos ofereceu uma carona para casa.
       Quanto cavalheirismo!  comentou Babs. Seus olhos ainda estava ocupados em inspecionar Trevor.  O que a sra. Rule acharia disso?
      Kyla ia mat-la! Assim que tivesse uma oportunidade, ela iria matar Babs com as mos nuas!
      Trevor meramente sorriu enquanto se curvava para pousar Aaron no cho. Normalmente, Aaron teria sado correndo. Mas assim que fez contato com a calada, comeou 
a choramingar. Suas mos gorduchas agarraram as pernas midas das calas de Trevor. Abaixando-se novamente, Trevor tomou-o nos braos e deu um tapinha em seu bumbum. 
Feliz, Aaron deitou a cabea contra seu peito.
       Sinto muito  murmurou Kyla, embaraada por seu filho ter se ligado a ele to depressa.  Vou peg-lo para que voc possa seguir seu caminho.
       Est tudo bem  assegurou Trevor com um sorriso.
      Por um instante, quando se entreolharam, foi como se estivessem sozinhos. Eles esqueceram de que tinham uma vida platia de trs pessoas.
       As roupas do beb esto molhadas  observou Meg.
       Ah, sim  disse Kyla, despertando do breve transe.  Ele caiu num chafariz.
      Os Powers ficaram instantaneamente alarmados. Babs ficou apenas mais curiosa.
       Isso foi antes ou depois da bateria arriar?  perguntou, claramente se divertindo.
       Antes. Trevor entrou no chafariz e puxou o Aaron. No se preocupe, me. Aaron est bem. Eles s se molhou.
       Como aconteceu?
       Eu estava dando um sorvete a ele  disse Kyla, oferecendo-lhe uma verso condensada da seqncia de eventos.  Quando olhei em torno, Aaron tinha sumido, 
mas havia uma multido em volta da fonte. O sr. Rule estava de p l, com Aaron encharcado em seus braos.
       Voc pulou no chafariz para tirar o Aaron?  perguntou Babs a Trevor, apontando com a cabea para as calas jeans, que ainda estavam midas abaixo dos joelhos.
       Sim.
       Hum...  ronronou Babs, olhando para sua amiga de um jeito que fez Kyla querer esgan-la.
      Clif e Meg estavam ocupadas agradecendo a Trevor por sua ao rpida e por sua gentileza para com Kyla e Aaron. Nenhum deles viu a troca de comentrios que 
as duas amigas desenharam com suas bocas.
       Ele  gostoso.
       Cale a boca.
       A sua blusa est molhada.
      Kyla imediatamente baixou a cabea e viu que realmente o tecido mido de sua blusa ainda estava grudado aos seios, delineando o suti de renda.
      Ela levantou os olhos a tempo de flagrar Trevor observando-a. O olhar dele havia seguido o dela para baixo, mas imediatamente retornou para seu rosto. Tudo 
isso aconteceu exatamente enquanto Meg, que estivera comentando sobre a rapidez com que uma criana pequena podia aprontar uma travessura, concluiu com:
       Por que no entra e toma uma xcara de caf conosco, sr. Rule?
       No!
      As faces de Kyla enrubesceram quando ela percebeu que dissera em voz alta a palavra que surgira em sua mente. Ela umedeceu os lbios.
       Quero dizer, j ocupamos muito tempo do sr. Rule.  Ela estendeu as mos para Aaron e virtualmente arrancou o menino dos braos de Trevor.
       Obrigada novamente. Voc foi muito prestativo, e sou muito grata pela carona.  Agora, por favor, v embora!, finalizou mentalmente.
       Foi um prazer.  Ele beliscou o queixo de Aaron.  Tchau, campeo. Foi um prazer conhecer vocs  disse ele, com um meneio de cabea para os outros.
      Com passadas elegantes, apenas levemente prejudicadas por sua perna manca, Trevor voltou para sua picape. Um ltimo aceno, e ele conduziu a caminhonete para 
a rua.
      Envergonhada, Kyla olhou para seus pais e Babs, que fitavam-na expectantes.
       Preciso livrar Aaron dessas roupas molhadas.  Kyla passou por eles, mas a seguiram e j a cercavam quando alcanou a sala de entrada espaosa.
       Conte!  exigiu Babs.
      Babs era a melhor amiga de Kyla desde os tempos de escola. A me de Babs morrera enquanto ela ainda cursava o ensino mdio. Seu pai passara freqentemente 
a fazer turnos duplos numa fbrica em Dallas. Desde essa poca Babs passava quase tanto tempo sob o teto dos Powers do que sob o seu. Ela se considerava parte da 
famlia, e eles tambm.
       Contar o qu?
       Sobre ele! D os detalhes!
       No tem detalhe nenhum.  Kyla seguiu at a cozinha para pegar um copo de suco para Aaron. Ela o colocou em sua cadeira alta e abriu a geladeira. E mais 
uma vez se viu cercada por seus pais e Babs.
       Ele pulou mesmo no chafariz para regatar o Aaron?  indagou Meg, que s se moveu quando esticou o brao para pegar um copo atrs da me.
       No foi to herico assim, mame. Ele no mergulhou em guas infestadas de tubares.  um chafariz raso, e Aaron no poderia ficar debaixo d'gua por mais 
que alguns segundos.
      Ela nem acreditava que estava fazendo pouco do incidente agora. H apenas uma hora, ela estivera pensando que Aaron poderia ter-se afogado se no tivessem 
sido pelos reflexos rpidos de Trevor Rule.
       E quanto ao carro?  perguntou o pai.  Como ele soube do problema do carro?
       Bem, ele... ele me acompanhou ate o estacionamento.
       At o seu carro?
       Sim. Porque Aaron estava chorando e eu ainda me sentia abalada.
       Ele se ofereceu para acompanhar voc?  perguntou Babs.
       Sim  disse Kyla.
       Hum...
       Pode parar de dizer "hum"? Voc no est fazendo um diagnstico. E eu peo a vocs trs que parem de olhar para mim com essas caras de fofoqueiros. Ele  
s um homem, certo? Uma pessoa do sexo masculino gentil o bastante para oferecer sua ajuda.     Nervosa, ela disse:  Francamente, vocs esto agindo como gatos 
famintos que encurralaram o ltimo rato da cidade.
       Ele no tinha obrigao de trazer voc para casa  disse Meg.
       Ele foi apenas gentil.
       Ele manca. O que ser que aconteceu com ele?  perguntou-se Clif.
       No  da nossa conta. Nunca mais vamos ver aquele homem de novo. E, papai,  melhor ligar para a oficina e mandar algum pegar meu carro. Precisa de ajuda 
com o jantar, me?
      Eles reconheceram o tom de Kyla. Era o tom seco e sucinto que ela comeara a usar vrios meses atrs para que soubessem que ela terminara oficialmente seu 
luto por Richard. Com esse jeito de falar rude ela indicava que no precisavam trat-la como se fosse uma boneca de porcelana, nem falar em voz baixa, como se ainda 
estivessem no funeral. Com isso, ela claramente indicava que no estava mais interessada em paparicos. E eles, ao ouvirem esse tom, sabiam quando era hora de se 
afastar de Kyla, e este era um desses momentos.
       No, querida, obrigada  disse Meg, recusando a oferta.  Leve Aaron para cima e troque as roupas dele. Vamos apenas comer sanduches e eu posso me virar. 
Voc vai ficar, Babs?
       No esta noite, obrigada, Tenho um encontro. Kyla saiu da cozinha e carregou Aaron para cima. Babs a seguiu.
       Pensei que voc tinha um encontro  disse Kyla enquanto carregava Aaron para o quarto de hspedes, que fora convertido em berrio para ele.
       Tenho tempo.
       Algum que eu conhea? Ou este  novo?
       No vai funcionar, Ky  disse Babs, sentando na cadeira de balano e cruzando as pernas ao estilo ndio.
       O que no vai funcionar?  Kyla fez-se de desentendida enquanto desafivelava os suspensrios de Aaron e tirava seus shorts.
       Tenta fugir do assunto. Aquele seu namorado alto e moreno.
       Ele no  meu... nada.
       Acha que ele  casado?
       Como vou saber? Alm disso, que diferena isso faz?
       Est dizendo que voc se envolveria com um homem casado?
       Babs!  exclamou Kyla, girando nos calcanhares.  No vou me envolver com ningum. Ele s me ofereceu uma carona, pelo amor de Deus! Como foi o movimento 
na loja?
       Mediano. Eu no acho que ele seja casado  prosseguiu Babs, teimosa.  Ele no estava de aliana.
       Isso no significa nada.
       Eu sei. Mas ele no tem aquele jeito de homem casado, sabia?
       No. Eu no sabia. No olhei atentamente para ele.
       Bem, eu olhei. Cada centmetro daqueles mais de um e oitenta dele. E falando em centmetros, notou como a frente das calas jeans dele estavam bem preenchidas?
       Pare com isso!  Babs tocara num nervo e Kyla deu as costas para sua amiga porque no queria que ela visse suas faces ruborizadas.
       O que voc achou do tapa-olho?
       No achei nada.
      Babs estremeceu.
       Achei sexy pra caramba. Aquele bigode deixa ele com uma aparncia maligna, como se fosse um pirata, ou um bandoleiro.
       Pirata, bandoleiro? Voc anda lendo muitos romances histricos.
       E aquele nico olho azul dele...
        verde.  No momento em que as palavras saram de sua boca, ela soube que havia se incriminado. Torcendo para que Babs no tivesse notado seu deslize, ela 
olhou cautelosamente sobre o ombro.
      O sorriso de Babs foi angelical, mas havia malcia pura em seus olhos.
       Achei que voc tinha dito que no olhou com ateno para ele  provocou. 
       Voc pode ir para casa, por favor?  Kyla puxou Aaron, agora nu, para seus braos.  Vou dar um banho em Aaron porque ele vai para a cama logo depois de 
jantar. Voc tem um encontro. E...  Ela respirou fundo.  Eu no quero falar mais sobre o sr. Rule. Nem quero pensar nele.
       Mas ele est pensando em voc  disse Babs, desdobrando as pernas e se levantando. Ela no estava nem um pouco intimidade pela rabugice de Kyla.
       No seja ridcula. Por que ele pensaria em mim?
       Porque pareceu muito relutante em sair. Se voc no tivesse agido do jeito que agiu quando a sua me ofereceu um caf para ele, aposto que ele teria aceitado 
o convite como uma desculpa para ficar. Ele notou a sua blusa molhada, exatamente como eu.
       No notou no!  gritou Kyla, indignada.
       Ah, sim, notou sim. Tchau.
      Antes que Kyla pudesse oferecer outro protesto, Babs estava descendo. Durante o jantar os Powers estavam to curiosos sobre o homem que "resgatara"  conforme 
Meg parecia determinada a definir  Kyla e Aaron. Suas perguntas no eram to explcitas quanto as de Babs, nem to sexualmente orientadas, mas eram igualmente indiscretas.
      Quando ela no agentava mais o interrogatrio sutil, Kyla se levantou e disse:
       Queria ter chamado um txi. Eu no sabia que um nico homem podia causar tanta comoo. Nunca mais vamos ver o sujeito de novo. Agora, boa noite!
      Ela carregou Aaron para o andar de cima e o colocou na cama. Depois, em seu prprio quarto, ela tentou ler, mas continuava penando em Trevor Rule.
       No  de admirar, com todo mundo falando nele a noite inteira  resmungou, fechando com fora seu livro.
       No importa o que Babs diga, ele no estava olhando para a minha blusa  declarou enquanto a estava tirando.  Ele no estava!  murmurou novamente enquanto 
retirava o suti.
      Mas o pensamento de que ele poderia t-la olhado a manteve acordada por um bom tempo.
      
       Eu no acredito nisso!  exclamou Babs, imobilizando subitamente a cadeira de balano da varanda da frente. 
       No acredita no qu?  perguntou Kyla durante um bocejo. Ela estava esticada numa das cadeiras da varanda. Sua cabea estava repousando no encosto e os olhos 
estavam fechados. Era uma tarde quente e ensolarada de domingo e ela estava se sentindo preguiosa e indolente.
        ele!
      Kyla abriu um olho e viu a pessoa a respeito de quem Babs estava se referindo, e em seguida seu outro olho abriu tambm. Trevor Rule estava freando um carro 
na frente da casa.
       Que foi que eu disse?  provocou Babs.  Ele voltou para dar outra espiada.
       Se voc disser qualquer coisa que me cause embarao, juro que te mato  ameaou Kyla. Ela sorriu debilmente Trevor enquanto ele vinha da calada para a varanda.
       Oi.
       Oi  disseram em coro as mulheres.
      Ele lanou um olhar superficial para Babs antes de fixar sua ateno em Kyla. Envergonhada, ela se deu conta de que estava de shorts e descala. Suas sandlias 
tinham sido chutadas para o canto, mas recuper-las agora chamaria mais ateno  forma casual e confortvel com que estava vestida.
       Eu estava preocupado com o seu carro, mas vejo que voc o consertou.  Ele indicou a picape estacionada no caminho de acesso.
       Sim. Papai ligou para a oficina da qual  cliente. Ele encontrou o mecnico no estacionamento e eles carregaram a minha bateria. O carro pegou, mas eu provavelmente 
terei de trocar a bateria.
       Isso  uma boa idia. Voc foi com ele?
       No.
       Como ele localizou a sua picape naquele mar de carros que estava l ontem? Ela riu.
       Era a nica com Petal Pushers pintado na lateral. A risada gostosa de Trevor ecoou suavemente na varanda.
       Bem, estou feliz por ter recuperado seu carro.
       Eu tambm.
      Nervosa, Kyla enrolou uma mecha de fios claros atrs da orelha, perguntando-se se seus cabelos pareciam ter sido penteados com uma batedeira de ovos.
      A reao de Trevor ao cessar da conversa foi enfiar as mos nos bolsos das calas jeans, esticando o tecido sobre seus quadris estreitos. Kyla desejou no 
ter lembrado do comentrio de Babs sobre o corpo dele. Mas ela lembrou, e isso deixou sua mente aberta a especulaes nada dignas de uma dama.
      Da sua parte, Babs gostaria de esganar Kyla por ser to boba. Ela decidiu tomar a situao em suas prprias mos.
       No quer sentar, Trevor? Bebe alguma coisa?
       Ah, no  disse ele, rapidamente removendo as mos dos bolsos.  Na verdade, vim esperando convencer Kyla e Aaron a irem tomar um sorvete comigo. Eu sei 
que ele gosta de sorvete de casquinha.
      Kyla abriu a boca para recusar o convite, mas Babs se intrometeu:
       Mas no  uma pena? Aaron est tirando um cochilo.
       Ento seus olhos azuis se arregalaram com inspirao sbita.
       Mas voc deveria ir, Kyla.
       Eu no...  balbuciou Kyla, corada.
       Estou interrompendo alguma coisa?  perguntou Trevor a Babs.
       Ora, no se preocupem comigo  disse Babs, rindo.
       Eu no moro aqui, mas no sou uma visita que precise ser entretida. Kyla e eu somos velhas amigas. A bem da verdade, os pais dela praticamente me criaram. 
Ns estvamos nos bronzeando esta tarde. Sabe, tem uma parte do terrao deles, bem em frente ao quarto da Kyla, onde a gente pode tomar banho de sol em privacidade 
absoluta.  Ela piscou para ele.  Se  que voc me entende.
      Ele entendeu. No era estpido. E no que dizia respeito a jogos de palavras, ele podia fazer trocadilhos que encabulariam at uma namoradora como Babs. Puxa, 
ele havia at inventado alguns trocadilhos. Poderia ter-se inclinado para a frente, includo ambas num sorriso sugestivo e proferido uma dzia de trocadilhos repletos 
de conotaes variadas a respeito de se tomar banho de sol nu. Mas o sorriso no rosto de Kyla parecia to tenso que ele no insistiu no assunto.
       Mas ficou quente demais  prosseguiu Babs.  Assim ns entramos para tomar uma ducha, e agora estamos apenas relaxando aqui  sombra. Na verdade, eu estava 
quase cochilando, de modo que no h motivo para Kyla no ir com voc.   Trevor olhou para Kyla e sorriu.
       Voc gostaria? 
       No, eu... 
       Kyla, quem... Oh, Sr. Rule  disse o pai dela por trs da porta de tela. Ele a abriu e saiu. Vestia apenas uma camiseta sobre calas, e tinha os ps protegidos 
s por meias.
       Ol, senhor.  Trevor apertou educadamente a mo dele.  Espero no ter perturbado o seu cochilo.
       No, no  mentiu Clif.  Eu ainda nem terminei de ler jornal de domingo. Acho que vou traz-lo aqui pra varanda.
       Trevor veio buscar Kyla para tomar um sorvete. Muita gentileza da parte dele, no acha?  Babs fez o anncio com um sorriso largo, como se alguma lei importantssima 
tivesse acabado de ser promulgada. 
       Acho sim  concordou Clif 
       Mas acho que eu no devia ir porque o Aaron... 
       Ele vai ficar bem. Ele e a sua me ainda esto dormindo. Acabei de dar uma olhada nele. Pode ir. Vai te fazer bem sair para um passeio.
      Kyla no se lembrava da ltima vez que recebera permisso para completar uma frase. Ela teria alegremente estrangulado todos os trs, seu pai por ser to obsequioso, 
Babs por sua lngua solta, e Trevor Rule por coloc-la nesta situao comprometedora.
       Muito bem. vou subir para trocar de roupa.
      Ela se levantou da cadeira e comeou a caminhar at a porta da frente.
       Voc no precisa trocar de roupa  disse Babs com a autoridade de um sargento de treinamento. Ela sabia o que Kyla iria fazer. Iria subir e acordar Aaron 
para us-lo como desculpa para no ir.
      Bem, ela no ia se safar com esse truque. Ela era uma viva, com certeza. Mas era uma viva jovem e deslumbrante, e Babs no queria v-la afundar ainda mais 
em sua concha.
      Trevor Rule era o primeiro homem com coragem suficiente para perseguir Kyla mesmo depois de ter recebido um belo gelo. Kyla poderia quer-lo ou no, mas Babs 
decidiu que era obrigao sua garantir que ele no se sentisse derrotado e retirasse o time de campo. Sua inflexo suavizou quando ela perguntou:
       Ela precisa trocar de roupas, Trevor? Voc vai lev-la a algum lugar onde ela precise estar bem vestida?
       Acho que no. Kyla?
      Ele pronunciou seu nome com tanto entusiasmo que ela no conseguiu achar uma forma educada de recusar seu convite.
       Acho que posso ir  disse Kyla, abaixando a bainha dos shorts.  Se no formos demorar muito.  Ela voltou at a cadeira para calar suas sandlias. Depois 
de fulminar Babs com um olhar venenoso, ela se levantou novamente.
       Acho que estou pronta.
      Trevor deu o brao para ela e a conduziu para fora da varanda. 
       No precisa ter pressa de voltar  gritou Clif s costas deles.  A gente cuida do beb.
       Divirta-se  disse Babs, acenando alegremente. 
      Mortificada, Kyla sentou no banco da frente. Ela lutou contra uma compulso de esconder o rosto atrs das mos quando Trevor entrou e ligou o carro. Assim 
que dobraram a esquina do quarteiro, ele a surpreendeu parando o carro no meio-fio. Ele colocou o cmbio automtico em "Estacionar" e, deitando o brao direito 
no encosto do banco da frente, virou-se para ela.
       Olhe, eu sei que te deixei sem jeito, mas no foi minha inteno. Certo?
      Uma insinuao de sorriso nos cantos da boca de Trevor. Ela baixou a cabea e deixou escapar uma risada curta.
       Eu fiquei sem jeito, sim.
       Eu sei. Desculpe.
       No foi nada que voc tenha feito. O meu pessoal agiu como se quisesse te amarrar antes que voc fugisse.
       Parece que voc no tem sado muito desde a morte de seu marido.
       Eu no sa com ningum desde a morte dele. E no pretendo comear agora.
      Trevor recebeu a notcia como um soco de surpresa no queixo. Ele se virou para a frente e contemplou o capuz do carro atravs do parabrisa. Por um lado, ele 
estava empolgado em saber que ela no estivera vendo outros homens. Pelo outro lado, ela estava estabelecendo uma regra que ela no parecia interessada em infringir. 
Mas ela estava no carro dele, no estava? Ele tinha conseguido chegar at aqui, no tinha?
      Kyla estava pensando que ela talvez tivesse sido rude demais e estava na iminncia de pedir desculpas quando ele virou a cabea e perguntou:
       Nem para tomar um sorvete?
      Ele tomou a risada espontnea de Kyla como um consentimento e voltou a acionar o cmbio do carro.
       Alm do mais, tomar sorvete  como beber.
       Como assim?
       No tem graa se voc faz sozinho.
      Ele dirigiu pelas ruas de Chandler, que deveriam ser familiares para Kyla, mas que Trevor parecia conhecer melhor do que ela.
       Comprei este terreno.
        onde ficava o correio antes de ter se mudado para o shopping center novo.
       Foi o que me disseram. Vou construir um pequeno edifcio comercial no terreno. Haver um ptio central com plantas e chafarizes. Espero atrair profissionais 
liberais, como mdicos e advogados.
       Fiz um lance naquele terreno ali, mas acho que no vou ganhar  disse ele a respeito de outra propriedade em frente da qual passaram.  Vo fazer um novo 
supermercado ali.
       Mas  um pasto de vacas! Ele riu.
       Espere um ano. Soube que vo fazer um complexo de cinemas tambm.
      Ele parecia ter informaes de primeira mo sobre tudo que estava acontecendo numa cidade na qual ela passara toda sua vida. E mais: ele parecia ser um dos 
responsveis por esses acontecimentos.
       Babs e eu estamos pensando em mudar a Petal Pushers para outro endereo.
       No, vocs esto bem l. Ela olhou rpido para ele.
       Como sabe onde fica a nossa loja?
       Passei por ela hoje antes de ir visitar voc  disse ele com tranqilidade depois de uma breve pausa.  Qualquer loja chamada Petal Pushers chamaria a minha 
ateno. H quanto tempo vocs esto no ramo?
       Quase um ano. Seis meses depois que o Richard morreu... Richard era meu marido.  Sem pensar, ela abaixou mais a bainha dos shorts.  Quando Babs e eu ramos 
crianas, nosso filme favorito era Minha bela dama, e ela sempre disse que iramos trabalhar numa floricultura, como era o sonho de Eliza Doolittle. Ento, quando 
me vi sem perspectivas, Babs comeou a tentar me convencer a abrir uma loja. Na poca ela estava insatisfeita com o seu trabalho. Meus pais acharam que era uma boa 
idia. Eu precisava fazer alguma coisa com a minha vida e um investimento para o futuro de Aaron. Ento ns secamos nossos recursos  disse ela, arrastando a ltima 
palavra.  Quando me dei conta, eu era coproprietria de uma floricultura.
       E tem sido um bom negcio?
       At aqui, muito bom. O outro florista da cidade tem idias antiquadas e nenhuma imaginao. Estamos comeando a superar ele  disse com um sorriso traquinas 
que naquele momento Trevor teria dado cus e terra para provar. Ele queria notar cada dobra nos shorts apertados contra aquelas coxas lisas, bronzeadas e aromatizadas 
com loo.
      Mas, para sua suprema irritao, ele precisava devotar sua ateno ao volante, Ele sara da rodovia principal e entrara numa estrada ainda no pavimentada. 
O caminho era acidentado.
       Voc conhece uma sorveteria que eu no conheo?  perguntou Kyla.
      Ele abriu um sorriso largo e piscou.
       Talvez eu esteja apenas levando voc para o meio do mato.  O sorriso dela estremeceu e ele riu. Esticando a mo, ele deu um tapinha no joelho dela.  Relaxe. 
 Estou tocando o joelho dela. Minha pele contra a dela. Deus! Mas no abuse da sua sorte. Remova a mo. Agora, Rule, agora.  Estou construindo uma casa do cho. 
Alguns dos carpinteiros esto trabalhando hoje me cobrando adicional de fim de semana, e quero me certificar de que eles esto l mesmo. Voc se importa se pararmos 
l uns minutinhos?
      No, ela no se importava. Mas "relaxar"? Impossvel. No quando ela ainda podia sentir o toque da mo dele queimando na pele de seu joelho nu.
      
      
      
     Captulo Quatro
      
      
      
      A estrada coleava por uma floresta de pinheiros, carvalhos e nogueiras. No fim estava uma casa atualmente em construo. Mesmo neste estgio inicial Kyla podia 
ver que a estrutura iria ser contempornea e impressionante. O terreno ascendia atravs da floresta at um crrego raso.
        linda, Trevor!  exclamou Kyla, sem notar a facilidade com que pronunciara o nome dele.
      Mas ele notou e sorriu para ela enquanto parava o carro.
       Gostou?
       O terreno  lindo.
       Venha, vou lhe mostrar o lugar.
       Acho que eu no deveria sair.  Ela estava com vergonhas de suas roupas sumrias e dos trabalhadores curiosos que, sem exceo, haviam interrompido suas 
tarefas quando o carro entrara na clareira.
       O patro aqui sou eu  disse Trevor, abrindo a porta.  Seu eu digo saia, voc deve sair.
      O sol espalhou calor pelas suas pernas nuas. Uma brisa clida as acariciou. No estava nem to cnscia dos elementos quanto estava dos olhares direcionados 
a ela enquanto Trevor fazia-a caminhar pelo terreno acidentado e em torno de pilhas de materiais de construo, at a casa. Eles caminharam cuidadosamente. Depois 
de um olhar severo da parte de Trevor, o trabalho recomeou. Martelos repicaram. Uma serra rugiu. Uma broca zumbiu.
       Cuidado com pregos  avisou Trevor Uma das mos dele envolvia o cotovelo de Kyla. A outra estava apoiando as costas dela. Depois que tinham vencido a maior 
parte dos obstculos, ele removeu as mos, muito a contragosto.  A porta da frente ser aqui. Eu estava pensando em alguma coisa com vidro entalhado.
       Vai ficar muito bonito.
       Ao entrar na casa, voc estar numa entrada com teto alto. E com uma claraboia.
       Adoro claraboias.
        mesmo?  Ela dissera isso numa de suas cartas.
      ...e entrei nela. Era o tipo de casa com que sempre sonhei. Contempornea. Cercada por rvores, e dotada de uma claraboia.
       Certa vez vi uma casa como esta, e adorei.
       Cuidado onde pisa.  Segurando a mo dela cavalheirescamente, Trevor conduziu-a at o andar seguinte.  Esta  a sala de estar. Muito informal. Haver uma 
lareira naquela parede. A sala de jantar ser naquela direo. E a cozinha naquela.  Ele mostrou as marcaes no cho e Kyla tentou imaginar como seria quando as 
paredes fossem levantadas. Concentrar-se na casa ajudava a distrair seus pensamentos da sensao maravilhosa ter sua mo pequena envolvida pela mo grande de Trevor.
       Consegue passar por ali?
       Claro  disse ela, grata pela oportunidade de remover sua mo da dele.
      Mas isso no aconteceu, ele continuou segurando a mo de Kyla com firmeza enquanto eles se espremiam atravs de um labirinto de andaimes.
       Este  o quarto principal.  claro, em breve voc no vai poder mais passar atravs das paredes. Ter de usar os corredores.
       Parece uma pena fech-lo.
      Os cmodos eram to abertos e arejados que voc teria a sensao de morar ao ar livre.
      Exatamente o que pensei. Quase cada corredor tem um janela panormica, para voc no ter a sensao de que est enclausurada.
      Raios de sol passavam atravs das vigas no teto para deitar sombras em Trevor, ressaltando seu rosto. A luz encontrava cada fio iridescente em seus cabelos 
negros. Seu bigode preto espalhava-se largo sobre um lbio inferior carnudo e sensual.
      Kyla retirou a mo de dentro da dele e quase no resistiu ao impulso de entrela-la na outra. Por mais casuais que parecessem os toques dele, ela achava que 
eles no eram nada casuais.
       Simplesmente no parecia possvel que um homem com o rosto e o corpo de Trevor Rule no fosse um conquistador. Ela podia imagin-lo com um enorme nmero de 
coraes de mulheres dependurados de seu cinto como trofus. Quando mais cedo ele compreendesse que ela no estava disponvel, melhor.
       O que vai ser ali?  perguntou ela, colocando espao entre eles.
       Outra lareira.
       Voc est brincando!
       No, por qu?
      Ela sempre imaginara sua casa dos sonhos com uma lareira no quarto principal, mas alguma coisa acautelou-a a no dizer isso a Trevor.
       Nada. Acho que ter uma lareira aqui seria maravilhoso.
       E romntico. Ela desviou o rosto.
       Suponho que sim.
       Sr. Rule?  Um dos carpinteiros havia se juntado a eles, mas at aquele instante passara despercebido.  Desculpe, mas aproveitando que o senhor est aqui, 
pode me responder uma pergunta?  sobre a saleta de desjejum.
       Claro. Vamos j falar com voc.  Eles retraaram seus passos atravs do esqueleto da casa at a rea da cozinha.
       Nesta rea informal de jantar, o senhor disse que queria uma janela. Em que parede o senhor quer a janela?  indagou o carpinteiro.
      Cruzando os braos sobre o peito, Trevor girou nos calcanhares de sua bota para olhar para Kyla.
       Como voc parece ter um instinto para essas coisas, em que parede acha que devemos colocar a janela?
       No sei nada sobre construo. 
       S estou pedindo sua opinio.
       Bem, vejamos  disse ela, hesitante.  O sul fica ali, certo? E ali  leste?
       Isso  confirmou o carpinteiro.
      Ela contemplou a disposio por um momento, e ento disse:
       Por que no em ambas as paredes?  Diante das expresses intrigadas dos dois, ela acrescentou:  As janelas no poderiam se encontrar na quina? Talvez ter 
um daqueles tetos em ngulo que so feitos de vidro? Ento seria como comer ao ar livre, cercados por rvores.
      O carpinteiro estava coando a cabea, pensativo.
       J vi um daqueles quartos de sol pr-fabricados  disse ele.  Acho que poderia funcionar aqui.
      Trevor, tendo comprado a idia, deu um tapinha no ombro do carpinteiro.
       Consulte o arquiteto e me diga o que ele acha. Adorei a idia.  Ele se virou para Kyla.  Obrigado!
      Ela sentiu as faces corarem devido ao elogio.
       Tenho certeza de que o arquiteto no vai ficar muito feliz comigo por ter estragado a planta dele.
       O arquiteto s precisa se preocupar em me agradar. Eles saram novamente para cu aberto e comearam a caminhar at o carro estacionado.
       Acho que a casa vai ficar espetacular  disse Kyla com honestidade.  Eu me pergunto quem ir viver nela.
       No tenho como saber. Talvez voc e Aaron.
      Pega de surpresa por essas palavras, ela tropeou num saco de cimento vazio. Trevor estendeu o brao para a frente e envolveu a cintura de Kyla antes que ela 
pudesse piscar. 
       Cuidado. Voc est bem? Ela estava bem, exceto por uma falta de flego repentina, uma sensao de formigamento ao longo de sua pele exposta e um calor no 
centro de seu corpo. Ela esquecera o quanto era maravilhoso estar nos braos de um homem. Os aromas associados  masculinidade  creme de barbear, colnia, suor 
 encheram sua cabea. Ela sentira falta desses aroma. Ele era atltico e forte. Ela sentiu o hlito quente de Trevor em sua face quando ele se curvou para ela, 
solcito.
       Estou bem  balbuciou e se afastou dele.
       Tem certeza?
       Sim. Sou meio desajeitada, s isso.
      A quase queda soltara uma correia da sandlia dela. Ela se curvou para reajustar a correia e, quando o fez, um dos trabalhadores assobiou. Ela imediatamente 
endireitou o corpo e olhou para trs. Todos eles pareciam concentrados em suas tarefas. E todos eles pareciam inocentes demais para no serem culpados.
      Ela olhou para Trevor, que sorriu e disse, encolhendo os ombros:
       Ento eles tm um gosto excelente. Vamos?
      Sim, ela definitivamente queria sair dali. Ela viera com ele para apaziguar seu pai e Babs. No deveria ter demorado mais do que meia hora. Quanto tempo teria 
levado para irem de carro at a sorveteria e comprar duas casquinhas?
      Mas eles haviam seguido de carro por toda a cidade para vir para c. Ela no tinha nada que estar num canteiro de obras com ele, oferecendo-lhe opinies sobre 
a casa que ele estava construindo. O que dera nela?
        melhor voc me levar para casa  disse ela assim que ele comeou a guiar o carro pela estrada acidentada.  Aaron vai acordar logo.
       Eu lhe prometi um sorvete.
       Isso no importa.
       Importa para mim.
      E ele no estava disposto a discutir isso. Pelo menos se a forma como mantinha o queixo empinado era algum indcio. Nesse momento Kyla teve um lampejo de outro 
Trevor Rule. Ele poderia ser suficientemente gentil para entrar num chafariz e retirar um menininho. Ele poderia ter um corao suficientemente bondoso para empurrar 
um carrinho de beb atravs de um shopping cheio numa tarde de sbado. Ele poderia ser atencioso o bastante para levar uma mulher em dificuldades para sua casa. 
Mas ele tambm possua uma teimosia tipicamente masculina. Sua arrogncia era vagamente intimidadora para a mulher sentada ao seu lado no carro refrigerado.
      O carro era outra contradio. Kyla esperara que ele dirigisse alguma coisa possante, baixa, arrojada e provavelmente importada. Em vez disso ele dirigia um 
carro de fabricao americana, conservador, de famlia de classe mdia, com um banco traseiro que acomodaria facilmente a cadeirinha de nenm de Aaron.
      Meu Deus! O que a fez pensar nisso?
       Qual  o seu favorito?
      Ela deu um pulo, assustada com seu ltimo pensamento e com a pergunta repentina dele.
       Meu favorito o que?
       Sorvete. O meu  chocolate com amndoas.
       O meu tambm! Ele sorriu para ela.
       Srio?
       Eu jamais brincaria a respeito do meu sorvete de chocolate com amndoas.
      No primeiro domingo de sol da estao, a sorveteria estava cheia. Trevor acomodou Kyla numa banqueta alta ao lado das janelas, e em seguida entrou na fila 
para aguardar pacientemente. Ela pediu por uma bola, ele lhe trouxe duas.
       Nunca irei tomar tudo isto  disse ela, lambendo o sorvete pecaminosamente calrico.
       Tente. Vamos para a sacada. Voc est com frio.
      O ar condicionado na sorveteria estava ligado no mximo e Kyla ficara com os braos e as pernas arrepiados. No sabia se ficava impressionada com a ateno 
de Trevor ou desconcertada pelo fato dele estar atento para seu corpo a ponto de ter notado a pele arrepiada.
      Enquanto eles saam para a sacada, uma famlia de cinco pessoas entrou.
       Papai, o que aconteceu com o olho dele?  perguntou uma menininha.
      Desconcertados, os pais empurraram as crianas para dentro da sorveteria e lhes sussurraram para que no fitassem o moo.
       Desculpe  murmurou Trevor.
      Kyla ficou sem palavras. Ela estava embaraada por ele e pelos pais. Ela certamente no culpava as crianas que eram naturalmente curiosas e no pretendiam 
ser cruis.
       Voc se incomoda de ser vista comigo?  perguntou ele, num tom inconscientemente agressivo.
       No!  gritou ela, virando-se para fit-lo.
       Eu sei que o tapa-olho repele algumas pessoas.
       E atrai outras.  Ele olhou para ela, surpreso. Ela explicou:  Babs disse que faz voc parecer um bandoleiro.
      Ele balanou a cabea, rindo.
       Um bandoleiro, ?  Ento o sorriso sumiu.  Um bandoleiro que assusta criancinhas.
       Aaron no ficou assustado  comentou ela.
        mesmo, ele no ficou.  A postura tensa comeou a relaxar  Sinto muito se voc ficou embaraada com o que a menininha disse.
       Eu no fiquei embaraada.  s que sei que situaes como essa podem ser desconcertantes para voc.
       Estou me acostumando a elas. Ele lambeu sua casquinha, e em seguida correu a lngua por baixo do bigode, para umedecer o lbio superior Kyla no resistiu 
a imaginar como aquele bigode seria ao toque. Sedoso ou spero?  s vezes at esqueo como  a minha aparncia para as outras pessoas. Como hoje. Vesti bermudas, 
e ento mudei de idia e coloquei estas calas jeans.
       Por qu? Ele riu.
       Se voc acha este tapa-olho assustador, precisa ver minha perna esquerda. Eu no vim de bermudas para no repugnar voc.
       No seja bobo. Pode usar bermudas sempre que se encontrar comigo.
      O sorriso dele ficou reflexivo quando fitou profundamente os olhos dela. 
       Vou lembrar disso  disse numa voz baixa e sedutora.
      Droga! Ser que Trevor achou que ela estava insinuando que iriam ver novamente um ao outro? Para alterar o curso da conversa, ela perguntou:
       Voc sofreu um acidente?
       Mais ou menos.
      Outro equvoco. Obviamente falar sobre a causa de suas deficincia fsicas causava-lhe desconforto. Ela buscou por alguma coisa que eles pudessem conversar 
e no encontrou nada.
      O que tinham em comum alem de uma meia hora de caos num shopping center?
      Trevor no pareceu notar essa falta de campo comum enquanto conduzia-a para debaixo do toldo que protegia parte da sacada do sol de vero. Sentaram-se no banco 
e puseram-se a tomar seus sorvetes.
       Melhor?  perguntou ele depois de um longo silencio, cutucando o brao dela.  Sua pele no est mais arrepiada.
       Muito melhor  Se Kyla ficasse arrepiada agora seria porque a coxa de Trevor estava muito perto da sua. Ocasionalmente ela sentia o brim macio das calas 
dele roar em sua perna.
       Voc est usando outro par de botas  comentou ela, mordendo sua casquinha.
      Ele olhou para os ps, que estavam realmente calados com outro par de botas de couro de lagarto. Tendo crescido no Texas, Kyla sabia que elas no tinham sido 
baratas.
       At muito recentemente eu nunca havia usado botas de caubi. Agora estou convencido que nunca mais na vida vou usar outra coisa.
      A sorveteria estava situada numa fileira de lojas e butiques, O construtor do shopping center, que, conforme Trevor dissera antes a Kyla, era um dos melhores 
no mercado, criara um ambiente em estilo de parque no shopping a cu aberto. Salgueiros curvavam-se sobre um crrego artificial franjado com pedras, como se prestando 
homenagem aos peixes que nadavam ali. Barris de usque cortados ao meio transbordavam com flores. Era um lugar buclico para sentar na grama, chapinhar na gua, 
caminhar de mos dadas com algum especial.
      Kyla notou que outro casal sara para a sacada. Obviamente os dois jovens estavam to absorvidos um pelo outro que no viram ela e Trevor sentados  sombra 
do toldo. Falando em voz baixa, os braos do rapaz na cintura da moa, o brao da moa atrs da cabea dele, os ventres encostados um no outro, ao estilo universal 
dos amantes.
       Voc obviamente no cresceu nesta parte do pas.  Kyla pigarreou, imaginando se Trevor teria visto o outro casal. Ao notar que ele estava demorando para 
responder  sua afirmativa, ela olhou para ele. Estava olhando para o rapaz e a moa do outro lado da sacada.
      Sentindo os olhos dela em si, Trevor girou a cabea, culpado.
       Bem, no. Filadlfia. Estudei no nordeste do pas.
      A mo do homem agora estava acariciando o brao de sua acompanhante, deslizando as costas dos dedos entre o cotovelo e o ombro da jovem. Ento ele comeou 
a acariciar-lhe o pescoo.
        por causa disso que voc no tem sotaque  disse Kyla.
      O rapaz deu um beijo leve e rpido na boca da moa.
       Acho que sim.
      A mulher curvou a cabea para trs e disse alguma coisa que fez seu amante rir baixo.
       Voc tem famlia?  A voz de Kyla estava baixa e ofegante, como se fosse seu prprio pescoo que lbios masculinos estavam mordiscando.
       Famlia?  repetiu Trevor.  Oh, famlia. Sim, o meu pai. Ele  advogado.
      A boca do homem afastou a gola da mulher e desapareceu entre as dobras de tecido. Reflexivamente, Trevor penteou o bigode com a ponta da lngua.
       S isso? S o seu pai?
      A mulher produziu um som baixo e moveu uma das mos para o peito do homem. Com o dedo, acariciou lnguida os arredores do mamilo dele.
      Contorcendo-se no banco, Trevor tossiu.
       S isso. Minha me morreu h muitos anos. No tenho irmos nem irms.
      Os amantes se beijaram. Desta vez para valer Houve um inclinar de cabeas. Um acariciar de lnguas. Braos e pernas moveram-se simultaneamente para juntar 
dois corpos. Coxas ajustaram-se para se entrecruzar. Gemidos de prazer e murmrios de excitao foram carregados pelo vento caprichoso que soprava no terrao.
      A coxa musculosa agora estava pressionada fortemente contra a de Kyla, flexionada e muito dura.
       D uma lambida.
      Ao comando rspido, os olhos de Kyla subiram para encontrar um nico olho verde fitando-a.
       O qu?  perguntou ela.
       Uma lambida. Rpido. Antes que escorra.  Lbios se entreabriram, olhos se arregalaram, e ela fitou-o muda.  O seu sorvete.
      Isso a despertou, e ela imediatamente pulou para trs.
       Oh!  O sorvete derretido estava escorrendo pelos seus dedos.
      Trevor se levantou abruptamente, uma expresso sofrida no rosto.
       Voc j terminou?
      Ela olhou para os restos da casquinha de sorvete e ficou surpresa em descobrir que havia sido espremida para uma polpa. Como se fosse uma arma fumegante que 
estivesse segurando, ela praticamente largou a casquinha.
       Sim, terminei.
      Por mais que sua mente ordenasse, o corao no se acalmava. Ela estava com a boca seca. Meu Deus, o que ela daria por um pouco de ar puro. Oxignio, era disso 
que precisava para se livrar desta vertigem que a atingira desde que ele mencionara ela e Aaron vivendo na casa.
      Trevor carregou o lixo para o receptculo perto da porta para a sacada. Kyla se levantou, embora seus joelhos estivessem vacilantes, e o seguiu. Ele ficou 
estarrecido em ver o quanto ela parecia linda emoldurada na porta.
      Sol bateu nos cabelos dela e os iluminou como uma aura em torno de seu rosto. Os olhos entreabertos estavam vermelhos e midos. Ela estreitou os olhos para 
proteg-los contra o sol, e longos clios curvaram-se em torno dos olhos castanhos.
       Trevor? Tem alguma coisa errada?
       No  retrucou ele, rouco.  S estava pensando em voc tomando banho de sol no terrao.  Cor, quente e vivida, subiu do colo de Kyla para seu pescoo e 
faces. Ela no disse nada, mas o rosto de Trevor parecia ter magnetizado seus olhos. Kyla no conseguia desviar o olhar  Isso  uma coisa que teria valido a pena 
ver.
      Ela engoliu em seco.
       Sim. Babs tem um corpo lindo.
      Ele esperou uma quantidade interminvel de tempo antes que ele dissesse baixinho:
       Eu no estava pensando em Babs.
      
      Quando eles pararam em frente  casa, Kyla sabia que havia um par de olhos em cada janela. Kyla queria poder saltar do carro e correr at a porta da frente, 
mas sabia que um cavalheiro como Trevor no permitiria isso. Ele contornou o carro e abriu a porta para ela, oferecendo sua mo quando ela saltou. Kyla fingiu no 
ver. Ela no seria capaz de toc-lo.
      Na varanda, ela olhou para eles, sem jeito. No fora capaz de olhar para ele desde que mencionara o quanto gostaria de v-la banhando-se ao sol.
       Obrigada, Trevor. Foi agradvel.
      O quanto inspida voc pode ser? Ele provavelmente no est vendo a hora de ir embora, pensava Kyla.
      Eu tinha de me deixar levar pelo teso e comentar a respeito dela tomando banho de sol. Isso provavelmente arruinou tudo, estava pensando Trevor.
       Tambm achei.  As botas novas subitamente pareceram apertadas demais para seus ps e ele mudou seu ponto de equilbrio de um p para outro.
       Bem, adeus, Kyla.
       Adeus.
      Ela se virou para a porta da frente e quase colidiu com a me, que estava tropeando nos prprios ps em sua pressa de alcanar a varanda.
       Oh, meu Deus  disse Meg, aturdida.  Sr. Rule, que prazer em v-lo de novo.
      A surpresa de Meg em v-los juntos era to falsa quanto uma nota de trs dlares. Trevor sabia disso, Kyla sabia disso, e ela queria abrir um buraco no cho 
e se enfiar nele.
       Ol, sra. Powers  disse.
       Acabo de fazer uns sanduches e uma limonada. Pensamos em comer na mesa de piquenique do jardim dos fundos. Quer nos fazer companhia?
      Tentado, Trevor olhou para Kyla. O sorriso dela foi forado. No,  melhor no, pensou ele. Ele j a havia forado demais para um dia. Se no tivesse dito 
aquilo sobre o banho de sol... Mas ele tinha dito. Bem, droga, ela ficara belssima de p contra a luz do sol, e ele tivera de suportar a tortura ertica de v-la 
tomando um maldito sorvete. Bem, droga, o dano j tinha sido feito.
      Odiando a necessidade disso, ele declinou do convite de Meg.
       Seria fantstico, mas tenho um pouco de trabalho me esperando.
      O sorriso ansioso de Meg desabou.
       Que pena. Bem, fica para outra vez.
       Eu ficaria deliciado.  Ele sorriu para as duas mulheres e desceu os degraus da frente da varanda at a calada e entrou no carro.
      Assim que o carro de Trevor sumiu de vista, a porta da frente expeliu Babs e Clif
       Bem, como foi?  indagou Babs.  Ele a convidou para sair?
       Voc vai v-lo de novo?
       Ele pediu permisso para ligar?
       Oh, pelo amor de Deus!  exclamou Kyla, perdendo a pacincia.  Queria que todos vocs amadurecessem e me deixassem em paz.  Bufando, passou por eles e 
entrou na casa.
      Mas com quem ela estava furiosa? Com Trevor? Com seus pais, que s a queriam bem? Com Babs? Ou consigo mesma?
      Porque ela havia lamentado um pouquinho que Trevor no tivesse aceitado o convite de sua me.
      
       No, no, Aaron  repetiu Kyla pela centsima vez.  No toque nas flores.
      Eles estavam na sala dos fundos da Petal Pushers. Meg, que ficava com Aaron enquanto Kyla trabalhava, precisara ir ao dentista. Como Clif no voltara de um 
passeio de compras a tempo, ela largara Aaron na floricultura dizendo que no demoraria muito.
      Kyla estava de olho nele enquanto fazia as contas do ms. Quando elas haviam dividido o trabalho da administrao da loja, Babs se prontificara a sempre trabalhar 
no balco, atendendo os clientes, se Kyla fizesse todos pedidos, faturamentos e contabilidades. Babs adorava pessoas mas era um desastre com clculos. As tarefas 
de contabilidade mantinham as horas de Kyla flexveis, o que era essencial para quem tinha uma criana para cuidar.
      Enquanto corria outra fita pela mquina de calcular, Kyla notou vagamente o tilintar do sino da porta da frente. Ela no prestou ateno at Babs gritar:
       Oh, Kyla?
       Hum?  respondeu ela distrada, anotando uma soma nos registros.
       Voc tem um cliente.
       Que cli...
      A pergunta morreu em seus lbios quando Trevor Rule entrou pela porta basculante que separava a loja propriamente dita de sua sala dos fundos.
       Oi.
      Babs estava de p atrs dele, sorrindo como o gato de Alice.
       Achei que voc gostaria de atender pessoalmente este cliente  disse Babs.
      Os olhos de Kyla ameaaram a amiga com aniquilao. A noite de domingo tinha sido uma tortura. Eles tinham jantado no jardim dos fundos na mesa de piquenique 
sob as rvores. A pintura da velha mesa estava com bolhas e descascando porque estivera no jardim dos fundos por mais tempo do que Kyla conseguia lembrar Quando 
crianas, ela e Babs costumavam cobri-la com lenis para brincar de "tenda" debaixo dela.
       Voc no vai contar nada pra gente?  perguntara Babs com a boca cheia dos famosos feijes cozidos de Meg.
       No tem nada para dizer  retrucara Kyla.  E vocs trs podem parar de ficar olhando para mim? O meu nariz no vai comear a crescer, que nem o do Pinquio.
       Voc pode mentir por omisso  cantarolou Babs.  Eu no acho que seja muito esportivo da sua parte deixar a gente no escuro.
      Kyla pousou o garfo no prato e ficou olhando para ele enquanto contava lentamente at dez. Por fim, levantou a cabea.
       Muito bem. Ele me levou de carro at a floresta, estacionou, arrancou todas as minhas roupas e fizemos amor selvagem e apaixonado no banco traseiro do carro 
dele. Parecamos dois animais selvagens, consumidos pelo desejo.
      Quando terminou sua histria, Kyla era a nica sorrindo.
       Isso no  engraado  disse Meg num tom severo.  H meses estamos dizendo que voc  jovem demais para se isolar da vida. Ns a estimulamos a comear a 
sair com homens. O sr. Rule  o primeiro do qual voc no fugiu. Estamos apenas animadas por voc.
      Kyla suspirou, cansada.
        isso que estou dizendo, me. No h nenhum motivo para vocs ficarem animadas. Eu tive um marido. O nome dele era Richard Stroud. Ele vai continuar sendo 
meu marido at o dia da minha morte. Eu nunca mais vou me apaixonar, nunca amarei ningum como amei a Richard, e no estou procurando por algum a quem possa amar 
assim.
       Amor, amor, amor!  gritou Babs, irritada.  Voc sempre tem que pensar em amor? Por que no pode sair apenas por curtio? Voc no precisa amar um cara 
para se divertir com ele.
       Talvez voc no, mas eu tenho. E voc sabe muito bem, Babs, que homens no saem com as mulheres "por curtio" sem esperar que elas pulem na cama com eles 
no fim do encontro. Sinto muito, me, mas  assim que  hoje em dia. Agora, eu no quero ouvir mais nenhuma palavra sobre Trevor Rule ou qualquer outro homem. No 
estou  procura de um homem. Est claro?
      Eles haviam respeitado o pedido de Kyla e mudado de assunto, embora ela tivesse certeza absoluta que Trevor Rule estava longe de ser assunto morto. Durante 
toda a segunda-feira os pais dela tinham corrido para o telefone cada vez que o aparelho tocava. O mesmo acontecera com Babs no trabalho. Kyla estava aliviada por 
nenhuma das vezes o telefonema ter sido da pessoa pela qual eles obviamente esperavam.
      Aliviada, mas tambm desapontada. Ele poderia pelo menos ter tentado entrar em contato com Kyla para que ela tivesse a satisfao de dizer que no queria v-lo 
de novo. Contudo, por mais que Kyla tentasse evitar, seus pensamentos freqentemente se voltavam para Trevor Rule.
      Agora, vendo-o encher a porta para a sala dos fundos, ela sentiu suas entranhas virarem pat. Um ronco grave, no muito diferente do som do oceano, soava dentro 
de sua cabea.
       Ol, Trevor
      Algum executivo de publicidade deveria contrat-lo como modelo de calas jeans, pensou Kyla. Elas caam muito bem nele. Seu peito e antebraos enchiam com 
perfeio a camisa de malha de algodo. Seus cabelos estavam sensualmente despenteados pelo vento. O tapa-olho concedia-lhe o ar perigoso de um mercenrio, um homem 
que instilava respeito. Respeito extremo.
      Negando sua imagem de macho, Trevor agachou-se para falar com Aaron, que estava de p na frente da geladeira grande que continha as flores que eles usavam 
nos arranjos.
       Ol, campeo.
      O menino estava alegremente esfregando as mos no vidro frio. Trevor deu um tapinha carinhoso no bumbum dele e Aaron soltou uma risadinha alegre como saudao. 
Ele abriu um sorriso generoso para seu visitante inesperado.
       Tenho trabalho a fazer. Com licena  disse Babs e desapareceu.
      Trevor sentou diante da mesa de Kyla. Sem razo aparente, Kyla se levantou por trs da mesa. E ento, quando Trevor se levantou tambm, ela tornou a sentar. 
Se tivesse achado dentro de si algum humor para entender o quanto a gangorra dos dois tinha sido engraada, ela teria rido.
       Voc est bem  disse ele.
      Ela baixou os olhos para seu vestido simples. Era champanhe, uma cor que ela sabia cair-lhe bem. Mas o vestido no era nada especial, e ela se perguntou por 
que Trevor teria se dado ao trabalho de comentar sobre ele. Ento ela lembrou que ele jamais a vira bem arrumada.
       Obrigada.
      Ela agora deveria dizer-lhe que ele tambm estava bem? Mas ele no parecia bem. Ele parecia... sexy. Ela certamente no iria lhe dizer isso porque tinha a 
impresso de que ele j sabia.
       Aqui dentro tem um cheiro gostoso.
      Elas forou suas mos, que estavam esganando sua caneta esferogrfica, a relaxar.
       Esse  um dos benefcios de trabalhar numa floricultura. O cheiro  sempre bom.
       Pensei que fosse voc. O seu perfume.
      Ela apertou ainda mais a pobre caneta. Ela desviou o olhar do rosto de Trevor e por acaso viu Aaron.
       No, Aaron.  Ela levantou da cadeira e contornou a mesa numa tentativa desesperada de salvar os cravos. Eles estavam num balde de gua, esperando para serem 
usados num arranjo que tinha sido encomendado naquela manh. Ajoelhando, ela puxou seu filho das flores e tentou distra-lo com seus brinquedos.
       Aqui, brinque com o Ursinho Pooh.
      Quando se levantou de novo, ela se viu to perto de Trevor quanto a sombra dele. Ela recuou depressa.
       Ele mexe em tudo.  A mo nervosa de Kyla se levantou at a corrente de ouro em seu pescoo, que parecia ter capturado o interesse de Trevor. O Conde Drcula 
jamais estudou to intensamente um pescoo.
       Voc sempre mantm Aaron aqui enquanto est trabalhando?
       No.  Ela explicou a respeito da consulta de sua me com o dentista. Nesse momento ela no poderia dizer se queria que sua me retornasse e a salvasse de 
ficar a ss com Trevor. (Ela certamente no poderia contar com a ajuda de Babs.) Ou se ela preferiria que sua me jamais soubesse que Trevor viera visit-la na loja.
      Mas por que ela estava fazendo tanto caso disso? Ele era apenas mais um cliente.
       Posso lhe ser til em alguma coisa?
       Ah, sim  disse ele, retornando a ateno para o motivo pelo qual, teoricamente, ele estava ali.  Preciso encomendar um ramalhete de flores.
       Entendo.
      Vrios pensamentos correram pela cabea de Kyla. O principal era para quem seria o ramalhete. E ento: Se isso era tudo que ele queria, por que no fizera 
o pedido a Babs no balco? Ento, Oh, Deus, porque ele nem quisera v-la. Teria Babs conduzido-o para a sala dos fundos para v-la, quando tudo que ele realmente 
queria era comprar um produto da Petal Pushers?
       Eu, bem, vejamos, sim, aqui est um bloco de pedidos.  Ela pegou o bloco e posicionou uma caneta acima dele. Ela preencheu o nome dele no topo.
       O que voc tem em mente?
       No tenho certeza. O que voc sugere?  Ele passou para trs dela e se inclinou sobre a mesa. Ela sentiu as pernas dele roarem contra sua saia e lembrou 
de um filme francs ao qual Babs arrastara-a para assistir h alguns meses. Ela fechou os olhos por um momento at a imagem pornogrfica ter sido banida.
      Ofegante, ela perguntou:
       Qual  a ocasio?
       Um banquete. Semiformal.
      Que banquete? Onde? Para quem era o ramalhete?
       Um banquete. Muito bem.
       Gosto de orqudeas  disse ele.
       Orqudeas?
       Sim. Aquelas grandes e fofas. Orqudeas brancas.
      Voc numa vai adivinhar o que achei numa caixa, um dia desses. Aquele primeiro ramalhete que voc me deu para usar no baile da primavera da fraternidade Chi 
Omega. Lembra? Foi quando me apaixonei tanto por voc quanto por "Bow Bells".
      Kyla olhou para Trevor com surpresa.
       "Bow Bells"?
       Desculpe?
       "Bow Bells". Foi o que voc descreveu.  uma orqudea hbrida.  Quando ele no disse nada, ela definiu.  Elas so muito bonitas. Possuem ptalas grandes 
e amarrotadas e uma garganta dourada bem grande.  Ele estava observando os lbios dela formarem cada palavra. Kyla perguntou-se como, numa questo de poucos segundos, 
"garganta" tomou-se a palavra mais provocante de seu idioma.
        exatamente isso que tenho em mente.
       Eu... eu tenho de encomend-las em Dallas. Para quando voc precisa do ramo?  Por que ele estava olhando para ela como se estivesse prestes a devor-la 
e por que ela estava permitindo?
       Sbado  noite.  Ele se aproximou mais um passo.
       No tem problema  disse ela rapidamente, alarmada por quo silenciosa ficara a sala minscula e quo perto eles estavam um do outro. Ela podia delinear 
cada pelo no bigode grosso dele.
      Ela se curvou sobre a mesa.
       Uma flor ou duas?
       Duas.
       Elas so caras.
       No tem problema. No precisa economizar
       A que horas voc quer que eu entregue?
       Voc entrega?
       Sim.
       Ento, por favor, entregue sbado  tarde.
       O endereo?
       East Stratton vinte e trs.
      A caneta esferogrfica caiu de dedos que subitamente pareciam desossados. Rolou pela mesa e caiu da borda. Kyla virou-se e fitou o rosto bonito e moreno pairando 
sobre o dela.
       Esse  o meu endereo.
       Voc ir ao banquete comigo?
      Incapaz de dizer uma palavra, ela o fitou e comeou a balanar a cabea antes mesmo de encontrar sua voz. Finalmente:  No. Eu no posso.
       No seria um encontro  apressou-se em dizer.   um banquete para banqueiros e outros investidores. Um grupo de construtores produziu uma apresentao em 
vdeo sobre oportunidades comerciais na comunidade.
       O que isso tem a ver comigo?
       Voc viveu aqui toda sua vida. E ainda sou um estranho na cidade. Eu gostaria de ter voc l para me apresentar s pessoas.
      Se Kyla tinha certeza de alguma coisa, era que Trevor Rule no precisava de ningum para apresent-lo a ningum. Um sorriso como o que ele estava lhe dirigindo 
agora e qualquer pessoa, especialmente do sexo feminino, iria se tornar sua melhor amiga. Aquele sorriso era da matria que vendia de tudo, de pasta de dente a conhaque. 
E quando ele no tivesse mais sex appeal, Trevor Rule ainda poderia contar com outros recursos. Ele tinha carisma. Ele era o tipo de homem que conquistava a confiana 
tanto de homens quanto de mulheres. Todo mundo queria ser seu amigo.
       No, Trevor, desculpe, mas no posso.
      Se ele no representasse uma ameaa, ela provavelmente teria aceitado. Mas ele era atraente demais. Tudo que ela precisava fazer para iniciar rumores era ser 
vista na companhia do mais novo solteiro cobiado de Chandler. No domingo de manh as amigas de sua me j estariam falando do casamento.
      Ele emitiu um pequeno som de lamento e esfregou o queixo.
       Eu nunca pensei que teria de recorrer a isto para sair com uma mulher bonita, mas estou desesperado.
       Recorrer a qu?
      Semblante franzido num pedido de misericrdia, olho verde reluzindo, ele disse:
       Voc me deve um favor
       Algum de vocs  responsvel por este delinquentezinho? 
      Ao mesmo tempo, eles se viraram para a porta para ver uma irritada Babs segurando Aaron nos braos. Ele tinha trs cravos esmagados num punho mido e apertado. 
Ele deixara um rastro de flores mutiladas da sala dos fundos at a loja. Os caules tinham gotejado gua no cho. Aaron estava acenando para eles com outra flor maltratada.
       Puxa, Babs, sinto muito.  Kyla foi at Babs e tirou Aaron de seus braos.
       Tudo bem. Ele apenas destruiu uns dez dlares em cravos, para no mencionar o vaso no qual ele estava enfiando o seu pobre Ursinho Pooh. Voc deve estar 
terrivelmente ocupada aqui dentro  acrescentou, olhos azuis alternando-se entre Trevor e Kyla.
       Ns, bem... o sr. Rule estava pedindo, bem, algumas flores.
      Babs lanou um olhar compreensivo a ambos antes de sorrir benignamente e deix-los sozinhos novamente.
       E ento?  disse Trevor.  Sobre sbado  noite.
       Eu no sei.  Kyla e Aaron estavam lutando pela posse dos cravos porque ela receava que ele os comesse, e ela no sabia se as flores eram venenosas ou no. 
Quando Aaron finalmente perdeu a escaramua, ele estendeu a mo at seu brinco.
      Como ela podia cuidar do filho e ao mesmo tempo tomar uma deciso como esta? Ela devia recusar friamente o convite de Trevor, por mais encantadora a forma 
como fora apresentado. Ela nunca fizera um pedido para flores para que seriam dadas a si mesma. E tanto charme vindo de um homem que mal conhecia era perturbador.
      Mas ela lhe devia um favor, e se ele considerasse isto uma ocasio comercial...
       No ser um encontro?  perguntou ela.
       No.
       Porque no quero que voc tenha uma idia errada.
       Compreendo.
      Quero dizer, sou uma viva e no tenho encontros romnticos.
       Voc j me disse isso.
      Ela dissera, no dissera? Ento, por que estava insistindo nisso? Se ela no considerasse isto importante, no estaria protestando.
       Muito bem, eu vou.
       timo. Te vejo no sbado por volta das sete. E no esquea do ramalhete.
       Voc ainda quer que eu o encomende?
       Claro. Tchau, Aaron.  Ele fez um carinho debaixo do queixo do menino.  Te vejo sbado  noite, Kyla.
      Segundos depois que ele tinha sado pela porta basculante, Babs a abriu.
       "Te vejo no sbado  noite, Kyla". Foi isso que ele disse.
       Sim. Vou a um banquete com ele.
       Isso  maravilhoso  disse Babs, batendo palmas.  O que voc vai vestir?
       No vou vestir nada.  Quando a boca de Babs formou um pequeno "o", Kyla suspirou resignada.  Quero dizer, no importa o que vou vestir, porque na verdade 
no  um encontro.
       Oh, claro.
       No .  um evento comercial e ele me convidou a acompanh-lo para apresent-lo s pessoas.
       Hum-hum.
       Foi para isso. Hum-hum. No  um encontro. Hum-hum.
       Ele mesmo disse. No  um encontro.
      
      
      
     Captulo Cinco
      
      
      
      Certamente parecia um encontro.
      Kyla no lembrava de ter se sentido to nervosa ao se vestir para seu primeiro encontro num carro, seu baile de formatura, ou seu casamento. Ela no queria 
pensar em seu casamento ou em Richard. Mas no pensar neles apenas implicava que este "encontro" com Trevor Rule significava alguma coisa, que ela jurava repetidamente 
que no significava.
      Ainda assim, ela estava desajeitada ao tentar aplicar sua maquiagem. Nada ficava bem. Ela teve de fazer uma plpebra trs vezes. Aaron, que aparentemente deixara 
crescer um par extra de mos, mexia em tudo. Sua me e seu pai apareciam a toda hora no quarto para deix-la a par da hora e das condies climticas, fazer perguntas 
e oferecer ajuda, em termos gerais, para encher a pacincia de Kyla.
      Felizmente, Babs tinha um "encontro quente", de modo que Kyla fora poupara de sua interferncia. Babs insistira que Kyla comprasse um vestido novo para a ocasio, 
embora todo o tempo Kyla tivesse insistido que no era uma "ocasio".
      Kyla finalmente cedera, o que apenas resultara numa nova discusso, a respeito de qual vestido comprar Babs acompanhara-a  expedio de compras sem ser convidada.
       Gosto deste vestido amarelo  dissera Kyla. Babs respondera fingindo enfiar um dedo na goela para provocar vmito.  Muito eloqente  dissera com sarcasmo 
Kyla.
      Colocando as mos em seus quadris bem formados, Babs perguntou:
       Voc gostaria de parecer Mata Hari ou Little Mary Sunshine?
       Gostaria de parecer comigo.
       Experimente o preto de novo.
        to... to...
       Exatamente  disse Babs, empurrando a vestimenta para Kyla.  Fica maravilho e  voc. Certo?  perguntou  intimidada vendedora, que estava encolhida contra 
a parede da sala de provas.
       Certo.
      Kyla sara da loja com o vestido preto, sabendo intuitivamente que estava cometendo um erro. O amarelo teria combinado bem melhor com ela. O preto era sofisticado 
demais. Trevor iria pensar... sabe l Deus o que ele iria pensar
      Depois que fechou o zper do vestido de coquetel e se viu no espelho, Kyla no sabia mais o que pensar. A seda aderia nos lugares certos. O preto complementava 
sua compleio, especialmente porque ela j a havia ressaltado com blush facial pastel, sombra de olho de tom frio, e brilho de lbio cor de pssego. Os cabelos 
estavam macios e reluzentes e pareciam desalinhados com arte. Ela os deixara enrolar levemente nos ombros, penteando um lado para trs e segurando-o atrs da orelha 
com um prendedor decorativo. Na base do pescoo jazia um colar de prolas. Brincos de prolas adornavam as orelhas.
      Ao ouvir a campainha tocar no trreo, ela esticou a mo at o ramalhete de orqudeas e rapidamente prendeu-o no vestido. Ela se pinicou com as agulhas e agradeceu 
aos Cus por Aaron, que estava com a mania de repetir tudo, no estivesse no quarto para ouvir os palavres proferidos em voz baixa.
      O ramalhete causara outra discusso entre ela e Babs naquela mesma tarde.
       So quatro e meia e voc no fez o ramalhete que Trevor encomendou.
       No vou fazer isso  retrucara Kyla.
       Uma ova que no vai. J mandei a conta.
       Voc fez o qu?
       Ele  um cliente, Kyla. Ele pediu um ramalhete e eu o cobrei por isso. Agora voc deve a ele um ramalhete de orqudeas.
      Lanando um olhar furioso para a amiga, Kyla fizera o ramalhete.
       No est certo  disse Babs, supervisionando sobre o ombro de Kyla.  Ele pediu duas flores.
       Como voc sabe?
       Ouvi. E ele disse para voc no economizar. Portanto, ponha mais renda por trs.
       Voc ouviu a conversa inteira?
       Claro. Pelo menos acho que ouvi. Algum de vocs disse alguma coisa da qual voc esteja envergonhada?
       Claro que no  disse Kyla acaloradamente.
       Ento por que est to irritada?
      Agora, enquanto Kyla inspecionava-se no espelho pela ltima vez, ela teve de admitir que tudo estava lhe caindo bem, o vestido de seda preta, as prolas, as 
flores cultivadas em estufa.
      E era exatamente assim que se sentia: uma flor cultivada em estufa que fora nutrida e protegida e que estava prestes a ser exposta aos elementos pela primeira 
vez.
      Esses escrpulos eram juvenis. Ela sabia que eram. Mas saber que eram juvenis e esquec-los eram duas coisas diferentes. Ela tinha sido casada. Era me. Mas 
se sentia como uma menina ingnua, criada em convento, prestes a conhecer seu primeiro homem.
       Isto  ridculo  disse ela agoniada, enquanto pegava a pequena bolsa preta de tarde e desligava a luz.  Isto nem  um encontro  repetiu para si mesma, 
em cadncia com seus passos trmulos ao descer a escada.
      Trevor estava parado de p no corredor de entrada com Aaron nos braos. Ele estava jogando o menino para cima e para baixo enquanto conversava com Meg e Clif.
       ...deve estar terminada em umas duas semanas.  Ele virou o rosto moreno ao notar que alguma coisa na escadaria capturara a ateno dos Powers.
      Apenas a fora de vontade impediu os ps de Kyla de tropearem no degrau seguinte quando Trevor olhou para ela. Kyla forou-se a descer com calma. Infelizmente, 
no tinha o mesmo controle sobre seus batimentos cardacos.
       Ol, Trevor
       Oi.
      Aaron estava puxando o bigode de Trevor, mas o homem no parecia notar. Seu olhar estava fixo em Kyla. Ela estava tendo a mesma dificuldade em tirar os olhos 
dele. Ele estava lindo.
      O terno de Trevor era cinza-carvo, to escuro que quase parecia preto. A camisa branca encaracolada apenas intensificava a cor de seus cabelos e seu bronzeado. 
A gravata listrada em prata e preto era apenas correta, e teria parecido banal em qualquer homem, mas Kyla j havia compreendido que Trevor era tudo, menos banal. 
Ele jamais iria ser Talvez seu diferencial residisse no tapa-olho que sempre usava, e que era to familiar agora, to parte de seu rosto, que ela no o via como 
um acessrio.
       As orqudeas so lindas.
       Sim  disse ela, ofegante. Ela tocou de leve o ramalhete, onde ele repousava sobre seu seio.  Obrigada. Gostou delas?
       Voc gostou?
       Muito.
       Bom.
      Pense em mais alguma coisa para dizer, sua idiota, ordenou Kyla a si mesma.
      Aaron veio em seu resgate. Ele escolheu aquele momento para um daqueles mergulhos imprevisveis que crianas pequenas costumam dar de um par de braos para 
outro. Sem aviso, avanou para ela, que mal teve tempo de estender os braos antes que ele casse com um baque alto.
      Mas Trevor, cujos braos flexionaram imediatamente em torno da criana, ainda no soltara Aaron. Assim, o brao direito de Trevor ficou preto entre Aaron e 
os seios de Kyla. Enquanto ela gradualmente segurava Aaron com mais firmeza, Trevor retirou o brao. Seguiram-se alguns instantes de constrangimento, que todos tentaram 
cobrir falando alto.
       Tome, d-me o beb  disse Meg.
        melhor vocs dois irem ou vo se atrasar  recomendou Clif
       Voc est pronta?  perguntou Trevor.
       Sim. Acho que estou com tudo. Boa noite, Aaron.
       Vamos colocar Aaron no bero, para que voc no precise ter pressa de voltar para casa  disse Meg.
       Dirija com cuidado, vocs tm tempo de sobra  gritou Clif enquanto o casal descia at a calada.
      Kyla estava rangendo os dentes. Qualquer um pensaria que este era seu primeiro encontro. Ela no teria ficado surpresa se Clif tivesse mandado os dois esperarem 
enquanto Meg ia procurar a cmera.
      Trevor contornou-a para abrir a porta do carro. Ele no a tocou e ela se sentiu grata por isso. Ela ainda lembrava muito bem da sensao do brao rijo roando 
seus seios. Ele deixara uma onda de calor em seu rastro.
      Uma vez diante do volante, ele disse:
       Sei que isto no  um encontro, mas pode me dar permisso para lhe dizer o quanto voc est bonita?
      A tentativa de humor deixou Kyla um pouco mais  vontade, e ela olhou para ele.
       Sim, e obrigada.
       No tem de qu.
      Ele ligou o rdio numa estao de msica suave. A manga de seu palet escorregou. A manga da camisa estava engomada e dura, e fora presa com uma abotoadura 
de bano quadrada e lisa, fixada numa base de ouro fina.
      Ele tinha um gosto impecvel.
       No falo com voc desde tera. Como foi sua semana?
       Cheia  disse ela, silenciosamente agradecendo a ele por instituir um tema para a conversa. Ela parecia ter perdido todo seu talento para conversa fiada. 
Contudo, Trevor no perdera, e antes que ela se desse conta, eles haviam chegado ao seu destino.
      O Chandler Country Club tinha apenas dois anos de idade. O jardim ainda estava imaturo, mas o prdio moderno de pedras nativas compensava essa falha. Sprinklers 
giravam nos gramados de golfe verde-escuros enquanto Trevor a escoltava pelo caminho que conduzia do estacionamento at a porta da frente.
      Ela havia quase, quase, se acostumado a ter a mo dele em torno de seu cotovelo. Mas no estava preparada para ele reduzir o passo, inclinar-se at ela e quase 
premir o rosto contra seu pescoo antes de se empertigar de novo.
       Desta vez sei que a fragrncia no  de flores.  voc. Seu perfume  maravilhoso.
       Obrigada.
      As palavras tinham sido difceis de pronunciar devido ao aperto que Kyla sentia na garganta. Ele a subjugava completamente. Ele era to alto, to puramente 
msculo. Ainda assim se sentia ameaada por ele, No com medo, mas ameaada.
      Cada vez que ele sorria para ela, como estava fazendo agora, Kyla lembrava das conversas que ela e Babs costumavam ter sobre como seria a sensao de beijar 
um homem de bigode.
      O bigode escuro de Trevor era grosso, mas bem aparado. Ele virtualmente obliterava seu lbio inferior, enquanto enfatizava o formato do inferior. Ele curvava 
nos cantos da boca como se a estivesse acariciando. Seus dentes reluziam por baixo dos pelos. O efeito geral era extremamente sensual.
      Kyla tentou convencer a si prpria de que seu interesse naquele bigode era apenas casual, um resqucio de curiosidade da juventude. Mas seus poderes de persuaso 
pareciam ter tirado a noite de folga.
      O coquetel que precederia o banquete j havia comeado quando entraram na sala com vista para o campo de golfe e a piscina. As conversas e risos quase abafavam 
a melodia que estava sendo tocada por um conjunto musical no palco a um canto da sala.
       Gostaria de beber alguma coisa? Trevor precisara curvar-se e quase encostar os lbios no ouvido de Kyla para que ela conseguisse ouvi-lo.
      Ela se virou, espreguiou, e falou direto em sua orelha.
       gua tnica com laranja, por favor
      Ele fez que sim com a cabea, sorriu e abriu caminho atravs da multido, deixando para trs o cheiro de sua colnia. Kyla gostava muito dela. Era leve e agradvel, 
com um odor ctrico.
      Ela no pudera deixar de notar o quanto o terno feito sob medida cara bem em seus ombros largos e...
       Minha nossa, Kyla Stroud! Eu disse ao Herbie que era voc.  to bom ver voc fora de casa, minha querida.
       Ol, sra. Baker, sr. Baker
       Como vo seus pais?
       Eles vo bem, obrigada.
       E seu menininho?
       Aaron  um garotinho tpico.  Ela riu baixo.  Ele quase acaba comigo.
       Kyla, sua bebida.  Ela se virou e aceitou o copo de gua tnica que Trevor lhe estendia. As expresses de surpresa do casal mais velho eram justamente as 
que ela esperara e temera.
       Obrigada, Trevor Quero apresent-lo ao sr. e sra. Herb Baker A sra. Baker foi minha professora de gramtica e literatura inglesa no ensino mdio. O sr. Baker 
tem uma companhia de seguros. Trevor Rule  disse ela, apresentando Trevor
       Rule, Rule  repetiu o sr. Baker enquanto apertava a mo de Trevor.  Claro, Rule Enterprises! Tenho visto suas placas por toda parte. Construtor, correto?
       Sim, senhor. Acabo de fundar a minha prpria companhia imobiliria.
       No poderia ter escolhido um lugar melhor para comear  disse Baker  Chandler j foi uma cidadezinha sonolenta. Durante dcadas o nico negcio importante 
aqui foi uma empresa descaroadora de algodo. Aos poucos estamos mudando isso. Voc se afiliou  Cmara Comercial na semana passada, no foi?
       Sim, senhor
       Fico feliz em saber Sou do comit de afiliaes. 
      Enquanto essa conversa transcorria, os olhos da sra. Baker tinham estado ocupados pulando entre os dois. No poderia estar mais faminta por informaes se 
tivesse uma antena de radar no alto da cabea.
       Vocs dois j se conheciam antes?
      Antes exatamente do qu, Kyla nunca chegou a saber, porque Trevor interveio.
       Vou pedir licena aos senhores. Uma pessoa do outro lado da sala est esperando para conhecer Kyla. Sra. Baker, sr. Baker
      Trevor meneou a cabea educadamente; Kyla sorriu e deixou que ele a conduzisse para longe dali.
       Eu sei que isso incomoda voc.
       Isso o qu?
       Ser vista comigo.
       No  isso. O que me incomoda  o que todo mundo est pensando  admitiu ela.
       O que acha que eles esto pensando?
       Voc sabe, coisas como "J era hora da viuvinha voltar  circulao". Ou ento: "Mas  to cedo para ela voltar  circulao!" Meus pais agiram como se tivessem 
de desencalhar a filha mais velha antes de casarem as outras seis.
      Trevor riu.
       No foi to ruim assim.
       No foi?
       No. Voc ficou muito mais incomodada do que eu.
       Eu no o teria culpado se voc tivesse fugido.
       Mas no fugi. Ainda estou aqui.
      Ele falava com tanta intensidade que, em vez de aliviar, aumentou o constrangimento de Kyla. Para evitar olhar para ele, Kyla correu os olhos pela sala lotada.
       Eu me sinto como se pessoas que conheci a minha vida inteira tivessem se tornado espies e fofoqueiras.
       Voc pode desperdiar muito tempo e energia se preocupando com que as pessoas esto pensando e dizendo pelas suas costas.
      Ela suspirou.
       Eu sei. Mas isto no deve ser muito divertido para voc tambm. No est com a impresso de que voc  um caador de vivas e que todo mundo o est fitando?
      Ele a olhou com uma expresso muito sria.
       No se preocupe comigo. O que as pessoas pensam no me incomoda. No quero que voc se sinta desconfortvel. Essa  a nica preocupao em minha cabea.
       Ns sabemos que isto no  realmente um encontro. S queria que todo mundo soubesse.
       Fora anunciar pelo microfone, o que posso fazer para que eles saibam que isto no  um encontro?
      Em primeiro lugar, ele poderia retirar a mo do meio de suas costas. Porque eles haviam alcanado o outro lado da sala depois de manobrar atravs da multido 
 e sua mo ainda estava ali, uma presso firme e quente contra o arco das costas de Kyla.
      Eles tambm poderiam reduzir os rumores se puxassem conversa com outras pessoas. Do jeito que estavam, silhuetados contra o pr do sol emoldurado pela janela, 
com o rosto de Trevor curvado para o dela como numa conversa sria, deviam estar passando a impresso de que o que diziam era privado e pessoal. E parecia privado 
e pessoal.
      Ela se moveu, aparentemente para tomar um gole de sua bebida; na verdade para colocar alguns centmetros a mais entre eles. Trevor bebericou sua prpria bebida, 
uma dose de usque.
       Iria se sentir melhor se eu lhe dissesse que voc est simplesmente sensacional?  perguntou ele.
      Ela correu o dedo pela borda do copo.
       No, acho que no.
       Certo. Ento talvez seja melhor no mencionar que seu vestido deixaria qualquer homem tonto.
      Os olhos de Kyla subiram para o rosto dele e flagraram seu sorriso provocante. E ento o sorriso forado e plstico de Kyla se tomou genuno. 
       Obrigada por no mencionar isso.
       Talvez devssemos migrar para a sala de jantar  sugeriu ele.  Algumas pessoas j esto indo localizar suas mesas.
      Enquanto seguiam para a sala de jantar, um jovem banqueiro e sua esposa se juntaram a eles. Lynn e Ted Haskell eram novos na cidade e portanto no conheciam 
Kyla e seu passado. Trevor apresentou-a meramente como sua "amiga". Ela apreciou muito a conversa animada com o outro casal durante o jantar de fil mignon.
      Trevor estava atento para cada necessidade de Kyla, sempre certificando-se de que ela dispunha de sal, pimenta, manteiga, po fresco, gua, caf. Ela se descobriu 
gostando de tantos mimos. As refeies com Aaron costumavam ser mais parecidas com batalhas. Ataques e retiradas. Algumas vezes ela terminava uma refeio e no 
conseguia lembrar de ter comido porque dera mordidas rpidas nos intervalos entre enxugar leite derramado e limpar a boca de Aaron.
       Gostou da comida?  perguntou Trevor enquanto o garom retirava-se, levando seu prato comprometedoramente vazio.
      Ela enrubesceu diante da provocao e riu de si mesma.
       Adorei, principalmente porque pude comer em paz. Jantar com Aaron no  muito relaxante. Meu nico problema foi me conter para no cortar o seu fil para 
voc. Se eu de repente comear a ajeitar o guardanapo no seu colo, por favor, tente no notar.
      Ele piscou, surpreso. Ento um sorriso lento se espalhou por seu rosto. Inclinando-se para ela, ele disse:
       Kyla, se voc comear a mexer no meu colo por qualquer motivo, vai ser quase impossvel eu no notar.
      Ela poderia muito bem ter morrido naquele momento. Na verdade, at chegou a rezar por um morte sbita. Suas faces estavam queimando. As pontas dos dedos de 
suas mos e ps latejavam com o influxo de sangue. Nunca em sua vida se sentira to embaraada.
       Eu quis dizer...
       Eu sei o que voc quis dizer.  Trevor, notando o quanto Kyla estava envergonhada, apertou sua mo.  Mais caf?
      Kyla no cometeu mais tropeos verbais enquanto se acomodavam em cadeiras duras para assistir ao programa. Depois da apresentao em vdeo, os oradores se 
arrastaram infinitamente, exaltando os atributos de Chandler em particular e do centro-norte do Texas em geral.
       Entediada?  sussurrou Trevor, inclinando-se para perto dela.
      Ela tentara sem sucesso esconder com a mo um bocejo delicado.
       No.  tudo muito interessante.
       Voc  uma pssima mentirosa  disse ele bem perto de sua orelha. Ela riu, baixando a cabea. Ele perguntou:  Voc quer ir embora?
       No!  exclamou ela, ciente de que esta noite era importante para Trevor. Ele estava aqui para ver e ser visto.
       Podemos sair de fininho.
       No. Estou bem. Juro.
       Tem certeza?
      Ela fez que sim com a cabea.
       Tem certeza?
      Ela assentiu novamente.
       Kyla, voc  linda.
      Ela virou subitamente a cabea para encontrar o olhar fixo e ardoroso de Trevor.
       S disse isso para ver se estava prestando ateno. Lentamente ele recuou e tornou a se recostar em sua cadeira.
      Kyla engoliu em seco e removeu seu olhar do dele. Ela olhou em torno, ansiosa, tentando adivinhar se algum ouvira a conversa sussurrada. Ela se deparou com 
o rosto curioso da sra. Baker e desviou rapidamente os olhos.
      Seus olhos pousaram no banqueiro e sua esposa. A mo de Lynn repousava na coxa de Ted. Ele estava acariciando distraidamente as costas da mo dela. Aquela 
manifestao de carinho e intimidade matrimonial fez Kyla sorrir. O tipo inconsciente. O tipo automtico. O tipo de manifestao que dizia muito a respeito do que 
um sentia pelo outro, mas que depois no seria lembrada.
      Richard e eu fazamos coisas assim o tempo todo.
      Mentalmente ela tomou um susto. Aquela era a primeira vez em horas em que ela pensava em Richard. Culpa perfurou seu corao. O que havia de errado com ela?
      Kyla concentrou-se nele, no rosto, no sorriso, na risada divertida, at o ltimo orador concluir seu discurso. Trevor e ela se despediram das pessoas e estiveram 
entre os primeiros a sair. Eles mal haviam chegado ao carro quando comeou a chover.
      Estavam no carro, voltando para casa, quando Trevor perguntou:
       Gostaria de uma sobremesa em algum lugar?
       Lembra do cheesecake de cereja?
       Ah, sim.  Depois de uma pausa:  Caf?
       Acho que no.
       Um drinque?
       No, Trevor, obrigada. Preciso voltar para casa.
       Certo.
      Ele pareceu desapontado. Certamente ela estava enganada. Ele devia estar to feliz quanto ela por esta noite estar quase chegando ao fim.
      Falaram pouco, o que apenas tornou o pinga-pinga no teto, e o gemido rtmico no parabrisas mais audveis.
      Aparentemente ele no estava acostumado a dirigir com ambas mos no volante, porque mantinha a direita em movimento constante enquanto conduzia o veculo com 
a esquerda. Primeiro mexeu no rdio, aumentando o volume, e segundos depois o abaixou.
      Ele esticou a mo at o termostato.
       Confortvel?
       Sim, estou.
      Ele recolheu a mo, que no obstante permaneceu inquieta. Com essa mo direita agitada ele desatou o n da gravata. Correu os dedos por seus cabelos. Ajustou 
o volume do rdio mais uma vez, e finalmente deixou a mo repousar. No assento.
      A meio caminho entre eles. Com o canto do olho, Kyla observou essa mo como se ela representasse uma ameaa.
      E se ela se movesse em sua direo? Ela diria alguma coisa? E se ele estendesse a mo e a agarrasse? Ela gritaria? E se ele estendesse a mo at a dela? Ela 
permitiria que ele segurasse sua mo?
      E se ele acariciasse a sua coxa? Ela daria um tapa em sua mo?
      O corao de Kyla batia forte, e as palmas de suas mos estavam midas. Sentiu um alvio imenso ao ver a casa na qual ela morava em segurana com seus pais 
e seu beb.
      A mo no fez nada, simplesmente girou a chave na ignio depois que o carro havia parado.
       Espere um instante  disse ele quando ela estendeu a mo at a maaneta.  Tenho um guarda-chuva.  Virando-se, estendeu o brao sobre o banco para pegar 
o guarda-chuva. O casaco de Trevor abriu e Kyla viu os msculos rijos de seu peito flexionarem contra a camisa.
      Ele saltou e abriu o guarda-chuva. Ele estava segurando-o sobre a cabea quando abriu a porta e estendeu a mo para dentro para ajud-la a saltar do veculo.
      Como aconteceu, ela jamais teria certeza. Talvez eles estivessem apertados debaixo do guarda-chuva num esforo para no se molharem. Mas de um algum modo, 
de algum modo, quando Kyla ficou de p na calada, ela estava bem perto dele. To perto que suas roupas roavam uma contra a outra.
      Instintivamente, ela inclinou a cabea para trs. O rosto dele se aproximou do dela. Ele estava segurando o guarda-chuva com a mo esquerda. Com a direita, 
ele envolveu de leve o pescoo de Kyla.
      Kyla sentiu primeiro o bigode, e em seguida os lbios, quentes e firmes, roando contra os dela. Oh, Deus, como isso  bom.
      Ela recuou depressa e baixou a cabea. Ele removeu a mo do pescoo dela. Kyla continuou sentindo o calor deixado por cada dedo, embora ele mal a tivesse tocado.
      A chuva bicava o guarda-chuva de seda e a gua rolava pela superfcie lisa para pingar pela borda. Abaixo desse abrigo exguo eles mantiveram-se de p, imveis 
e calados... e prximos.
       Sinto muito  disse Trevor aps um longo momento.  Beijos no so permitidos no primeiro encontro?
       Isto no  um encontro.
       Ah, sim. Droga. Vivo esquecendo isso.
      Ele a conduziu em direo  porta da frente. Caminharam com cuidado pela calada, traioeira devido  chuva. Nenhuma lmpada externa fora deixada acesa para 
ajud-lo a alcanar a varanda em segurana.
      Trevor abaixou o guarda-chuva e o balanou com fora.
       Eu sei que isto no  um encontro.  O guarda-chuva foi largado na varanda. Ele girou preguioso no eixo de seu cabo antes de parar.
       Sim.  o que ns dissemos.
       Muito bem. Ns concordamos que isso no era um encontro, apenas...
       O qu...
       No estou forando. No quero que voc ache que estou forando.
       No acho.
       Mas...  Ele deu um passo at ela. Outro.  Digamos que isto fosse um encontro.
       Sim?
       Voc iria...?
       Iria o qu?
      As mos dele subiram para emoldurar delicadamente o rosto de Kyla. Os olhos dela se fecharam. Os lbios dele mais uma vez encontraram os dela. Mas desta vez 
eles permaneceram. E pressionaram. E angularam at que os dela se afastaram. Aponta de sua lngua ousou penetrar, fazer contato com a dela, varrer sua boca uma vez, 
e afundar em suas profundezas. Mas ento recuou. Ele recolheu sua boca para longe da dela. As mos de Trevor caram para os flancos.
       Boa noite, Kyla.
       Boa noite.
      Ela no sabia como conseguira pronunciar as palavras. Depois de observ-lo pegar seu guarda-chuva e caminhar at o carro, ela automaticamente destrancou a 
porta da frente e entrou.
      Flutuou escada acima, dizendo a si prpria, a cada passo do caminho, que como aquilo no tinha sido um encontro, aquele tambm no tinha sido um beijo.
      Mas uma voz dentro da cabea de Kyla estava dizendo: "Foi um beijo sim. Foi um tremendo beijo. Nem Babs, com sua imaginao fervilhante, teria imaginado um 
beijo como esse. Se voc procurasse pela palavra "beijo" no dicionrio, a definio seria uma descrio do que voc acaba de experimentar sob a boca de Trevor."
      Ela retirou o ramalhete de orqudeas e pousou-a na penteadeira. Sem o menor cuidado, largou as prolas entre suas garrafas de perfume, quando normalmente as 
teria guardado em sua caixa de veludo. O vestido de seda preta foi deixado dependurado no encosto de uma cadeira com suas roupas ntimas empilhadas sobre ele.
      Ela flutuou at a cama, nua  pela primeira vez em muito tempo.
      Quando estendeu a mo para desligar o abajur na mesinha de cabeceira, ela notou o retrato de Richard. E se derreteu em lgrimas.
      
      
      
     Captulo Seis
      
      
      
       Voc  um idiota.
      Ele falava baixo. Sua respirao embaava a janela porque o vidro fora resfriado pela chuva. O quarto atrs dele estava escuro, de modo que ele era poupado 
de ver seu reflexo no espelho de corpo.
      Ele bebericou seu drinque.
       Idiota, covarde...  Com um suspiro, acrescentou:  ...e mentiroso.
      Cada vez em que a via, ele estava mentindo por omisso. Mentindo ao no lhe dizer quem era. Ele tinha conscincia de que o que estava fazendo era errado, mas 
no podia chegar para ela e falar: "Sou o Beijoca. Lembra de mim? O cara sobre quem o seu marido escreveu nas cartas. O tipo de homem que voc disse achar um egosta. 
Que pensa que  o presente de Deus para as mulheres. Destruidor de reputaes. Beijoca." Ela o havia ridicularizado em suas cartas e ele merecera cada palavra de 
reprovao. No lugar dele morrera o marido que ela tanto amara.
      Rangendo os dentes e fechando os olhos, Trevor pressionou a testa contra a janela. O que ele estava fazendo s podia ser classificado como manipulao e logro. 
Ele no tinha como se desculpar.
      Na verdade havia uma desculpa, mas quem acreditaria nela? Quem acreditaria que ele se apaixonara por uma mulher que nunca havia visto? Que ele se apaixonara 
apenas lendo suas cartas? Ele mesmo mal acreditava nisso. Certamente ela jamais iria acreditar.
      Cedo ou tarde teria de dizer a ela quem ele era. Mas quando? Como? Quando ela descobrisse, qual seria sua reao?
      Impacientemente, deu as costas para a janela raiada por filetes de chuva e golpeou o copo alto contra a mesa. Ela viera com o apartamento inspido e mobiliado 
no qual estava vivendo temporariamente.
      Trevor sabia qual seria a reao dela quando lhe contasse. Fria. Desprezo. Ira. Essas no eram as emoes que ele queria ver queimando naqueles olhos castanhos 
quando eles o olhassem.
      Entrou no banheiro e se despiu. As cicatrizes prpuras que se emaranhavam pelo lado esquerdo de seu corpo eram exatamente o que ele merecia, pensou com dio 
de si mesmo. Merecia coisas ainda piores por no ter se identificado quando se apresentara a ela.
      Mas ele lhe diria na prxima vez em que a visse?
      No. De que valia fazer promessas que ele sabia que no iria cumprir? Ele no ia contar a ela. Ainda no. Pelo menos no at...
      Deitado sozinho na cama, observou a gua espalhar-se em padres prateados nas janelas. Ele pensou nela. Pensou no beijo. 
       Oh, Deus, o beijo  gemeu ele.
      Ela tinha uma boca deliciosa. Quente, mida, sedosa. Por trs dos limites que ela impusera, ele sabia que espreitava uma paixo ardente.
      Voc sabe como sempre amei a chuva. Est chovendo hoje. Um daqueles aguaceiros inclementes que nos faz pensar que o sol nos desertou e esqueceu. Mas no estou 
apreciando a chuva. Estou deprimida. A chuva no me traz gotas felizes e reluzentes que danam ao cair em poas. Ela me traz coisas pesadas, ameaadoras, que deitam 
peso em meus ombros. Eu descobri a diferena. Chuva  uma coisa que deve ser compartilhada. No h nada mais aconchegante do que buscar abrigo da chuva com algum 
que voc ama. Mas no h nada mais solitrio do que suport-la sozinho.
      Enquanto Trevor recordava dessa carta em particular, ele pousou a mo em seu corto e gemeu baixinho. Ainda saboreando o beijo, ele sussurrou para as sombras:
       Se voc estivesse aqui comigo, Kyla, eu compartilharia a chuva com voc. Eu compartilharia tudo.
      
       Mas isso  loucura!
       No quero discutir isso, Babs.
       Porque voc sabe que est errada. Porque sabe que est apenas sendo teimosa.
       No  teimosia,  bom senso  argumentou Kyla.
      Elas estavam lavando os pratos do caf da manh. A amiga de Kyla era to transparente quanto a pelcula plstica que cobria as sobras de biscoitos. Ela jamais 
chegara num domingo de manh para tomar caf. Mal entrara pela porta dos fundos, ela comeara a cobrir Kyla com perguntas sobre seu encontro com Trevor.
       No consigo acreditar que voc no vai sair com ele de novo.
       Pode acreditar.
       Por que no vai?
       No  da sua conta.
        da minha conta, porque voc  minha melhor amiga. Kyla pendurou a toalha de pratos no suporte e se virou para encarar Babs.
       Babs, voc no tem drama suficiente na sua vida para se manter ocupada? Precisa se meter com a minha?  Ela saiu da cozinha e seguiu at a escada. Babs estava 
bem atrs dela.
       Minha vida amorosa no precisa de ajuda. A sua est em crise.
      Kyla parou no degrau e girou nos calcanhares.
       No estamos falando sobre uma "vida amorosa". Eu no tenho uma.
        exatamente o que estou dizendo.
       E no quero uma  enfatizou Kyla.
       Muito bem. Apague "amorosa" e insira "sexual". Vamos falar da sua vida sexual.
      Kyla voltou a subir a escada.
       Isto  repugnante.
      Babs segurou Kyla pelo brao.
       Repugnante? Repugnante? Desde quando uma vida sexual saudvel  repugnante? Voc j teve uma.
       Isso mesmo  disse Kyla, puxando seu brao.  Com um homem que eu amava, meu marido, que me amava e me respeitava. Era como deveria ser.  Ao sentir lgrimas 
se formarem em seus olhos, Kyla galgou os ltimos degraus antes que a amiga as visse cair.
      Os Powers j haviam sado para a Escola Dominical. Kyla iria juntar-se a eles a tempo para o culto. Eles haviam levado Aaron.
      Quando Babs entrou no quarto de Kyla, esta estava tirando seu robe. Ela tirou um vestido do armrio e comeou a coloc-lo. Um pouco desanimada, Babs sentou 
na beira da cama.
       Idealmente,  assim que deveria ser  concordou Babs.  Mas nem todas ns temos tanta sorte, Ky. Ns pegamos o que podemos.
       Eu no. O que eu tinha era perfeito. Eu no quero nada menos.
       Bem, olhe para ele! Voc quase no vai encontrar ningum mais perfeito que Trevor Rule.
      Apenas ouvir o som do nome dele fez a mo de Kyla tremer enquanto tentava colocar um brinco na orelha. Hoje no estava sendo necessrio muita coisa para deix-la 
com os nervos a flor da pele, no depois de passar a noite toda chorando. Ver a foto de Richard na penteadeira fez com que ela se lembrasse de sua traio. Ela jurara 
mant-lo vivo em seu corao. E ela descobrira que sair com Trevor Rule punha em risco sua determinao em honrar esse juramento.
      Em oposio ao argumento de Babs, ela disse:
       Como posso saber que ele  perfeito? No sei nada a respeito dele. Eu o conheci h apenas uma semana.
       Voc sabe o quanto ele  bonito. Voc sabe que ele  um cavalheiro, que dirige um carro bom... se bem que um tanto tedioso... que ele  ambicioso, que  
gentil com idosos e crianas, que ele...
       Certo, certo, entendi. Descontando o fato de que ele  bonito, voc poderia estar citando outros trinta homens. Eu no quero me casar com nenhum deles tambm.
       Quem falou em casamento?  berrou Babs.  Estou falando em diverso. Em sair junto.  Ela olhou para Kyla com cara de safada.  Ir pra cama.
      O beijo, o beijo, o beijo. Maldito seja aquele beijo intimidador, provocador. Por que ela o havia permitido? Por que no conseguia esquec-lo? Por que tinha 
sido to bom?
       No seja boba.  Trmula, enfiou lenos de papel na valise.  Aaron invariavelmente chegava da creche da igreja com mos lambuzadas.  Nem penso mais nisso.
       Mentirosa  acusou Babs. Kyla virou subitamente a cabea para ela.  Voc pode no pensar conscientemente nisso, minha querida, mas pensa nisso. Ky, voc 
no pode simplesmente cortar fora a sua sexualidade porque outra pessoa morreu. Voc no pode se livrar dela como um par de meias que no cabem mais.  uma parte 
de voc.
       Eu no preciso mais dela.
       Eu acho que precisa.
       E por que acha isso?
       Porque voc colocou brincos que no combinam. Incrdula, Kyla olhou-se no espelho. Babs tinha razo. Furiosa, ela comeou a fazer a troca.
       Isso no prova nada.
      Babs levantou da cama e se aproximou da amiga.
       Sei que voc amava Richard. No estou tentando te convencer a esquec-lo.
       Eu jamais vou esquecer Richard.
       Sei disso  concedeu Babs com seu tom mais gentil naquela manh.  Mas ele est morto, Ky. Voc est viva. E estar viva no  pecado.
      Como se refutando as palavras da amiga, Kyla disse:
       Vou chegar atrasada  igreja.
      Babs alcanou Kyla na porta da frente.
       Vai ou no?
       Vou o qu?  perguntou Kyla enquanto checava seu cabelo uma ltima vez no espelho do vestbulo.
       Sair com ele de novo?
       No. Fim da discusso.
      Babs apontou o dedo para Kyla e a fitou com olhos estreitos.
       Voc se divertiu  acusou Babs.  Sua filha da me, eu sei que voc se divertiu.
      Eu me diverti demais, pensou Kyla.
       Ele me prestou um favor e retribu. Agora estamos quites.  Enquanto empurrava a porta de tela, ela acrescentou:
       Alm disso, ele provavelmente no vai me convidar para sair novamente.
      Ele convidou. Na quinta-feira daquela semana. Ela no tinha notcias dele at o telefone tocar na Petal Pushers. Como Babs estava ocupada com um cliente, quem 
atendeu foi Kyla.
       Petal Pushers.
       Kyla? Oi.
       Ol.
       Aqui  Trevor.
      Como se ele precisasse se identificar. Ela reconhecera imediatamente sua voz. Ao ouvi-la, uma fraqueza deliciosa se espalhou pelo corpo de Kyla.
       Como voc est?  perguntou, desejando que sua voz no soasse to arfante.
       Bem. E voc?
       Bem. Ocupada. Mal tive tempo de pensar esta semana. Os dias passaram voando.  Ela no queria que ele pensasse que ela passara dias sentada diante do telefone 
esperando que ele ligasse. No entendia por que sentia a necessidade de fazer este jogo de corte.
       Como est Aaron?
       Irritadio. Acho que est nascendo outro dente.
      Uma risada grave encheu o ouvido de Kyla antes que ele dissesse:
       Ento ele tem o direito de estar irritadio.
      Ela contorceu o fio do telefone em seus dedos nervosos. Ela deveria agradecer-lhe novamente pela noite de sbado. No, isso iria lembr-lo de seu encontro. 
E do beijo.
       Estou ligando porque...
       Sim?
       Bem, eu sei que est meio em cima, os Haskells... Lembra de Ted e Lynn?
       Claro.
       Bem, eles me convidaram para jantar amanh  noite. Gostaria de vir comigo?
       Acho que no posso.
       Lynn sugeriu isso  apressou-se em dizer.  O que quero dizer : ela me perguntou se eu gostaria de levar algum, e quando mencionei o seu nome, ela ficou 
toda feliz. Parece que vocs duas se afinaram.
        verdade, Gostei muito dela. Mas sexta  noite  um problema. Aaron...
       Ele tambm est convidado. Lynn disse que eles tm uma piscina rasa. Ela disse que as crianas... eles tm duas, voc sabe... poderiam brincar na piscina. 
 Ele riu de novo e Kyla percebeu o quanto estava comeando a gostar daquele som grave.  Ns sabemos o quanto Aaron gosta de gua.
       Eu no sei, Trevor.
       Por favor.
      Kyla mexeu o maxilar enquanto tentava decidir-se. Deveria aceitar? No. Porque ela no queria dar a impresso errada a ele. Por outro lado, ele poderia se 
lanar  concluso errada se o beb dela tambm estava sendo convidado. No parecia uma noite que prometesse tornar-se romntica, E no seria falta de educao recusar 
o convite dos Haskells? Ela realmente gostara do casal. Alm do mais, era muito saudvel cultivar relacionamentos com banqueiros. Enquanto empresria, este contato 
poderia vir a lhe ser til no futuro. Ela e Babs poderiam algum dia querer se expandir, e ento precisariam de um emprstimo.
      Meu Deus, a quem ela estava tentando convencer?
      O fato era que ela queria ir ao menos para provar que a noite de sbado, e especialmente o beijo, no haviam significado nada. Trevor era novo na cidade e 
no conhecia muita gente. Ele queria sua companhia. A situao era simplesmente essa.
      Culpe Babs por todas suas lembranas erticas exageradas daquele beijo. Fora Babs quem recentemente a levara para assistir a filmes cheios de pele, suor e 
calor. Culpe o fato dela no ter sentido o toque da boca de um homem por quase dois anos.
      No significara nada. Ento por que fazer tanto drama por causa disso? Por que simplesmente no sair e desfrutar da hospitalidade dos Haskells?
       Parece divertido, Trevor. Obrigada por convidar a mim... e a Aaron. Ele e eu vamos adorar. Que horas?
      
       Sete da noite em ponto.
       Na verdade o relgio digital diz seis e cinqenta e oito, mas estamos prontos.
      Kyla deu um passo para o lado e Trevor passou atravs da porta de tela da frente. Ela esquecera o quanto ele era alto. Ou ele s parecia alto porque era to 
musculoso? Bceps impressionantes pronunciavam-se por baixo das mangas curtas de sua camisa polo. As calas marrons casuais teriam provocado Babs a fazer um comentrio 
sobre seu bumbum, caso ela estivesse ali.
       Seus pais esto em casa?
       No. Eles mandaram um abrao para voc. Quase toda sexta-feira eles se encontram com amigos para jogar cartas e domin. Eles alternam as casas.
       Foi por isso que voc hesitou em aceitar meu convite para esta noite?
      Um dos motivos, pensou Kyla. Um motivo menor.
       Sim.  difcil conseguir uma boa bab. Quando elas esto com idade suficiente para se confiar nelas, no pensam em mais nada alm de rapazes.
       Voc pensava?
       No qu? Em rapazes?  claro  disse ela, jogando a cabea para trs e rindo baixinho. Ele gostava da forma como os cabelos dela enrolavam em torno dos ombros. 
 Com uma amiga como Babs, eu no tinha escolha. Durante nossos tempos de escola fomos umas degeneradas.
       Vejo que as duas degeneradas tm se bronzeado.
      O vestido de vero branco ressaltava a cor em sua pele. Ela hesitara vesti-lo porque deixava seus ombros e a maior parte das costas nus, salvo por uma rede 
de listras. Depois do banho, passara uma loo que concedia  pele bronzeada uma aparncia reluzente. Empoara os ombros com um talco corporal que tinha uma substncia 
brilhosa em sua composio. Seu nariz e malares tambm haviam sido empoados. Com os cabelos clareados pelo sol, Kyla parecia dourada.
       Durante as tardes  respondeu ela, ciente do olho verde de Trevor se movendo sobre ela.  Quando chego em casa ainda resta sol suficiente para meia hora 
de bronzeamento.
       Est fantstica.  Sua voz soou um pouco rouca. Exatamente como soara antes dele a beijar.
       Aaron est l em cima  disse, afastando-se depressa.
       Eu a ajudo a descer com ele.
       No se incomode.
       Quatro mos so melhores que duas  disse ele enquanto a seguia escada acima.  No que diz respeito a Aaron, no tenho certeza se  suficiente.
      Quando chegaram ao quarto de Aaron, o menino estava de p no bero. Assim que viu Trevor, apontou seu indicador, comeou a pular para cima e para baixo e balbuciou 
alguma coisa que apenas ele podia entender.
       Acho que ele me reconheceu  disse Trevor, satisfeito. Ele levantou o beb do bero e o ergueu acima de sua cabea.  Oi, campeo. Tem sido um bom monstrinho 
esta semana? Comeu mais cravos?
      Foi enquanto ele estava segurando o beb no alto que Kyla notou a cicatriz no brao de Trevor. Comeava no pulso, contorcia-se em torno de seu cotovelo e desaparecia 
na manga da camisa. Quando Trevor se virou, rindo, para dizer-lhe alguma coisa, percebeu para onde ela estivera olhando. Ele imediatamente ficou srio. 
       Eu te disse que era feio. Os olhos de Kyla subiram para o rosto dele.
       Voc deve ter sofrido muito. Ele deu de ombros.
       At que no. Pronta?
      Ele carregou Aaron enquanto ela levava a bolsa de fraldas, Trevor olhara para a bolsa desconfiado enquanto Kyla a punha no ombro.
       No sei. Parece que estamos nos mudando  disse ela, rindo.  Mas aprendi a sempre sair preparada, e tenho certeza de que Lynn vai entender. Ele a ajudou 
a fechar a casa.
       Temos de passar a cadeira de Aaron do seu carro para o meu  comentou Trevor enquanto saam da varanda.
        muito longe? Ele pode ir no meu colo?
       Hum-hum. Vamos fazer isto direito.
       Por que ento no vamos no meu carro?
       Voc vai deixar que eu dirija? Ela sorriu para ele e largou as chaves em sua mo livre.
       Como est indo a casa?  perguntou ela depois que Aaron estava seguro em sua cadeirinha e eles percorriam por ruas iluminadas pelo crepsculo.
      Trevor no recuara o banco do motorista para acomodar as pernas compridas. Ele dirigiu como fizera antes, com o pulso esquerdo segurando de leve o volante. 
S que desta vez ele esticou o brao direito pelas costas do banco da frente. Seus dedos tambm estavam prximos de seu ombro esquerdo, embora sem toc-lo.
       Fantstica. A sua idia sobre a rea de jantar na cozinha foi magnfica. At o arquiteto gostou, e ficou chateado por no ter ele mesmo pensado nisso.
        um terreno muito bonito. Seria uma pena no desfrutar ao mximo daquelas rvores.
       Foi por causa delas que escolhi construir ali.
      ... que uma casa sem rvore no  nada. Eu preferiria viver numa casa como a da famlia Robinson do que num palcio cercado por nada alm de concreto.
      
      Ted e Lynn Haskell tinham personalidades igualmente efervescentes. Kyla e Aaron foram recebidos como reis no caos ruidoso de um lar feliz. No que sua casa 
no fosse adorvel. Era. Ela at sentiu uma pontada de inveja pelos cmodos graciosos que Lynn fez questo de lhe mostrar.
      O casal produzira duas crianas to bonitas e simpticas quanto eles. A mais velha, uma menina de sete anos, ofereceu-se para entreter Aaron enquanto os homens 
cuidavam do churrasco no ptio. Lynn sentia-se to  vontade com Kyla que aceitou sua oferta de ajud-la na cozinha.
       Trevor nos disse que voc  viva.
      As mos de Kyla pararam enquanto ela rasgava a alface para uma salada. Estivera Trevor falando sobre ela? Aparentemente Lynn sentiu a tenso de Kyla.
       No sou fofoqueira, Kyla. E Trevor tambm no. Eu perguntei. Ele me disse, mas no entrou em detalhes. Se isso deixa voc pouco  vontade, podemos conversar 
sobre outra coisa.
      Trevor no poderia ter entrado em detalhes porque no conhecia os detalhes sobre a morte de Richard. Era curioso que ele no tivesse perguntado. Ela olhou 
para Lynn. 
       Richard morreu um dia depois do nascimento de Aaron.
       Meu Deus  disse Lynn, pousando no balco a bacia de salada de batata que acabara de tirar da geladeira.  O que aconteceu?
      Kyla contou a histria.
       No faz nem dois anos.
      Lynn olhou para o ptio onde os homens bebericaram cerveja enquanto vigiavam tanto o churrasco quanto as crianas brincando na piscina rasa. Enquanto ela observava, 
Aaron dobrou a cintura e mergulhou a cabea na gua. Aparentemente ele conseguiu mais do que queria, porque subiu tossindo gua. Instantaneamente Trevor estava ajoelhado 
ao lado da piscina, enxugando o rosto do menino com uma toalha e administrando-lhe tapinhas nas costas.
       Trevor e Aaron parecem se dar muito bem um com o outro. Quando voc o conheceu?
       H apenas uma semana. Somos s amigos. Que molho voc quer na salada?  Quando Kyla se virou, Lynn estava olhando para ela, achando graa.  O que foi?
      Lynn riu.
       Bem, se tudo que Ted sabe a respeito de Trevor Rule for verdade,  melhor voc tomar cuidado.
       Por qu? O que Ted diz?
       Que Trevor  ambicioso, no conhece o medo,  incrivelmente audacioso nos negcios, e que at agora cada aposta dele vingou. Em outras palavras: ele geralmente 
consegue o que quer.  Ela sorriu para Kyla.  Se toda a ateno que ele dispensou a voc naquele banquete  indcio de alguma coisa, eu diria que o homem est atrs 
de voc. E se voc no quiser ser pega,  melhor correr depressa.  Depois de pegar duas latas de cerveja na geladeira, ela passou uma para Kyla.  Vamos. Acho que 
eles j devem estar com vontade de tomar outra.
      Trevor havia retirado Aaron da piscina, e em seguida se agachado e colocado o menino entre seus joelhos. Ele estava enxugando o garoto com uma toalha, com 
tanta habilidade que parecia fazer aquilo todos os dias. Kyla abriu a lata de cerveja e a passou para ele.
       Quando voc quiser, eu assumo ele.
      Trevor levantou a cabea para fit-la com um sorriso de parar o corao. Ele bebericou a cerveja e lambeu a espuma do bigode.
       Estamos nos saindo bem, mas obrigado pela cerveja.
       No tem de qu.  Desconcertada, ela se virou a tempo de ver Ted aceitando uma lata de sua esposa. Ele disse "Obrigado, querida" e deu um tapinha nas ndegas 
dela. Ele manteve a mo ali por um instante antes de recolh-la. Lynn se abaixou e plantou um beijo suave na coroa dos cabelos de Ted, que comeavam a rarear.
      Kyla nunca se sentiu to solitria.
       A casa est escura  comentou Trevor enquanto conduzia o carro de Kyla para o caminho de acesso.
       Acho que mame e papai ainda no chegaram.  Era incomum que eles ainda estivessem fora to tarde. Em geral as partidas de domin no passavam das onze horas, 
e j era quase meia-noite. Ela suspeitava que seu atraso fora calculado.
       Ted e eu deveramos ter desafiado voc e Lynn para uma revanche.
       Homens nunca derrotam mulheres em jogos de palavras.
       Como assim?
       Mulheres so mais intuitivas que os homens.
       Bem, a minha intuio  de que Aaron est pesando no seu ombro.
       Desta vez a sua intuio est certa.
      Aaron, que adormecera no sof da sala de estar dos Haskells, no se deixara acordar para ser trazido. Para prevenir uma birra que entraria na Histria, Trevor 
quebrara sua prpria regra de segurana e deixara-o viajar no colo de Kyla em vez de amarrado em sua cadeirinha.
      Trevor saltou do carro e o contornou para ajudar Kyla.
       Est com a sua chave na bolsa?  perguntou ele.
       No bolso lateral.
      Trevor encontrou a chave antes que eles alcanassem a porta da frente. Manipulando a chave, a bolsa de mo e a pesadssima bolsa de fraldas, ele mal conseguiu 
destrancar a porta e abri-la.
       Obrigada, Trevor. Eu me diverti muito.
       Vou entrar com voc. Eu no deixaria voc e Aaron entrarem sozinhos numa casa vazia a esta hora da noite.
      Parecia no haver sentido em discutir, embora ela estivesse se sentindo particularmente desconfortvel por deix-lo entrar na frente e preced-la atravs da 
casa escura e escadaria acima. Ele j havia ligado o abajur da cmoda e Kyla entrou no quarto de Aaron. Ela abaixou o menino adormecido para o bero.
       Voc consegue tirar a roupa do Aaron sem que ele acorde?
       Acho que vou deixar que ele durma com a camisa. Se ele acordar por completo, vai pensar que  hora do caf da manh.
      Trevor soltou uma risadinha enquanto pousava a bolsa de fraldas na cadeira de balano ao lado do bero. Observou, fascinado, os dedos capazes de Kyla moverem-se 
agilmente para remover os sapatos e meias de Aaron.
      Sem acordar o menino, Kyla retirou seus shorts e sua cala plstica. Automaticamente estendeu a mo para as linguetas adesivas que prendiam a fralda descartvel. 
Ali suas mos pararam.
      Kyla ficou extremamente cnscia do homem de p ao seu lado. O quarto pareceu encolher, mal deixando espao para os dois ao lado do bero. A atmosfera se adensou 
com a tenso. O ar estava pesado e incomodamente quente, quase escaldante. A casa pareceu ficar ainda mais silenciosa.
      Era estpido. Ridculo. Aaron era um beb, sexualmente no desenvolvido. Mas o homem ao lado dela era desenvolvido, e ela se sentiu constrangida em remover 
a fralda de Aaron com Trevor to perto. Olhar juntos para um menino nu seria uma intimidade entre eles, uma intimidade que Kyla no queria gerar.
      Ele pareceu notar que os dedos geis ficaram subitamente desajeitados e ineficazes, porque pigarreou e se afastou.
      Kyla trocou a fralda molhada de Aaron em tempo recorde. Miraculosamente, ele no acordou. Trevor estava de p, emoldurado pelo vo da porta do quarto, quando 
ela se virou depois de cobrir o menino com um lenol fino e desligar a noite.
       Dormindo direitinho?
       Sim. Ele teve uma noite e tanto. Acho que vou comprar uma piscina de beb para ele.
      Ela desceu a escada na frente dele. Sentia um aperto no peito que no conseguia entender. Seu estmago estava embrulhado. Sentia um impulso insano de falar 
alto para que no deixar que o silncio da casa escura os sufocasse.
      Um degrau gemeu em protesto contra o peso de Trevor. Ele riu baixo e sussurrou.
       Voc tem um degrau rangendo.
       Infelizmente, acho que so vrios.  Ela suspirou enquanto lembrava de um problema que nunca estava muito distante de sua mente.  O sonho dos meus pais 
era vender esta casa depois que papai se aposentasse. Eles queriam comprar um daqueles trailers de luxo e viajar por todo o pas.
       Por que no fizeram isso?
       Richard morreu.  Trevor no disse nada, embora ela tenha sentido uma hesitao em seu passo antes de pisar no degrau seguinte.  Eu me tornei um fardo para 
eles novamente.
       Tenho certeza de que eles no a vem assim.
       Mas eu vejo.  Ele havia parado. Ela parou de andar na frente e se virou para fit-lo. Ele estava parado vrios degraus acima dela.
       Por que no a vendem agora?
       No querem que Aaron e eu vivamos sozinhos. Alm disso, o mercado imobilirio nesta parte da cidade no  to bom quanto j foi. A no ser que a vizinhana 
seja reestruturada, temo que eles no consigam muito dinheiro com a venda.
       Isso a preocupa, no  verdade? No quer que eles se sintam responsveis por voc. Ela sorriu com tristeza.
       Apenas lamento que eles no possam realizar seu sonho por causa de mim.
      Eles se entreolharam. O silncio caiu como a cortina de encerramento de uma pea. Embora Trevor tenha acendido uma lmpada na cmoda, o restante da casa estava 
sombrio.
      Um lado do rosto de Trevor estava iluminado, o lado direito. Ela podia sentir a tenso no corpo dele, embora no estivessem se tocando. Os cabelos negros e 
ondulados deitavam sombras errantes sobre sua face. Magro, moreno e intenso, ele parecia o protagonista atormentado de um romance gtico. Ele no impunha qualquer 
ameaa fsica, mas mesmo assim parecia perigoso. O que deveria ser sinistro era fascinante.
      Ele a fazia tremer.
       Vou acompanhar voc at a porta  disse Kyla, ofegante, e deu as costas para ele.
      Kyla desceu mais um degrau antes de sentir os dedos de Trevor em seus cabelos, fechando-se num punho que a segurou e capturou. Um leve gemido de protesto subiu 
pela garganta de Kyla, mas ela estava indefesa. O punho fechou com fora em torno do emaranhado de cabelos. Girou uma vez, aumentando a firmeza com que detinha Kyla. 
Firme e implacvel, Trevor puxou gradualmente a cabea de Kyla para trs, at ela ter-se virado no degrau.
      Com seu outro brao, Trevor a levantou enquanto descia a cabea at Kyla. Ele selou sua boca na de Kyla, vigorosa e implacavelmente. Ele no desceu um degrau 
para se juntar a Kyla, mas em vez disso levantou-a e puxou-a para si.
      Suas mos fizeram tentativas fteis de empurr-la, mas seu peito parecia uma parede de tijolos. O corao de Kyla estava acelerado, cada batida ecoando alto 
em sua cabea. Ou seria o corao dele? No sentia nada alm do roar de seu bigode e da presso firme dos lbios.
      Quando ele afastou o rosto, zangado, ela arfou:
       No, Trevor, por favor.
       Abra a boca.
       No.
       Beije-me.
       No posso.
       Pode sim. No, por favor.
       Do que voc tem medo?
       No tenho medo.
       Ento me beije. Voc sabe que quer.
      Com sua boca, Trevor mais uma vez clamou pelos lbios de Kyla. Obedecendo a uma vontade mais poderosa do que a sua, ela entreabriu os lbios. Ento, como fizera 
antes, a lngua dele estava ali, procurando e encontrando a sua. Trevor provou por completo a boca de Kyla, at os dois finalmente se afastarem, arfando por ar.
      E ento a boca quente de Trevor premiu o arco do pescoo de Kyla.
       No, no  disse ela, sem sequer reconhecer aquela voz arfante como a sua.
       No posso acreditar que estou beijando voc.
       Por favor, no.
       E que voc est me beijando de volta.
       No, no estou.
       Ah, mas voc est, meu bem.
      A boca de Trevor cobriu o pescoo de Kyla com beijos pequenos e suaves, parando para plantar beijos mais quentes em sua base sensvel.
       A sua pele... Meu Deus, a sua pele!
      Com a mo ele acariciava suas costas nuas. Seus dedos deslizaram entre as alas do vestido e puxaram-na para mais perto dele. Contra sua barriga, Kyla sentiu 
o que ela disse a si mesma que era a fivela do cinto dele.
      Apesar de sua inteno de resistir, ela se mantinha abraada a ele. Naquele momento ele era a nica realidade que restava no mundo. Nem mesmo lembrando como 
eles haviam chegado ali, ela descobriu seus dedos enroscados nas mechas dos cabelos de Trevor. E, mais uma vez, ela respondia ao beijo de Trevor com a boca de uma 
libertina.
       E seria muita petulncia imaginar que voc me deseja?
       Trevor.
       Porque eu a desejo.
      Alarmada, ela libertou a boca dos seus beijos escaldantes.
       No. Nem ouse pensar...
      Ele ps as mos em concha no rosto de Kyla.
       No apenas sexo, Kyla. Eu desejo mais do que sexo. Sei que isto  repentino, mas eu me apaixonei por voc.
      
      Huntsville, Alabama
      Eles haviam comprado uma casa para comemorar seu quinto aniversrio de casamento, e hoje era o dia da mudana. A casa estava uma baguna. Havia caixas empilhadas 
por toda parte.
       Como conseguimos acumular tanto lixo? Voc terminou de limpar o sto?
      Quando a esposa do contador no recebeu resposta para nenhuma das duas perguntas, ela virou a cabea para ver o que estava preocupando seu marido. Ele estava 
vasculhando uma pilha de fotografias, estudando cada uma intensamente.
       O que  isso, querido?
       Hum? Ah, s umas fotos que tirei no Cairo.
      Ela estremeceu e caminhou at ele. Fechando os braos por trs em torno dos ombros dele, ela se curvou para olhar as fotos sobre seu ombro.
       Cada vez que penso no quanto estive perto de te perder, sinto um arrepio. Quantos dias entre a licena que voc tirou e o atentado terrorista?
       Trs  respondeu, soturno.
       Quem  esse com voc?  perguntou ela baixinho, olhando para a foto que ele estava segurando. Ela sabia que ele freqentemente pensava nos homens que tinham 
servido ao seu lado na guarda da embaixada, especialmente naqueles que haviam morrido.
       O da esquerda era Richard Stroud.
       Era?
       No sobreviveu.
       E o outro?
      O marido sorriu.
       O bonito  Trevor Rule. Formado em Harvard. Famlia distinta da Filadlfia. Ele era um conquistador incurvel. O apelido dele era Beijoca.
      Ela riu.
       Nem preciso perguntar por qu.
       Ele tinha um harm que at um sulto invejaria.
       Ele sobreviveu?
       Foi resgatado, mas estava gravemente ferido. No sei se sobreviveu.
       Vai guardar a foto?
       Acha que eu deveria?
       Stroud era casado?
       Era. Por qu?
       Se a foto no for to importante para voc, por que no a manda para a viva? Ela provavelmente iria gostar de t-la. Vocs todos parecem to felizes, como 
se estivessem se divertindo a valer.
       O Beijoca tinha acabado de contar uma das famosas piadas indecentes dele.  Ele beijou a esposa.  Boa idia. Vou mand-la para a viva de Stroud. Se eu 
conseguir localiz-la.
      Ele jogou a foto na caixa na qual estavam guardando coisas que levariam para sua casa nova.
      
      
      
     Captulo Sete
      
      
      
      Repentino?
      Repentino? Foi isso que ele havia dito? "Sei que isto  repentino, mas eu me apaixonei por voc." "Repentino" era uma palavra que dificilmente fazia jus ao 
significado inquietante dessa declarao. Na manh seguinte, enquanto Kyla recordava a cena, ela ainda no conseguia acreditar que ele dissera isso.
      Ela agradecera aos cus quando, apenas algumas batidas de corao depois, seus pais chegaram pela porta da frente. Muda e paralisada pelo que Trevor acabara 
de dizer, empreendera um valente esforo de conversao, explicando que haviam acabado de entrar e posto Aaron para dormir e que no, seus pais no tinham interrompido 
nada.
      Trevor, embora tenha sido muito educado com os pais dela, passara o tempo todo fitando-a com aquele nico olho verde que mais que compensava pelo perdido. 
Evitando esse olhar o mximo possvel, Kyla acompanhara-o at a porta da frente e desejara-lhe friamente boa-noite antes que Clif e Meg pudessem subir e deix-la 
mais uma vez sozinha com ele. Enquanto Kyla fechara a porta, ele continuara de p na varanda, olhando para ela. Foi nesse instante que ela jurara que jamais iria 
v-lo novamente.
      Agora,  luz do dia, com a lembrana daquele beijo ainda queimando em seu crebro, ela repetiu essa promessa para si mesma.
       Eu no posso v-lo nunca mais. E no vou.
      Mas no ia ser to fcil assim. Ele telefonara enquanto ela tomava caf.
       Kyla  disse ele assim que ela atendeu ao telefone.  Sinto muito pela hora, mas tenho de falar com voc. Ontem  noite...
       No posso falar agora, Trevor. Estou dando o caf da manh do Aaron e ele est fazendo uma sujeira danada.
       Vocs dois querem almoar comigo? Voc e Aaron?
       Obrigada, mas no podemos. Papai e eu vamos pintar meu velho balano hoje.
       Quando? Posso passar a para ajudar.
       No, no faa isso  apressou-se em dizer.  No sei exatamente a que horas vamos fazer isso e no quero tomar o seu dia inteiro.
       Eu no me importo. Eu quero...
       Preciso desligar, Trevor. Tchau.
      Mesmo assim ele passou l no fim da tarde. Ela fingiu uma dor de cabea e nem desceu para cumpriment-lo. Depois que Trevor saiu, os pais olharam com desaprovao 
para ela, mas no disseram nada.
      Babs no teve os mesmos escrpulos a respeito de oferecer sua opinio. Kyla ignorou os olhares e grunhidos pouqussimos sutis de Babs. Com o passar dos dias, 
Babs j estava dizendo tudo que lhe passava pela cabea. Durante uma estiada nos negcios, as duas amigas acabaram discutindo.
       Faz cinco dias que o cara telefona vrias vezes por dia.
       O problema  dele.
       O problema  meu, tambm. J estou sem desculpas para dizer por que voc no pode atender o telefone.
       Babs, com a sua imaginao, tenho certeza de que pode inventar outras, se ele telefonar novamente.
       Ele vai telefonar. Ele no  covarde como voc. Kyla fitou-a furiosa.
       No sou covarde.
       No? Ento por que est com tanta dificuldade para evit-lo? O que ele fez? Alguma coisa desprezvel, como tentar segurar a sua mo?
       Posso passar sem o seu sarcasmo.
       Quer saber o que acho?
       No.
       Acho que foi mais do que s segurar a mo
      Kyla deu as costas para Babs para que ela no visse a cor que encheu suas faces.
       Como eu disse, voc tem uma imaginao vivida.
       Se no fosse isso, voc no estaria fugindo dele como o diabo foge da cruz. Se voc no sentisse alguma coisa por Trevor Rule, voc estaria rindo das tentativas 
dele de te ver.
       Elas no so engraadas.
        exatamente o que estou dizendo. O caso  srio.
       No !
      Nessa cena, j carregada de tenso, entrou o assunto de sua disputa. O sino sobre a porta da Petal Pushers repicou musicalmente enquanto Trevor entrava. Simultaneamente 
as duas mulheres viraram as cabeas nessa direo. Ele estava olhando apenas para uma delas, aquela cujo rosto subitamente perdera toda a cor, aquela que corria 
nervosa a lngua pelo lbio inferior, aquela que ps as mos na cintura como se para impedir que o prprio corpo desmoronasse.
       Com licena  disse Babs. Ela passou pelas portas para a sala dos fundos, murmurando alguma coisa sobre Maom e uma montanha.
      Kyla olhou para o cho que separava os dois. Talvez ele tivesse vindo encomendar flores. Talvez tivesse vindo falar sobre o tempo. Talvez tivesse vindo por 
qualquer razo, menos aquela que ela mais temia.
      A primeira frase de Trevor ps fim a todas esperanas de Kyla.
       Por que est me evitando?
      Muito bem, ele queria jogar duro. Ela iria jogar duro. Ela levantou orgulhosamente a cabea para fitar o rosto dele.
       Por que voc acha?
       Por causa do que lhe disse sexta  noite?
       Adivinho.
       Voc ficou ofendida?
       Usar palavra "amor" levianamente  ofensivo.
       Eu no usei levianamente palavra nenhuma. Eu estava falando srio.
       Acho impossvel acreditar nisso.
       Por qu?
      Ela olhou para ele, chocada.
       Por qu? Porque ns vimos um ao outro exatamente quatro vezes antes de voc me dizer que me ama.
       Voc est contando?  O bigode felpudo se curvou sobre os dentes brancos e reluzentes para formar um sorriso presunoso.
       S porque o que voc disse foi to absurdo.  Ela amaldioou o sorriso e o bigode de Trevor, e tambm o seu prprio estmago, por dar cambalhotas ao v-los.
       As vezes acontece assim.
       No comigo.
       Mas comigo aconteceu. Estou apaixonado por voc, Kyla. Ela deu as costas para ele e se apoiou no tampo do balco com braos rijos.
       Por favor, pare de dizer isso.
      Ele se moveu atrs dela. Ela o sentiu ali antes mesmo que pusesse as mos em seus ombros. O calor do corpo de Trevor alastrou-se pelas costas de Kyla como 
o sol cobrindo a praia ao nascer do dia.
       Do que voc tem medo, Kyla?
       De nada.
       De mim?
       No.
       Tem medo do que est sentindo?
       No tenho medo de nada.
       Voc est sentindo alguma coisa.  Ele moveu o cabelo dela para o lado e correu os dedos de um extremo a outro de sua nuca.  Voc retribuiu o meu beijo.
      A cabea de Trevor pendeu para a frente at seu queixo estar quase tocando o peito dela.
       No significou nada.
       No significou?
       Apenas que eu no era beijada h muito tempo.
       E a sensao foi boa?
       Sim... No... Por favor. Eu no posso falar disto com voc.
       Para mim a sensao foi boa, Kyla. Na verdade, maravilhosa. E correta.
      Ela se virou para encar-lo, espremida entre ele e o balco.  Mas no foi correto, Trevor  disse ela com nfase,
       Diga por qu.
       Porque amo o meu marido.
       Mas ele est morto!
       Aqui ele no est!  gritou, furiosa, apontando seu corao.  Ele est vivo dentro de mim. E pretendo mant-lo vivo.
       Isso  loucura.   antinatural.
       E tambm no  da sua conta, sr. Rule! 
      Ela o empurrou para o lado e se afastou. Quando ela se virou novamente para encar-lo, seus seios subiam e desciam agitados. Respirar estava sendo muito difcil 
para ela.
       Eu no enganei voc. Fui justa. Eu lhe disse no segundo dia em que nos encontramos que no estava procurando por um romance. Eu tive um. Um caso de amor 
maravilhoso que vai me satisfazer pelo resto da vida. Nada poderia ser melhor do que ele, e eu no ficaria satisfeita com nada menos.
      Impacientemente, ela enxugou as lgrimas com as costas da mo.
       E a despeito de eu ter deixado isso bem claro, voc tentou me seduzir. Sinto muito se voc se imagina apaixonado por mim, esse  um problema que ter de 
resolver sozinho. No quero v-lo de novo, Trevor. Agora, por favor, deixe-me sozinha.
      O queixo de Trevor estava rgido. Os msculos do rosto flexionavam-se com raiva. Abaixo do bigode, seus lbios se espreitaram numa linha apertada e fina. Ele 
cerrou os punhos e os apertou contra as coxas. Kyla no sabia se ele iria agredi-la ou beij-la, e no sabia qual das duas alternativas causava-lhe mais medo.
      Finalmente, ele girou nos calcanhares de suas botas e saiu pela porta, deixando-a bater s suas costas. O sino sobre a porta chocalhou ruidosamente.
      Kyla desmoronou contra o balco, no tendo percebido at ento o quanto aquele confronto fora fisicamente exaustivo. Cada msculo em seu copo parecia ter sido 
torcido como um pano de prato. Havia uma dor lacerante entre seus olhos.
      Depois que havia recuperado um mnimo de compostura, ela se empurrou do balco e se virou para encontrar Babs parada no vo da porta, braos cruzados sobre 
o busto, expresso amarga no rosto.
       No diga uma palavra  alertou Kyla.
       Eu nem pensaria nisso  disse Babs.  Voc disse tudo que precisava ser dito e de forma completamente brilhante, eu acho. Qualquer outro homem provavelmente 
teria posto o rabo entre as pernas e fugido. Mas no o nosso sr. Rule. Ele no desiste fcil.
      
       Droga!
      Afundando o p no freio da picape, ele desviou o veculo abruptamente da estrada para o acostamento de cascalho. Pedras jorraram debaixo das rodas e nuvens 
de poeira engolfaram a picape antes que parasse completamente. Trevor colocou a marcha em ponto morto e dobrou os braos sobre o volante. Ele aninhou a testa em 
suas mos.
       Bem, o que voc esperava?
      Ele havia realmente pensado que poderia entrar danando na vida dele e, sem muito tempo e esforo, faz-la cair em seus braos? Em sua cama?
      Sim, admitiu agora. Era isso que ele, subconscientemente, havia esperado. Porque o filho de George Rule sempre conseguira tudo com facilidade.
      Esportes. Liderana. Estudos. Popularidade. Mulheres.
      Para Trevor, a vida tinha sido um banquete servido em loua fina. Ele havia at conseguido burlar os planos que seu pai fizera para sua vida. Ele estava fazendo 
o que sempre quisera. Com exceo daquele pequeno revs no Cairo, ele tivera uma vida de sorte. Mesmo depois daquilo, a sua boa sorte no o abandonara. A exploso 
deixara-o com uma deficincia fsica, mas no totalmente incapacitado, como poderia ter acontecido.
      Levantando a cabea, Trevor colocou o queixo nas mos e olhou atravs do parabrisa empoeirado. As plancies do norte do Texas estendiam-se at o horizonte, 
em qualquer direo. Uma cerca de arame farpado estendia-se infinitamente.
      Era para l que sua vida estava indo? Para lugar nenhum? A rejeio de Kyla era uma plula difcil de engolir. Seria este vazio que ele sentia apenas a reao 
de um homem mimado para quem a vida fora um mar de rosas at agora? A nica coisa que ele realmente valorizava lhe seria negada? Estariam os deuses caoando dele, 
rindo dele, porque ele tinha feito um nico gesto honrado, e esse gesto lhe custara a felicidade?
      Mas era mais que isso. Honra e dever tinham pouco ou nenhuma relao com seu comportamento para com Kyla. Ele amava a mulher.
      Ela no era mais simples palavras escritas em folhas de papel de carta, palavras que tinham enchido horas solitrias, e aliviado a dor, e dado a ele uma ncora 
 qual se segurar durante seus momentos mais funestos.
      Ela era uma personalidade. Uma voz. Um aroma. Um sorriso.
       E ela ainda ama seu marido  lembrou a si mesmo.
      Richard Stroud tinha sido um sujeito incrvel. Agora era um fantasma incrvel. E fantasmas tinham o talento de se tornar ainda mais incrveis do que as pessoas 
que tinham sido. Porque os vivos esqueciam os defeitos dos falecidos e lembravam apenas de suas melhores qualidades.
      Mas Richard Stroud no era seu inimigo, ele no precisava pensar nele nesses termos. Talvez ele devesse desistir de toda esta idia louca. Kyla amava a memria 
de seu marido. Ela expressara com extrema clareza os seus sentimentos.
      Desista enquanto voc est por cima, meu velho. Ela no te quer.
      Ento ele lembrou da paixo do beijo, do sabor da boca, do cheiro do cabelo, da sensao da pele sob suas mos, e compreendeu que no iria desistir.
       Ainda no. Cada movimento preciso indicava sua resoluo enquanto ele passava as marchas de sua picape e colocava-a de volta na estrada.
      Ele daria a Kyla espao para respirar, tempo. Ela tinha direito a isso.
      Enquanto isso, seus dias seriam cheios. Ele tinha muito a fazer. E  noite, quando ele estivesse na cama e seu corpo ansiasse pela satisfao prometida pelo 
dela, Trevor teria de se satisfazer lendo suas cartas. Elas eram como sua voz sussurrando-lhe segredos ntimos na escurido.
      
       O que  tudo isso, papai?  indagou Kyla enquanto entrava na cozinha.
       Isto? Ah, isto no  nada  disse Clif Powers e rapidamente comeou a juntar os papis espalhados na mesa.
        alguma coisa.  Ela percebera a pressa do pai em remover os documentos de sua vista, assim como o olhar dissimulado trocado entre seus pais. Suas expresses 
eram to culpadas quanto as de Aaron quando ela o pegava desenraizando sua trepadeira favorita.
       Muito bem, vocs dois, confessem  disse ela, colocando as mos nos quadris.  O que est havendo?
       Por que no senta e bebe alguma coisa, querida?  sugeriu Meg.
       No quero beber nada. Quero saber o que vocs dois esto tentando esconder.
      Clif suspirou.
        melhor a gente contar a ela, Meg.
      Kyla sentou numa cadeira de frente para o pai e cruzou os braos sobre o pano da mesa.
       Estou ouvindo.
       O conselho municipal fez uma petio para esta rua ser reformulada como propriedades comerciais. Ns, sua me e eu, contestamos essa petio, mas nenhum 
dos outros proprietrios fez isso. A petio foi aprovada numa votao do conselho ontem  noite.
      Kyla assimilou isso. por enquanto pensando apenas o que isso significaria para o futuro de seus pais.
       Por que vocs contestaram? Isso no vai valorizar a propriedade de vocs?
       Bem, sim, querida  disse Meg.  Mas no queremos sair desta casa. No que eles estejam nos apressando. Temos algum tempo para isso, mas...
       Vocs no vo querer sair por causa de Aaron e mim  disse Kyla baixo, compreendendo agora por que eles haviam tentado fazer segredo.  Ns podemos nos virar 
sozinhos. Sempre disse isso a vocs.
       Sabemos disso, mas nunca quisemos vender a casa enquanto voc estivesse morando conosco.
       Bem, parece que o conselho municipal tomou essa deciso por vocs. Fico feliz. Vocs sempre quiseram isso: vender a casa, comprar um trailer e viajar.
       Mas voc e Aaron...
       Mame, eu sou adulta. Aaron  uma criana bem ajustada. Vamos achar uma casa para ns. Isso vai ser bom para ele e para mim.
       Mas, quando Richard morreu, ns prometemos que jamais iramos deixar vocs sozinhos  argumentou Clif.
      Kyla estendeu a mo para segurar a dele.
       Aprecio a sua preocupao, papai. Vocs tm sido maravilhosos. Mas voc e mame tm suas prprias vidas. Vocs merecem esses anos juntos. No deveriam passar 
seus anos de aposentadoria acorrentados a mim.  Ela baixou os olhos para os documentos dobrados.  Vocs j receberam uma oferta para vender a propriedade, no 
foi?
       Sim, j  admitiu finalmente Clif  Mas temos dezoito meses para sair. No precisamos aceitar a primeira oferta que aparecer.
       Mas quem pode dizer o que acontecer em dezoito meses?  disse Kyla.  Oportunidades como esta no aparecem todos os dias. Se a oferta  justa,  melhor 
vocs aceitarem.
       No  disse Meg, balanando a cabea teimosamente.  Ns prometemos que no iramos desertar voc.
       Mas, me...
       No vamos nem pensar em vender esta casa antes que voc e Aaron estejam acomodados em algum lugar. E no se fala mais nisto, mocinha.  Meg se levantou. 
 A discusso estava encerrada.  Voc quer beber alguma coisa ou no quer?
      Vrias horas depois, Kyla estava deitada na cama, admirando os padres de sombras que o luar projetava no teto de seu quarto.
      Ela estava preocupada com a relutncia de seus pais em vender a casa. A venda iria lhes garantir segurana financeira pelo resto de suas vidas. Ela no queria 
que eles s a vendessem quando j estivessem velhos e frgeis demais para desfrutar de suas aposentadorias.
      Era por causa dela que hesitavam em pular nessa chance. Eles no compreendiam o quanto ela se sentia culpada por causa de seu sacrifcio? Eles j haviam postergado 
a realizao de seu sonhos por quase dois anos, como resultado da morte de Richard. Claro que ela iria sentir falta deles. Ela tambm ficaria triste em ver a velha 
casa derrubada para dar lugar a prdios comerciais e postos de gasolina. Mas no havia crescimento sem dores, e chegara a hora dela sentir algumas. Mesmo que seus 
pais no vendessem a casa, talvez j fosse hora de Kyla ter um lar s para si e Aaron. O problema era convencer Clif e Meg disso.
      Com um suspiro resignado, ela forou seus olhos a fecharem.
      E ento aconteceu de novo.
      A imagem de Trevor Rule foi projetada nas plpebras de Kyla. Todas as noites, durante horas, at ela finalmente cair num sono frustrado e exausto, ele a assombrava. 
Era como se Trevor estivesse se comunicando com Kyla em algum plano espiritual que ela no compreendia. Sua obsesso com ele era irritante e enervante.
      Fazia um ms desde que haviam discutido na Petal Pushers. Ela queria esquecer o quanto ele parecera zangado naquele dia. Queria mais ainda esquecer da aparncia 
dele na semana anterior, quando os dois haviam se cruzado acidentalmente.
      O encontro acontecera durante o calor do dia. Ela e Babs estavam fazendo uma entrega no centro de Chandler. Fora um pedido to grande que exigiria que elas 
duas fizessem a entrega. Assim, Clif oferecera-se para cuidar da loja enquanto elas estavam fora.
       Olhe s aquilo  dissera Babs.
       O qu? Os vasos dos crisntemos tinham escorrido gua nas mos de Kyla, que estava ocupada balanando-as para sec-las.
       Do outro lado da rua. Que delcia!
      Usando uma das mos para proteger os olhos do sol forte, ela acompanhou o olhar de Babs at a loja de ferragens do outro lado da rua. Trevor estava saindo 
da calada para a rua, onde sua picape estava estacionada. Carregava um saco de cimento no ombro. Enquanto as duas observavam, ele jogou o saco para a plataforma 
da picape. Dessa distncia, ningum podia ver que ele tivera um acidente terrvel e tinha cicatrizes para prov-lo. Ele executara a ao com a fora e a graa de 
um arremessador de disco olmpico.
      Babs lambeu os lbios.
       Que Deus me deixe cega se ele no  lindo.
       No...
       Oi, Trevor!  cantarolou Babs.
      Engolindo em seco por ultraje e vergonha, Kyla se virou de costas para abrir a porta. Ela entrou e bateu a porta.
       Eu vou te matar  sibilou para Babs atravs do vidro entreaberto.
       Se voc agir como uma idiota, quem vai te matar sou eu  retorquiu Babs.
      Trevor viu-as prontamente e acenou. Enquanto esperava um carro passar, ele tirou o chapu de caubi que estava protegendo sua cabea e enxugou o suor em sua 
testa na manga enrolada da camisa. Ele comeou a caminhar at elas antes do carro ter passado completamente, e chegou mesmo a correr em torno da traseira do veculo. 
Ele correu pelo resto da distncia ao longo da rua.
       Oi.
      Deus era cruel. Nenhum homem deveria ter tanto apelo sexual e ficar  solta, fazendo de toda mulher uma vtima inocente.
      Ele penteou com os dedos os cabelos espessos e pretos, empurrando para trs os fios molhados de suor antes de tornar a vestir o chapu de caubi. Com o tapa-olho, 
ele parecia arrojado e extravagante.
      Seu pescoo estava fortemente bronzeado. Em sua base jazia uma bandana branca amarrada por um n. As mangas de sua camisa tinham sido enroladas tanto para 
cima, e to apertadas, que pareciam cordas envolvendo os bceps volumosos. A camisa azul fora deixada desabotoada, Kyla imaginou-o trabalhando sem camisa at estar 
na hora de entrar em sua picape e ir at a cidade, e ento vestir com pressa a camisa. Devido ao calor, ele no a abotoara.
      Em todo caso, as fraldas compridas da camisa golpeavam contra as coxas, e o peito estava nu, com exceo do tapete de plos escuros e enroscados que o cobria. 
E cobria belissimamente, da nuvem em forma de leque que protegia os msculos curvos das mamas e envolvia os mamilos achatados, at aquela linha fina e sedosa que 
dividia seu abdmen plano e por fim alargava em torno do umbigo. O peito era magnfico, prejudicado apenas por uma cicatriz em arco que se curvava da axila ao peito 
esquerdo.
      Suas calas jeans eram apertadas e com aquela aparncia bem desbotada que evidenciava no menos que mil lavagens. Desta vez ele no estava usando um par de 
botas de lagarto reluzente, mas um par que fora abusado por mares de lama. Para proteger as mos ao fazer trabalho braal, usava um par de luvas de couro que subiam 
das mos at os ossos dos pulsos.
      Mais excitante que tudo era o cinto de couro fechado sobre os quadris finos. Repousando ali como o coldre de um heri do Velho Oeste, era um smbolo quase 
indecente de masculinidade.
      As ferramentas de construo pendiam contra as coxas rijas, roando nos msculos a cada movimento que faziam,
      Ele era uma fantasia viva, a masculinidade encarnada.
       O que traz vocs meninas aqui pra fora? Est to quente que d pra fritar um ovo no cho.
      Babs riu.
       Voc est comeando a falar como um texano. No acha, Ky?
      Kyla, dentro do carro quente como uma sauna, estava sentada reta e rgida como um manequim.
       Acho sim.
      Ele apoiou um antebrao no teto do carro. A camisa se abriu mais. Alguns dos plos enroscados em seu peito brilhavam com gotinhas de suor. Ele baixou a cabea 
para falar diretamente com ela.
       Como vai?
       Bem. Voc?
       Bem. Aaron?
       Tudo bem com ele.
       Bom.
       Parece que voc est trabalhando duro  comentou Babs.
      Kyla percebeu, pelo tom de Babs, que ela estava irritada com a forma como a conversa estava sendo conduzida. Bem, se ela queria ficar irritada, que ficasse! 
Fora ela quem acenara para ele como uma prostituta de rua gritando, "Ei, marinheiro!" Ela que conversasse com ele.
      Kyla achou que ficaria aliviada quando ele se empertigasse para conversar com Babs. Mas, ao fazer isto, ele deixou-a com uma vista irrestrita de seu torso. 
E ele a fascinou.
      Kyla observou uma nica gota de suor formar-se na curva baixa da mama direita. Ela cresceu at se tornar uma prola cheia e lquida. Quando estava bastante 
pesada, ela se soltou. Bem devagar, comeou a descer. Os olhos de Kyla seguiram sua trajetria ondulante sobre cada costela. A gota poderia ter-se perdido nos plos 
macios que cobriam seu abdmen, mas agora estava com muito impulso, de modo que prosseguiu deslizando na pele bronzeada. Finalmente a gota correu para dentro do 
umbigo. E permaneceu ali, como se a concavidade fosse um clice desenhado para conter tamanho tesouro.
       Ele no vai, Ky? Kyla pulou em sua poltrona.
       Qu?  Babs perguntara-lhe alguma coisa, mas ela no fazia idia do qu.
       Disse a Trevor que vamos ver a casa que ele est construindo assim que ela estiver terminada.
       Oh, sim, eu gostaria disso  disse ela vagamente. No olhe mais para ele. Mantenha os olhos no horizonte, no parqumetro, ou em qualquer coisa, menos nele.
      Neste momento todo o corpo de Kyla estava transbordando suor, e a culpa pertencia apenas em parte ao calor do meio do vero. Ela queria que Babs entrasse no 
cano para elas irem embora.
      Mas quem se despediu primeiro foi Trevor.
       Preciso ir. O homem do cimento est me esperando. Adorei ver vocs.
       Tchau, Trevor  disse Babs.
       Tchau, Babs. Kyla.
       Tchau  respondeu ela numa voz fina.
      Ela s levantou os olhos depois que sabia que ele havia se virado e j estava quase de volta  picape. Mas ento ela desejou no t-lo feito. A camisa dele 
estava colada na pele, presa ali pelo suor saudvel e viril de um trabalhador braal. O tecido colado ao corpo enfatizava a largura dos ombros. E as calas jeans 
caam to bem no posterior de seu corpo quanto no anterior.
      Agora, mais de uma semana depois, lutando para dormir, ela ainda o via daquele jeito. A perna levemente manca apenas acentuava o jeito ondulante de caminhar 
que jamais falhava em deix-la com gua na boca.
      Suspirando resignada, ela se virou de lado e, rendendo-se  tentao, acompanhou mentalmente aquela gota de suor salgado descendo novamente por seu peito. 
S que desta vez a lngua de Kyla acompanhou a gota direto at o umbigo.
      Ela acordou muito mal.
      O humor de Kyla no melhorou quando ela estendeu a mo sobre a mesa posta para o caf para atender ao telefone.
       Oi.  o Trevor.
      Ela olhou de relance para seus pais. Na nica vez em que eles tinham se arriscado a perguntar por que Trevor no aparecia mais, ela cortara-os dizendo:
       Eu disse a vocs que ramos s amigos. Ele deve ter arrumado uma namorada.
      E agora, sem querer revelar a identidade da pessoa do outro lado da linha, ela disse simplesmente:
       Al.
       Acabei.
       Acabou?
       A casa.
       Oh! Parabns!
       Obrigado. Quer vir v-la?
      Os pais estavam olhando para ela com curiosidade. Meg desenhou com a boca a pergunta: "Quem ?" Kyla fingiu no entender a pantomima exagerada.
       No sei se posso  esquivou-se.
       Voc disse que iria  apelou.
       Eu sei, mas tenho estado muito ocupada.
       Antes de coloc-la  venda, gostaria de ouvir seus conselhos sobre decorao.
       No sou qualificada para dar esse tipo de consultoria.
       Voc  uma mulher, no ?
      Sim, ela era uma mulher. Do contrrio seu corao no estaria martelando contra suas costelas como se estivesse tentando escapar. Do contrrio suas coxas no 
estariam parecendo cera derretida, suas palmas no estariam to midas, e ela no estaria pensando na boca e no busto de Trevor.
       No sei nada sobre como decorar uma casa como aquela. Ela viu os olhos de Meg estreitarem-se para Clif, viu as sobrancelhas de Clif se levantarem uma vez 
para ento abaixarem mais devagar.
       Voc vir?
       Quando?
       Esta tarde.
       Este  o sbado em que fico na loja  Ela e Babs trabalhavam em sbados alternados.
       Depois do trabalho. Irei peg-la depois da hora da loja fechar.
      Kyla contorceu o fio do telefone, tentando decidir se usaria Aaron com desculpa. Trevor apenas diria para ela levar o menino junto. E como seus pais estavam 
digerindo cada palavra que ela dizia juntamente com sua granola crocante, ela no poderia usar alguma coisa relacionada a eles como motivo para no ir.
      Mas por que ela haveria de se importar se a desculpa era frgil ou no? Ela dissera a ele, em termos bem claros, que no queria v-lo nunca mais. Ele tivera 
o descaramento de telefonar e perguntar.
      Mas no seria rude recusar este convite em particular? Ela vira a casa sendo construda. Era evidente o quanto era importante para Trevor que ela ficasse boa. 
O sucesso desta casa poderia impelir sua carreira. Talvez ele quisesse a opinio dela sobre decorao, e apenas isso. Ele precisava ouvir a opinio de uma pessoa 
em quem confiasse.
       Muito bem. Nos vemos s seis da tarde.
       timo.
      Ela passou o dia inteiro ocupada na loja, mas as horas pareciam se arrastar. E ela comeara a ficar com fome. Ou seria aquele sentimento de vazio que surgia 
dentro de si cada vez que seus pensamentos se voltavam para Trevor? Ou talvez ansiedade? Ela no queria saber.
      Precisamente s 18h ele entrou na loja, devastador em roupas esportivas. Estava com cheiro de quem acabara de tomar banho e fazer a barba. Ainda midos, seus 
cabelos coleavam em torno das orelhas e caam sobre o tapa-olho com um charme de tirar qualquer flego.
       Ainda tem alguma flor para vender?
      Ela riu, aliviada por ele estar sendo amigvel e tratando este encontro com a leveza merecida.
       Algumas.
       Pronta?
       Deixe-me pegar a bolsa e desligar as luzes nos fundos.
      Em menos de um minuto ela estava de volta. Ele a acompanhou at a rua e esperou enquanto trancava a porta da frente. A mo de Trevor estava debaixo do cotovelo 
de Kyla enquanto ele a ajudava a caminhar at seu carro, mas o toque era impessoal. At aqui, tudo bem.
      Mantiveram uma conversa leve e inconseqente enquanto ele dirigia pelas ruas da cidade, e em seguida saa para o campo, tomando a direo da casa nova. Ele 
perguntou sobre os pais dela e ela lhe disse que estavam bem. Ele perguntou a respeito de Aaron e ela o atualizou sobre as ltimas travessuras do garoto. Eles no 
falaram sobre a discusso que haviam tido h mais de um ms.
       Deus do Cu!  exclamou ela quando a casa apareceu entre as rvores.  Eu no consigo acreditar!
      Ele freou o carro no caminho de acesso curvo que estava franjado com buxos.
       Gostou?
       O tem para no gostar?  Sem aguardar por ele para ajud-la, ela saltou do carro sem tirar os olhos da casa.  Voc no me disse que teria janelas de vidro 
fum a cada lado da porta da frente.
       Voc no perguntou  retrucou, provocando-a.  Vamos entrar.
      Foi como entrar nas pginas da Architectural Digest. O estilo geral era casual. A casa fora projetada para conforto e convenincia, mas nenhuma amenidade fora 
poupada. As salas eram espaosas, mas possuam uma atmosfera aconchegante.
      Kyla soltou um gritinho de alegria quando entrou na rea de jantar da cozinha e viu o quanto sua idia da sala de sol havia funcionado.
       E veja, uma torneira de gua quente na pia  disse Trevor com orgulho, demonstrando-a.  E geladeira e freezer embutidos.
        perfeita, perfeita  disse Kyla, sorrindo.
       Gostou mesmo?
        maravilhosa!
       Vamos sair. Quero lhe mostrar o jardim dos fundos.
      Um deque de pau-brasil estendia-se por vrios metros depois da casa em direo  rea dos fundos, que j fora ajardinada. Arbustos de azalias envolviam as 
rvores, que tinham sido figuradas e podadas. Flores de todos os tipos cresciam em tubos dispostos estrategicamente no deque. Um quiosque ornamentado com samambaias 
hospedava uma banheira de hidromassagem.  distncia, o crrego reluzia como um lao prateado, entremeando-se com as rvores cobertas de folhas.
       No consigo acreditar, Trevor  disse ela, pasma.  Voc fez maravilhas.  linda. A decorao que j fez  perfeita. Voc no ter a menor dificuldade de 
vender esta casa.
      Trevor pegou ambas mos de Kyla e a virou para si. Kyla ficou surpresa. At aquele momento ele mal a havia tocado. Ele fora jocoso e engraado enquanto a conduzia 
pelos cmodos da casa, exibindo-a com o entusiasmo de um menino de dez anos com uma bicicleta nova. Agora ele a estava fitando com uma intensidade que fez o pulso 
de Kyla disparar.
       Fiquei longe de voc, como me pediu.
       Foi melhor assim.
      Ele fez que no com a cabea.
       Fiquei longe, mas isso no significa que gostei disso ou que no pensei em voc.  Kyla engoliu em seco.  Muito pelo contrrio. Penso em voc o tempo todo.
       Trevor, por favor, no vamos discutir.
       Eu no pretendo discutir.
       Ento no diga mais nada.
       Deixe-me terminar.  Quando viu que ela iria lhe conceder esse privilgio, ele prosseguiu:  Voc sabe como me sinto a seu respeito. No sabe?
       Voc... voc disse...
       Disse que te amo. E falei srio, Kyla.
       Por favor, no me pressione. Eu no posso.
       No pode o qu?
       No posso me envolver num caso.
       Eu sei.  por isso que a estou pedindo em casamento.
      
      
      
      
     Captulo Oito
      
      
      
       Posso me sentar, por favor? 
      O bigode de Trevor se contorceu num sorriso.
       Foi to chocante assim?  Ele a conduziu a um balano de varanda antiquado, muito parecido ao que havia na varanda dos Powers. Ele fora anexado ao deque.
      Kyla estava atordoada demais com a proposta sbita para tecer qualquer comentrio sobre o balano. Ela sempre tivera um carinho muito grande por balanos de 
varanda. Em qualquer outro momento ela teria comentado a respeito dele. Agora mal conseguia comandar seus membros a se moverem.
      Trevor sentou-se ao lado dela, mas no a tocou. Durante alguns minutos, o nico som entre eles foi o rangido baixo da corrente enquanto o balano movia-se 
suavemente para a frente e para trs. Grilos cantavam de seus esconderijos. Cigarras haviam iniciado seus concertos noturnos nos galhos densos das rvores. Palavras 
e frases piscavam na cabea de Kyla como pirilampos, acendendo e apagando antes que ela pudesse vocaliz-las.
       No sei o que dizer.
       Diga "sim".
        Ela olhou para ele atravs da escurido que se adensava.
       Trevor, de onde tirou a idia de que quero casar com voc? Ou com qualquer pessoa?
       No tirei essa idia de lugar nenhum. Voc deixou claro em diversas ocasies que no est procurando por um marido.
       Ento por que me pediu em casamento?
       Porque eu a amo e quero ser seu marido. Quero cuidar de voc e de Aaron, ser um pai para ele.
       Mas isso  loucura!
       Por qu?
       Porque voc sabe que no amo voc.
      Ele baixou os olhos para suas mos, e enquanto abria e fechava as palmas, ficou observando-as como se as visse pela primeira vez.
       Sim, eu sei disso  disse ele finalmente.  Voc ainda est apaixonada por Richard.
      Sentindo-se compelida a toc-lo, ela pousou delicadamente a mo em seu joelho.
       Voc est torcendo para que eu mude, para que o amor aparea com o tempo?
       Voc vai mudar? Ela removeu a mo.
       Jamais amarei nenhum homem como amei a Richard. 
       Mesmo assim quero voc.
       Como voc pode sequer considerar desperdiar a sua vida desse jeito? Por que voc quer casar com uma mulher que no te ama e que jamais amar?
       Deixe que eu me preocupe com os porqus e quandos. Vai se casar comigo.
       Voc  um homem muito atraente, Trevor. Ele abriu um sorriso largo.
       Obrigado.
       O que quero dizer  insistiu Kyla, sem conseguir esconder sua irritao ,  que, daqui a seis meses, ou semana que vem, ou amanh, voc pode conhecer outra 
mulher, uma que o ame.
       Eu no vou procurar.
       Mas deveria.
       Olhe  disse ele com pacincia , esta mulher fictcia pode aparecer e me beliscar na bunda, que isso no vai importar. J achei a mulher a quem quero dar 
meu nome.
       Voc mal me conhece.
      Eu a conheo por dentro e por fora, pensou ele. Sei que voc ama balanos de varanda, claraboias, janelas de vidro fum, e casas cercadas por rvores. Eu sei 
que nos seus tempos de escola voc namorou um garoto chamado David Taylor e o desgraado partiu seu corao. Debaixo do brao direito, voc tem um aglomerado de 
sardas que considera sua marca de nascena. E voc no gosta de seus seios porque os acha pequenos demais. Mas eu os considero adorveis e mal posso esperar para 
v-los, toc-los com as pontas de dedos e com a lngua, am-los com minha boca.
      Trevor pigarreou e se remexeu desconfortavelmente no balano.
       Eu no acreditava em amor  primeira vista at v-la no shopping center naquele dia. Achei voc linda, mas voc foi mais do que apenas uma mulher atraente 
que chamou a minha ateno. Gostei da forma como voc falou com Aaron. E da forma como suas mos se moveram enquanto voc cuidava dele.  Ele sorriu torto.  Se 
ele no tivesse inventado de saltar naquele chafariz, eu teria pensado numa maneira de conhecer voc.  Ele se aproximou dela at apenas centmetros separ-los. 
 Case comigo, Kyla. Fique comigo nesta casa.
       Nesta casa!  exclamou baixinho.  Voc construiu esta casa com a inteno de vivermos nela?
      Satisfeito por t-la surpreendido, ele perguntou:
       Por que voc acha que dei tanta ateno aos detalhes?
      s costas de Kyla, para alm das paredes de vidro que abriam para o deque, Kyla via os cmodos bem planejados, cmodos que mesmo se ela prpria os tivesse 
planejado, no poderiam estar mais ao seu gosto.
       Temos uma semelhana de gosto inacreditvel. A casa  maravilhosa, Trevor, mas no constitui um bom motivo para casar com uma pessoa.
       Neste momento,  apenas uma casa. Quero fazer dela um lar. Para Aaron. Para voc. Para ns.
      Ela o estudou por um momento, balanando a cabea.
       No faz sentido nenhum.
       Faz sentido perfeito. Eu quero que sejamos uma famlia. Quero assumir responsabilidade por voc e por Aaron.
      A idia veio do nada, mas atingiu-a com o impacto de um trem de carga em alta velocidade. Ele queria uma esposa e um filho. Agora, por que um homem com a aparncia 
e o charme de Trevor, um homem que poderia ter qualquer mulher que quisesse, proporia casamento a uma viva com um filho? A no ser que ele no pudesse consegui-los 
de outra forma.
       claro! Nem todas as deficincias de Trevor eram visveis. Seria a principal atrao de Kyla o fato de que ela no queria e no podia retribuir o amor dele? 
Ele precisava de uma esposa que no lhe fosse fazer exigncias fsicas? Para ter um filho, ele precisaria casar com uma mulher que j tivesse um? De uma forma estranha, 
isto iria ser nada mais do que um casamento de convenincia?
       Trevor  disse ela, hesitante.  O seu... Quando voc se acidentou...?
       Sim?
       Por acaso...?
       Por acaso o qu?
       O que estou dizendo ... Por acaso voc ...?
       Eu...? Sou o qu? Ela respirou fundo.
       Voc  capaz de intimidades?  Ela se sentiu pequena e o mundo se fechou ao seu redor. Reunindo toda sua coragem, ela levantou os olhos para ele.
       Voc me beijou, no beijou?  perguntou ele numa voz grave.
       Sim.
       Eu abracei voc.
       Sim.
       Ficamos bem juntinhos.
       Sim.
      Ela desviou o olhar e, quando no disse nada depois de um tempo interminvel, ele insistiu:
       E ento?
       Pensei que como eu era uma viva com um filho, e se... aquilo... aconteceu com voc, ento...
      Ele inclinou a cabea com a mo debaixo do queixo de Kyla.
       No apenas sou capaz, como louco para ter intimidades com voc.  Cada palavra emitiu uma corrente vibrante atravs do corpo de Kyla, que continuou zumbindo 
como cordas de harpa muito depois de terem sido puxadas por dedos hbeis.  E para que no haja qualquer mal-entendido depois, quero que saiba que este casamento 
implicaria em tudo que o relacionamento implica. Quero ser seu marido em cada sentido da palavra. Eu a quero na minha cama, Kyla. Quero fazer amor com voc. Freqentemente. 
Voc entendeu?
      Ela fez que sim com a cabea mecanicamente, como se estivesse hipnotizada. Depois nenhum deles lembraria como os dedos de Trevor acabaram envolvendo o pescoo 
de Kyla, mas ambos perceberam isso ao mesmo tempo. Permaneceram sentados imveis. Com seu nico olho verde, Trevor manteve Kyla magnetizada enquanto aproximava cada 
mais seu rosto. No instante em que sentiu o roar do bigode em seus lbios, Kyla fechou as plpebras.
      Que desperdcio, pensou Kyla enquanto sentia os dedos dele correrem por seus cabelos. Que pena um beijo como este ser desperdiado com uma mulher que no podia 
am-lo. Quo lamentvel que lbios a um s tempo ferozes e gentis, numa combinao deliciosa a ponto de faz-la separar os seus como se estivesse com fome, no estivessem 
beijando uma mulher que pudesse retribuir tanta paixo.
      Ela repousou de leve as mos nos ombros dele para no cair da cadeira que balanava, do universo que balanava.
      Com seu outro brao, Trevor envolveu a cintura de Kyla e puxou-a contra o peito. Deixou escapar um grunhido baixo e msculo enquanto fazia sua lngua penetrar 
os lbios de Kyla para provar totalmente sua boca.
      Kyla estava tendo uma dificuldade imensa de conter seus prprios gemidos baixos. O chicote de seda que era a lngua de Trevor a fez pensar no quanto era lamentvel 
que este beijo no estivesse sendo concedido a uma mulher que pudesse apreci-lo.
      De sbito ocorreu a Kyla que ela estava manifestando todas evidncias possveis de apreciao. Suas costas estavam arqueadas, pressionando os seios contra 
o peito dele. Seus dedos tinham agarrado com selvageria o tecido da camisa de Trevor. Sua lngua respondia a todas as carcias da lngua dele.
      Abruptamente afastou-se dele, experimentando uma falta alarmante de ar. Levantando depressa, perguntou-se que mazela abatera-se sobre seus joelhos. Eles tremiam 
tanto que mal podiam sustent-la.
       Preciso ir.
      Trevor tambm estava sentindo dificuldade de respirar, se aquele som rascante filtrado por seus lbios servia de indcio.
       Tudo bem  concordou sem discutir.
      Ele levou muito tempo para se levantar. Bastou um olhar rpido e proibido para a parte inferior do corpo de Trevor para que Kyla se sentisse ridcula por suas 
especulaes anteriores.
      Virtualmente em fuga, ela refez seu caminho atravs da casa para esperar por ele na porta da frente. Grata, afundou no banco da frente do carro quando sentiu 
as pernas rurem sob seu corpo.
      Trevor no tentou conversar com ela enquanto a conduzia para casa. Kyla sentiu-se aliviada por isso. A loucura do vero fora responsvel pelo pedido de casamento. 
Talvez ele tivesse apenas feito uma piada. Ele poderia j estar arrependido de ter lhe proposto casamento.
      Mas ela soube que esse no era o caso quando Trevor desligou o motor do carro no meio-fio em frente  casa dos Powers, virou-se e, pousando o brao nas costas 
da poltrona do carona, disse "Kyla?", num tom inconfundvel que gelou seu sangue.
      Foi chocante descobrir o sabor de Trevor ainda em seus lbios quando ela os lambeu nervosamente.
       Acho que esse assunto nem merece mais discusso. Voc no pode estar falando srio.
       Kyla.  Trevor esperou at ela virar cautelosamente a cabea e olhar para ele.  Estou falando srio. Voc acha que eu poderia t-la beijado daquele jeito 
se no falasse srio?
       No sei  disse ela com um trao de desespero na voz.  Ele riu baixo, achando aquilo divertido.  Eu beijei muitas mulheres, mas nunca pedi nenhuma em casamento. 
Acredite em mim, eu falei srio.  Segurou a mo de Kyla e a beijou na palma.  Sei que a peguei de surpresa. No espero uma resposta para esta noite. Mas me prometa 
que pensar no assunto. Pense no que nosso casamento poderia significar para voc e para Aaron. E para seus pais. Pense nisso.
      Trevor Rule joga sujo, pensou Kyla com raiva enquanto checava pela milsima vez o painel digital do relgio na sua mesa de cabeceira. Ela estava acordada h 
horas, e a culpa de sua insnia era de Trevor.
      O corpo de Kyla recusava-se a relaxar. Estava inquieto, alerta para cada estimulante sensual. Suas pernas nuas nunca haviam estado em contato com lenis de 
linho antes? Ento porque estavam roando contra eles? E por que esta velha camisola estava irritando seus seios? Por que esta noite seus mamilos estavam supersensveis 
a cada toque de tecido contra eles? Por que necessitavam de consolo? E por que, cada vez que pensava nos seios sendo consolados, ela imaginava os lbios de Trevor 
neles?
      Repetidas vezes ela jurou que essas manifestaes fsicas no tinham nenhuma relao com seu beijo. Ela estaria prestes a ficar menstruada? Essa poderia ser 
a causa da presso dolorosa entre suas coxas. Ser que ela esbarrara em hera-venenosa? Seria essa a razo para sua pele parecer irritada e necessitada de carcias?
       No estou excitada.
      Seu corpo discutia com ela, dizendo o contrrio.
      Trevor era ardiloso. Ele sabia que botes apertar. Ele sugerira sutilmente que se ela no casasse com ele, estaria sendo egosta.
      Muito bem, ento ela ia bancar a advogada do diabo.
      Seria bom para os pais dela. Eles iriam se sentir  vontade para fazer seus prprios planos, sabendo que ela e Aaron estariam sob a proteo de Trevor.
      E seria bom para Aaron. Um menino em crescimento precisava de um pai. At agora Clif Powers preenchera esse papel na vida de Aaron, mas por quanto tempo ele 
conseguiria manter o ritmo de seu neto? Por quanto tempo ele seria suficientemente saudvel e enrgico para praticar esportes com ele, lev-lo para pescar e acampar, 
e fazer toda a mirade de coisas fisicamente exaustivas que um pai faz com seu filho?
      Mas Aaron tinha um pai!, argumentava Kyla. Richard Stroud era o pai de Aaron. Ela jurara manter Richard vivo para seu filho e estava determinada a manter esse 
voto. Seria preciso mais do que modos sofisticados e uma lngua afiada para impedi-la de fazer isso.
      Alm disso, uma mulher no se comprometia a um casamento porque ele seria benfico s pessoas ao seu redor, por mais atraente que fosse o homem. Sem dvida, 
Trevor Rule era atraente e um bom partido. Ela estava ciente dos passos que ele estava dando na comunidade. Ele vivia sendo citado nas pginas de economia do jornal. 
Obviamente era um homem ntegro, honesto em suas transaes comerciais e respeitado por suas idias inovadoras para o crescimento econmico. Fisicamente...
      No. Seria melhor no pensar nos atributos fsicos dele. A teoria de que ele fora castrado como resultado de seu acidente provara-se falsa poucos momentos 
depois.
      No, deixe sua atrao fsica de fora disto. Pensar nisso tendia a entorpecer sua mente e julgamento. A nica forma de abordar este problema era pragmaticamente.
      Foi isso que ela fez at o nascer do dia, quando finalmente chegou a uma deciso. Encontraria um lugar para ela e Aaron viverem. Ela iria se mudar desta casa 
para que seus pais pudessem vend-la e prosseguir seus planos.
      Casar com Trevor no seria necessrio. Financeiramente, ela estava se sustentando sozinha. Quando Aaron ficasse mais velho, ela iria estimular que ele se relacionasse 
com outros meninos de sua idade e com os pais deles. Ela no precisava de um homem em sua vida.
      Contudo, ela suponha que deveria agradecer a Trevor por sua proposta e por induzi-la a tomar decises que ela vinha postergando desde a morte de Richard. Quanto 
mais cedo ela recusasse a proposta, melhor. 
      Na manh seguinte, enquanto seus pais se vestiam para ir  igreja, ela deu o telefonema. Ele atendeu no meio do primeiro toque.
       Al, Trevor. Espero no ter acordado voc.
       No acordou.
       Cheguei a uma deciso. Eu...
       Estou indo para a.
      Ele desligou o telefone antes que ela pudesse dizer outra palavra. Irritada, ela ps o telefone de volta no gancho. Teria sido mais fcil recusar o pedido 
pelo telefone e poupar a ambos do constrangimento de um encontro cara a cara.
      Como ela e Aaron j estavam vestidos, Kyla carregou a ele e sua bola de praia para fora. Se encontrasse Trevor no gramado da frente, poderia pr um fim nisto 
antes que seus pais soubessem o que estava acontecendo.
      Trevor devia ter estado de p ao lado do telefone com as chaves do carro na mo, porque ele chegou numa questo de minutos. Kyla ficou surpresa em v-lo emergir 
de seu carro usando um terno escuro. Seus cabelos reluziam ao sol. Ele deu um chute na bola de plstico, e Aaron saiu andando tropegamente atrs dela.
       Bom dia  disse ele.
       Bom dia.
      Ela estava nervosa. Isto ia ser mais difcil do que ela imaginara. Embora estivesse tentando concentrar-se no quanto era ridcula a idia de casar com ele, 
sua mente ocupava-se com o quanto ele era bonito. Ela estava lembrando da sensao do bigode dele contra a palma de sua mo, a forma como beijara sua garganta e 
tocara seu pescoo com dedos que pareciam saber exatamente a quantidade certa de presso a aplicar.
       Trevor  comeou ela, lambendo os lbios rapidamente e entrelaando os dedos suados. Eu...
      O cachorro pareceu cair do cu. Subitamente ele estava l, danando em torno de Aaron e latindo alto. Os movimentos do poodle branco eram frenticos, rpidos, 
e, para o beb de 15 meses, aterrorizantes. O que para o poodle eram simples brincadeiras, para a criana deveriam parecer ataques violentos.
      Aaron gritou, mas seus gritos apenas pareceram agitar mais o cachorro. Ele pulou em torno da criana como uma bolinha branca peluda, seu latido agudo e rpido 
como o matraquear de uma metralhadora.
      Aaron deu vrios passos para a frente, procurando por onde fugir. O cachorro empinou nas patas traseiras. Aaron tropeou para trs. E ento, com toda a agilidade 
que podia, ele se levantou, recuperou o equilbrio e correu s cegas em direo  segurana.
      Ou talvez no to s cegas. Ele tinha uma escolha clara sobre para quem correr. Mas no escolheu a me. A criana correu em direo ao homem grande e forte, 
que se abaixou para tom-lo nos braos no instante em que sentiu o corpinho slido chocar-se contra suas pernas.
      Os bracinhos gorduchos envolveram o pescoo de Trevor. Aaron enterrou o rosto raiado por lgrimas na curva entre o pescoo e o ombro de Trevor. Este abaixou 
a cabea sobre a da criana e esfregou com fora suas costas.
       Est tudo bem, campeo. Tudo bem. Voc est seguro. Eu te peguei, no vou deixar ningum te machucar. Aquele filhotinho s queria brincar com voc. Vamos, 
voc est bem.
      A dona do animal, uma mulher gorda de meia-idade, chegou ofegante  calada. Ela pegou o poodle e lhe deu um tapinha no traseiro.
       Seu malvado. Por que assustou o menininho?  Enfiando o poodle debaixo do brao, ela se aproximou correndo deles.  O seu filho est bem?  perguntou a Trevor.
       Ele est bem. S assustado.  Trevor continuou esfregando as costas de Aaron. O menino no havia se movido. Seu rosto ainda estava pressionado contra o de 
Trevor, mas ele parara de chorar.
       Sinto muito. Eu soltei a correia e ele disparou como um foguete. Ele no ia morder o garotinho. S queria brincar com ele.
       Acho que Aaron foi pego de surpresa.  A mo grande de Trevor cobriu a cabea de Aaron e segurou com firmeza seu pescoo.
       Sinto muito.  A mulher se afastou pela calada, ainda ralhando com o cachorro.
      Trevor deu um tapinha nas costas de Aaron. Ele fez ccegas em sua bochecha com o bigode e beijou sua testa. 
       Ele vai ficar bem. Acho que ele s...
      As palavras morreram em sua garganta quando ele notou o rosto de Kyla. Ela estava de p perto dele, olhando-o com uma expresso que prendeu seu olhar e emudeceu 
sua voz. Havia lgrimas em seus olhos. Seus lbios estavam trmulos e levemente afastados. Ela estava olhando para ele como se realmente o estivesse vendo pela primeira 
vez.
      Durante longos momentos, eles se entreolharam, alheios ao fato de que os Powers haviam sado para a varanda da frente para ver qual era a causa do barulho. 
Meg comeou a descer os degraus, mas Clif segurou seu brao e a deteve.
      Trevor, ainda segurando Aaron, estendeu a mo esquerda e segurou o queixo de Kyla. Com o polegar, acariciou o lbio inferior de Kyla.
       Voc foi interrompida. O que ia me dizer?
      Naquele instante, ela sabia qual seria sua resposta. Aaron precisava de um pai. Um pai vivo. A memria de Richard seria mantida viva, mas ela no protegeria 
o menino dos terrores do dia a dia, como filhotes cheios de energia.
      Era evidente o quanto Trevor gostava do filho de Kyla. Aaron procurara-o instintivamente por proteo. Ele era carinhoso, gentil, generoso. Onde mais ela iria 
achar um homem disposto a assumir as responsabilidades de criar o filho de outro homem, um homem disposto a se casar com uma viva sabendo que ela no o amava?
       Eu estava para dizer que gostaria de me casar com voc. Se... se voc ainda me quiser.
       Se eu ainda quiser voc?  repetiu rouco.  Deus, sim, ainda quero voc.
      Trevor fechou o espao entre eles e, com o brao ainda segurando o filho dela, ele a abraou. Kyla no sabia o que ela havia esperado. Um aperto de mos para 
selar o negcio? Um documento pr-nupcial para ela assinar? Certamente no o beijo que ela recebeu. Era manh de domingo. Eles estavam de p ali,  luz do dia, completamente 
 vista de qualquer vizinho que estivesse saindo de casa ou qualquer motorista que passasse pela rua.
      Mas Trevor no demonstrou nenhum decoro ao beij-la. Ele inclinou a cabea para um lado, alinhou sua boca  dela e a beijou com virilidade e avidez.
      Kyla sentiu um golpe na regio mediana de seu corpo, como se um punho de veludo a houvesse socado. O golpe disseminou ondas de prazer por todo seu corpo. Vagamente, 
no fundo de sua mente, ela estava desapontada por ainda segurar Aaron e, portanto, no poder puxar Trevor contra si e fechar o circuito de sensao que estava estalando 
e chiando. Tudo que havia de feminino dentro dele ansiava por ser pressionado contra aquele corpo rijo e viril. Ela queria que ele a preenchesse.
      Quando ele finalmente afastou a boca da sua, ela cambaleou levemente. Seu brao forte estava l para aprum-la. Ele a fez virar-se e caminhar em direo  
casa, onde ela viu os pais observando-a na varanda. Aaron puxava alegremente um punhado dos cabelos negros de Trevor, que trazia um grande sorriso nos lbios e a 
cada poucos passos ria alto.
       Sra. Powers, sr. Powers, Kyla me concedeu a honra de aceitar meu pedido de casamento.
      Meg imediatamente irrompeu em lgrimas de felicidade. Clif desceu correndo os degraus para apertar a mo de Trevor.
       Isso  maravilhoso. Estamos muito felizes. Estamos... bem, estamos felizes. Quando?  perguntou  filha.
       Quando?  ecoou Trevor.
       Eu... eu no sei.  Agora que havia tomado a deciso, ela tinha a impresso de estar sendo carregada por um maremoto.
       No tive tempo para pensar nisso.
       Que tal sbado que vem?  sugeriu Trevor  Venho vestido para lev-lo  igreja. Podemos marcar a cerimnia com o pastor para depois da missa.
       Acho uma idia maravilhosa  disse Meg entusiasmada,
       Aqui em casa,  claro.
       Sim, por que esperar?  comentou Clif
      Sim, por qu? Estava se perguntando Kyla, Por que ela sentia vontade de pisar no freio? Aceitar a proposta de casamento de Trevor parecera o ideal h poucos 
momentos, mas agora ela estava compreendendo a enormidade de sua deciso. Isto era para valer. Ela estava prestes a se tornar a sra. Trevor Rule. O que todos iriam 
pensar?
      Babs no deixou qualquer dvida sobre como recebeu a notcia. Como era de hbito, foi almoar com os Powers no domingo. Trevor atendeu a porta quando ela bateu. 
Clif estava retirando do freezer o sorvete caseiro que Meg insistira em fazer para a sobremesa para celebrar a ocasio. Kyla estava dando de comer a Aaron para que 
pudesse coloc-lo para cochilar antes do almoo. Meg estava fazendo uma salada verde. Trevor era o nico disponvel.
      Babs olhou atnica para Trevor enquanto ele abria a porta de tela e dava um passo para o lado.
       Entrem. Todo mundo est na cozinha.
      Kyla no dissera a Babs que ela ia ver Trevor. Babs no o vira desde aquela tarde na cidade, h mais de uma semana, quando Kyla agira como uma criana. Agora, 
onde antes estivera amarrado um cinto de carpinteiro, havia um avental azul e branco. Ele insistira em ajudar Meg a preparar o almoo.
      Babs entrou na cozinha atrs dele. Mal tinha passado pela porta quando indagou a Kyla:
       O que est acontecendo aqui?
      Os olhos de Kyla correram pelos rostos expectantes, mas quando ningum pareceu inclinado a responder a Babs, a tarefa sobrou para ela.
      Os olhos azuis de Babs encontraram os de Trevor. Ele abriu um sorriso largo e disse:
       Surpresa!
       Voc vai casar!  exclamou Babs. Quando ele fez que sim com a cabea, Babs ps as mos em concha no rosto de Trevor e lascou um beijo diretamente em sua 
boca.  Como voc vai casar com a minha melhor amiga, achei que eu tinha o direito de fazer isso.
      Rindo, Trevor abraou a cintura de Babs e plantou outro beijo sonoro em sua boca. Quando a soltou, ele disse:
       Achei que eu tinha o mesmo direito.
      Todos riram, incluindo Aaron, que no entendia nada alm da alegria ao seu redor. Ele bateu sua colher na bandeja da cadeirinha de refeies.
      O almoo foi uma ocasio jubilosa. Eles conversaram muito sobre a cerimnia e o casamento em geral. Kyla no conseguia acostumar-se com a idia de que em menos 
de uma semana seria uma mulher casada. Nem conseguia acostumar-se com o jeito carinhoso com que Trevor a tratava.
      Trevor estava sentado perto dela. Ele se aproveitou de inmeras oportunidades para toc-la. Seu brao freqentemente repousava nos ombros dela. As pontas de 
seus dedos realizavam carcias com a mesma naturalidade com que os lbios beijavam.
      Kyla no estava incomodada com essas demonstraes de afeto. Muito pelo contrrio. Ela descobriu que estava comeando a esperar pelos carinhos. Essa antecipao 
se tornou culpa. At onde dizia respeito a ela, este era um casamento de convenincia. No era?
      Trevor passou a tarde com eles. Ele lhes contou um pouco sobre seu passado.
       Cresci na Filadlfia. Cursei a escola preparatria, e depois ingressei em Harvard.
       A sua me morreu?  perguntou Meg.
       Sim, ela morreu h muitos anos. Vou notificar meu pai sobre o casamento, mas duvido que ele consiga vir to em cima da hora.
       Ele  advogado?  perguntou Clif
       E muito bem-sucedido. Ele ficou decepcionado comigo por no seguir os passos dele e mudar o nome da firma para Alexander, Rule e Rule.
       Mas ele certamente se orgulha do seu sucesso no seu prprio campo  comentou Clif
      Trevor pareceu refletir sobre isso.
       Espero que sim  disse finalmente.
      A noite, todos na cidade pareciam saber sobre o casamento.
       A sra. Baker se ofereceu para fazer seu ch de panela. 
      Horrorizada, Kyla deu as costas para o balco da cozinha, onde ela estava preparando uma bandeja de sanduches para levar para os homens sentados na varanda.
       Oh, no, me. No quero nenhuma daquelas bobagens. Por favor, agradea a todo mundo que ligar para oferecer, mas recuse gentilmente.
       Mas Kyla, todo mundo est to feliz por voc!
      Ela balanou a cabea, recusando-se terminantemente.
       No quero festa nenhuma. Nada. Por favor. J tive tudo isso antes e foi adorvel. Este... este casamento no  assim.
      Meg olhou para a filha sem disfarar sua decepo.
       Tudo bem, querida.
      Seus pais, que pareciam caminhar nas nuvens de tanta felicidade, jamais compreenderiam seus motivos para se casar com Trevor. Kyla no tinha certeza nem se 
ela os entendia.
      Kyla acompanhou Trevor at a rua depois que ele havia desejado boa noite aos seus pais. Assim que tinham passado pela porta de tela e mergulhado nas sombras 
violentas da varanda, ele a tomou nos braos e baixou a boca para a dela.
      O beijo foi ntimo e provocante, um acasalamento de bocas. A lngua de Trevor golpeava a dela. Suas mos escorregaram das costas de Kyla para a frente de sua 
cintura. Ento subiram at as costelas e pressionaram os seios. Ela gemeu.
       Deus, no sei como vou sobreviver at a noite de sbado.  Ele a soltou.  Voc sabe o quanto desejo toc-la? Mas no posso toc-la agora. Se eu a tocar 
agora, no serei capaz de parar at que no haja roupas entre ns e eu a esteja abraando e beijando sua boca, seios, barriga... voc toda.
      A ltima palavra foi sussurrada em sua orelha. Em seguida a boca aberta de Trevor deslizou da parte inferior do queixo at a base do pescoo de Kyla. Pinicando, 
acariciando e esquentando sua pele, o bigode era um instrumento que concedia prazer, alienava a conscincia e apagava a memria de Kyla. Se ele tivesse apertado 
mais o abrao, ela teria permitido. Ele no o fez.
       Boa noite, querida.
      A escurido o engoliu. Muito depois de ter observado as lanternas traseiras de seu carro desaparecerem, Kyla ficou parada na varanda, tremendo ao pensar em 
sua noite de npcias. Ela tentou convencer a si mesma de que os arrepios que a atormentavam eram causados por medo.
      Mas ela no achava que fosse.
      
      Na semana que se seguiu, todos estavam num clima festivo. Seus pais nunca haviam parecido to animados desde a morte de Richard. Era evidente que eles adoravam 
Trevor e confiavam nele para fazer sua filha e seu neto felizes. O entusiasmo de Babs desconhecia fronteiras.
       Mas no preciso de nada disto  disse Kyla a respeito da camisola sexy que Babs estava segurando para ela.
       Toda noiva precisa vestir uma camisola como esta. No que elas fiquem vestidas por muito tempo  disse com uma piscadela safada. A implicao embrulhou o 
estmago de Kyla.
       Eu tenho muitas camisolas  objetou Kyla em voz baixa. 
       J as vi. So pavorosas. Pelo menos para uma lua de mel.
       No vamos sair em lua de mel. Pelo menos no agora. Vamos nos mudar diretamente para a casa de Trevor
       A sua casa. E voc sabe o que quero dizer quando falo em lua de mel. Voc no precisa sair da cidade para ter uma. Ou melhor, nem precisa sair do quarto. 
 Ela soltou uma risada.  Eu j tive um monte. Ento, qual vai ser? A azul ou a cor de pssego?
       Eu no me importo  disse Kyla petulante, sentando na cadeira da sala de provas da butique.  Foi voc quem insistiu que eu precisava de uma camisola nova, 
ento escolha uma.
       Caramba!  exclamou Babs, agoniada.  Qual  o seu problema?
      Babs no acreditaria se ela contasse, e ela no iria contar. Quando se  insana, voc raramente quer anunciar isso aos seus amigos.
       Nenhum.
       Bem, voc  uma rabugenta. No consigo pensar em nada melhor para seu humor do que passar alguns dias debaixo dos lenis com Trevor Rule.
       Ela se virou para chamar a vendedora e deixou de ver a expresso desolada de Kyla. Ela queria ser contaminada pelo esprito da ocasio, mas no conseguia 
se permitir isso. Ficar empolgada com o casamento seria desleal a Richard. H dias ningum mencionava o nome dele. Ele parecia ter sido apagado da mente de todos, 
menos da dela.
      Ela agarrava suas lembranas com mais tenacidade do que nunca, mas elas inevitavelmente lhe escapuliam. Kyla notou que esses lapsos de memria ocorriam mais 
freqentemente quando estava com Trevor, que vinha desempenhando o papel de noivo com dedicao intensa.
      Todas as noites eles saam para comprar coisas para a casa. Trevor queria a opinio de Kyla a respeito de tudo, de batedeiras a almofadas. Isso quase no era 
necessrio, porque ele sempre adivinhava o que iria lhe agradar. Os gostos dos dois coincidiam em tudo. Ela freqentemente se sentia como Cinderela, tendo todos 
os seus desejos satisfeitos ao mesmo tempo. Ele no poupava despesas. Quando o interior da casa comeou a tomar forma, ela sentiu vontade de se beliscar para ter 
certeza de que isto no era um sonho louco.
      Foi assim que se sentiu na noite em que Trevor a levou para a sute principal para lhe mostrar o produto final de seus esforos combinados.
       Eles entregaram as cadeiras e a cama hoje  disse ele, acendendo a luz do abajur em forma de ltus com cpula de seda.  Acho que tudo ficou muito bom.
      O quarto era lindo, parecendo ter sado direto de seus sonhos. Os olhos de Kyla varreram-no lentamente, e quando fecharam um crculo completo no homem, ele 
a fitava intensamente. Os cabelos de Kyla estavam desenhados pelo abajur e seu corpo silhuetado atravs do vestido de voal.
       O que ?  perguntou ela baixinho.
       Vamos experimentar a cama.
      Ela reagiu com um arfar repentino, um pulo de seu corao, um piscar dos olhos. Ele estendeu a mo para ela e, antes que se desse conta, Kyla estava deitada 
na cama com ele debruado sobre ela. Mantendo os olhos de Kyla cativos com seu olhar, Trevor deslizou a mo pela lateral do pescoo at deix-la repousar no seio 
e no primeiro boto de seu vestido. Ele o desabotoou. E o segundo. E o terceiro.
      Ela ainda no conseguia se mover. Nem mesmo quando ele enfiou a mo para dentro do vestido. A respirao de Kyla acelerou. Involuntariamente, ela fechou os 
olhos.
      Ele enfiou os dedos por baixo da ala do suti de Kyla e a abaixou. E continuou abaixando at expor a curva superior de um seio.
       Meu Deus, voc  linda.  Ele pousou a mo sobre a dela e massageou a curva superior do seio, e em seguida abaixou a mo para roar o mamilo, que prontamente 
respondeu ao seu toque.
      Trevor suspirou o nome de Kyla um instante antes de sua boca clamar a dela. Seu beijo no foi to tempestuoso quanto ela esperara. Foi infinitamente delicado 
e amvel. To amvel quanto a mo que continuava a acariciar levemente o mamilo.
      Ele pressionou a boca na orelha dela.
       Quero entrar em voc, Kyla. Quero lev-la ao xtase. Ele sufocou o arfar de Kyla com mais um beijo profundo.
      As pontas de seus dedos acariciaram a pele que se arrepiava em resposta s palavras ousadas.
       Por favor, querida, no faa esse som sensual. Por favor, no faa isto ficar bom demais  gemeu ele, enquanto seus dedos acariciavam os seios de Kyla.  
Porque ento no serei capaz de parar. E quero ser seu marido quando a possuir pela primeira vez.
      Exercendo imenso autocontrole, ele conteve suas carcias. Trevor vestiu-a novamente e ajudou-a a ficar de p ao lado da cama desarrumada. Ela se debruou lnguida 
contra ele.
      Sorrindo dentro dos cabelos dela, Trevor cobriu o corao dela com uma das mos.
       Eu vou faz-la feliz, Kyla. Juro.
      Ela enterrou o rosto no pescoo dele, no por paixo, mas por desespero. Ele fazia o seu corpo cantar. Mas ela no podia retribuir a promessa de felicidade 
ou amor. Porque cumprir essa promessa poria em risco aquela outra que ela fizera antes mesmo de conhecer Trevor Rule, aquela que ela fizera no dia em que Richard 
morrera.
      
      
      
     Captulo Nove
      
      
      
      Babs encheu a casa com flores. Meg serviu um bufe suntuoso. O confeiteiro entregou um bolo de camadas mltiplas. O que Kyla torcera para no ser mais do que 
uma pequena reunio da famlia com seu pastor, acabou parecendo muito com uma festa de casamento.
      Enfurnada em seu quarto, Kyla estava furiosa.
       Todo mundo est dando importncia demais a isto  disse ela enquanto estendia a mo para os botes nas costas do corpete.
       Claro que esto. Isto  um casamento, pelo amor de Deus!  Babs virou-a para fechar os botes que Kyla no conseguiria alcanar.
       Um segundo casamento.
       Mas por que isso a irrita tanto? Algumas de ns temos de passar por isso.
      Kyla fitou Babs, surpresa.
       Eu no sei se um dia voc vai se casar.
      Babs pareceu magoada por ouvir uma coisa que ela no queria lembrar.
       No com ningum que eu tenha conhecido at agora. Mas se um Richard Stroud ou um Trevor Rule entrasse na minha vida, eu iria amarr-lo e arrast-lo at o 
altar
      Sabendo que merecera ouvir essa reposta, Kyla entrou em sua saia.
       Sinto muito, Babs. Eu sei o quanto tenho tido sorte.
       Ora, droga, no preste ateno em mim. Eu no chamaria de sorte ter perdido o marido num atentado terrorista. S estou com inveja por nenhum homem maravilhoso 
ter me amado enquanto voc teve dois se arrastando aos seus ps.
      Ela riu da imagem mental que as palavras de Babs pintaram.
       Duvido que Trevor se arrastasse. Babs tambm riu.
       Pensando melhor, eu tambm.  Ela suspirou.  Caramba, Kyla, ele  um pedao de mau caminho. Mas um bom pedao de mau caminho, o que  quase uma contradio 
de termos.
      Kyla no queria pensar no homem que estava esperando por tela na sala do andar de baixo. Sempre que pensava em Trevor e noite por vir, ela comeava a tremer.
       Tem certeza de que este vestido  apropriado?  perguntou ela, mudando de assunto.  Acho que deveria vestir alguma mais simples.
       Ele  perfeito.
      O vestido de seda de duas peas possua bordados detalhados nos ombros e na cintura da saia justa. A cor amarelo plido e o lustro do tecido deixavam-na com 
uma aparncia de sorvete de limo. A nica joia que ela estava usando era um par de brincos de prola.
       Voc no acha que devia tirar isso?
      Kyla acompanhou a direo do olhar de Babs at sua mo esquerda.
       Minha aliana de casamento.  Ela nem havia pensado nisso porque fazia tanto parte de sua mo quanto suas digitais. O pensamento de tir-la formou lgrimas 
em seus olhos. Ela no saa de sua mo desde o dia em que Richard pusera-a em seu dedo com um voto solene de amor at a morte.
      Lentamente, girando um pouco a aliana e puxando-a de leve, ela a removeu. Reverentemente, ela a pousou no forro de veludo de sua caixa de jias e fechou a 
tampa.
       Est pronta?  indagou Babs.
       Acho que sim  balbuciou Kyla. Separar-se da aliana de casamento foi uma emoo to violenta quanto a de deixar Richard em sua sepultura. Durante a semana 
inteira ela fizera pouco caso desta ocasio. Mas no podia fazer mais. Ela estava prestes a casar com outro homem. Numa questo de minutos, ele, e no Richard, seria 
seu esposo.
       Papai j desceu com Aaron?
       Voc  uma noiva! Pare de se preocupar com Aaron. Os seus pais e eu podemos cuidar dele.  Babs pegou uma grande caixa quadrada que trouxera para o quarto. 
 Trevor me pediu para lhe dar isto antes de descermos.
      Era um buqu de orqudeas selvagens, as "Bow Bells" que ela tanto amava, guarnecidas com brotos de rosa brancas e ramos de juta.
       Meu Deus!  exclamou Kyla, tirando o buqu belssimo das mos estendidas de Babs.  A deve ter...
       Uma dzia de orqudeas no total. Ele foi muito especfico.  Os olhos azuis de Babs estavam cintilando.  Estou te dizendo, Kyla, o homem  uma joia, e se 
voc arruinar este casamento, vou roub-lo de voc sem o menor peso na conscincia.
       Vou me esforar ao mximo para que funcione  murmurou Kyla enquanto ela caminhava sonolenta at a porta.
      No andar de baixo, Babs conduziu-a at a sala de estar. Kyla ouviu as conversas sussurradas cessarem. Ela respirou fundo. Cada pessoa na sala estava olhando 
para ela ao entrar.
      Meg tinha um leno molhado pressionado contra a face, mas estava sorrindo. Emocionado, Clif engoliu em seco, fazendo seu pomo de Ado subir e descer. Babs 
estava sorrindo com a travessura romntica de uma ninfa da floresta. Os Haskells, Ted e Lynn, estavam de p juntos, muito solenes.
      Finalmente Kyla olhou para Trevor, que era estava to bonito que a fez sentir-se mole por dentro. Ele estava usando o mesmo terno cinza-carvo que vestira 
no banquete. Desta vez a camisa era cor de marfim. Uma gravata, tambm marfim, com listras pretas, combinava com o leno de seda dobrado no bolso esquerdo.
      Trevor caminhou at ela, mas Aaron, que podia se mover como um raio quando ningum esperava, avanou e a alcanou primeiro. Meg e Babs deram passos simultneos 
para a frente, para impedi-lo de rasgar as meias ou amassar a saia de Kyla. Mas Trevor se abaixou e tomou o menino nos braos.
       A sua me est linda, no est, campeo?  perguntou num rouco sussurro enquanto ele se empertigava.
      Aaron balbuciou alguma coisa que soava como a palavra "mame" vrias vezes, e ento se esticou para estalar um beijo molhado na bochecha de Kyla. Ele parecia 
feliz em continuar nos braos de Trevor, o que era bom, porque Kyla no fazia a menor idia de como seguraria seu filho e o buqu de orqudeas ao mesmo tempo.
       Tenho a impresso de que sempre estou lhe agradecendo por flores  disse Kyla a Trevor.
       Gostou?
       Elas so belssimas.  claro que eu amei. Mas voc no devia ser to extravagante.
      Ele balanou a cabea.
       Este  o meu casamento. Voc  minha noiva, Hoje nada  bom demais para ns, minha querida.
      Eles se entreolharam por longos momentos at Aaron comear a se contorcer para escapar dos braos de Trevor. Este se obrigou a sair do transe que lhe fora 
induzido pela apario de Kyla, e segurou o brao de sua noiva. Juntos, eles avanaram mais para a sala onde os outros estavam agrupados em torno do pastor.
       Kyla, Trevor, este  um dia feliz  comeou o pastor.
      Embora eles estivessem no meio da tarde e a luz do sol entrasse pelas janelas lmpidas de Meg, Babs insistira para que eles acendessem velas. Elas bruxuleavam 
como olhos piscando em cada canto e reentrncia na sala, enchendo-a com um forte aroma de baunilha. Algum tinha pensado em colocar um disco de msica romntica 
no aparelho de som. Com certeza Babs havia esgotado o estoque da Petal Pushers porque flores, no apenas brancas mas cobrindo todo o espectro do arco-ris, enchiam 
vasos e cestas espalhados pela sala.
      A missa, por fora da necessidade, foi informal. Durante a recitao dos votos, Aaron espirrou, borrifando os ombros de Trevor. Automaticamente, Kyla pegou 
o leno de sua me para enxugar o casaco de Trevor e assoar o nariz de Aaron. Trevor sorriu amavelmente. Depois que Kyla havia terminado essa tarefa caseira, o pastor 
prosseguiu. Quando ele pediu o anel da noiva, Trevor trocou Aaron de brao e enfiou a mo no bolso direito do casaco. Kyla olhou para a prpria mo enquanto ele 
comeava a passar o aro de diamantes para seu dedo.
      Trevor notou a marca de pele plida em torno da base de seu dedo e, compreendendo o que causara isso, rapidamente levantou o olho para o rosto dela com uma 
expresso de desculpas. Uma expresso que ela no conseguiu decifrar atravessou suas feies, mas sumiu instantaneamente. Ele empurrou o anel brilhante para o lugar 
e segurou sua mo com fora. O momento constrangedor se passou sem que tivesse sido percebido por ningum mais alm deles dois.
      Vrios minutos depois, o pastor disse:
       Trevor, voc pode beijar a noiva.
      Eles olharam um para o outro. Os olhos de Kyla foram repousar no n de sua gravata e pareceram no pretender desviar-se dali. Finalmente subiram tmidos at 
o queixo dele, percorreram a boca sensual por baixo do arbusto espesso do bigode, passaram sobre a perfeio cinzelada do nariz, para encontrar aquele olho verde 
brilhante. Ela engoliu em seco, tmida.
      Trevor angulou a cabea e baixou os lbios para os dela. Os lbios dele estavam entreabertos, midos e quentes enquanto pressionavam sua boca com um beijo 
terno, mas possessivo. Ele recuou, sorriu para ela e ento deu um beijo na bochecha de Aaron.
       Amo vocs dois  disse baixinho no ouvido de Kyla e ela sentiu um impulso repentino de chorar.
      Antes que pudesse, ela foi girada e abraada por seus pais. Babs caminhou em linha reta at Trevor, aproveitando a oportunidade para beij-lo novamente. Ted 
e Lynn juntaram-se na troca de beijos.
      Para registrar o dia, Clif desencavara sua cmera. Kyla sorriu para as lentes, mas no conseguiu deixar de pensar que o lbum de capa de cetim, guardado em 
seu armrio, estava cheio com fotografias de outro casamento.
      Enquanto Kyla enchia seu prato com comida do buf, Trevor se posicionou ao seu lado.
       Se voc no gostar da aliana, posso lhe dar outra.
       Eu no esperava  disse ela, baixando os olhos para a aliana com a qual no estava familiarizada.  Mas gostei muito dela.  E realmente gostara. Era simples 
e elegante.
       Os diamantes so da aliana de casamento de minha me. Papai a mandou para mim na semana passada. Como o anel era ostentoso demais, e no parecia o tipo 
de coisa que voc escolheria, mandei que as pedras fossem transferidas para uma aliana nova.
       Voc tirou os diamantes da aliana da sua me para mim?  perguntou ela, embasbacada.
       Antes de morrer, ela me disse para dar a aliana  mulher com quem eu me casasse.
       Mas Trevor, voc deveria ter guardado a aliana para...  A voz morreu em sua garganta quando ela percebeu que estava prestes a dizer, "Para uma mulher que 
te ame".
       Para quem?  As costas da mo dele formaram uma base para o queixo dela, e ele a fez inclinar a cabea de leve para trs.  Voc  a minha nica esposa, 
Kyla.  Ele se curvou e beijou de leve sua mo.
       Sinto muito por no ter uma aliana para voc.  Ela no podia admitir para ele que isso no lhe tinha ocorrido. A bem da verdade, ela no pensara em alianas 
at Babs, que Deus a abenoe, t-la lembrado de remover a sua minutos antes da cerimnia.  Eu no tinha certeza se voc ia querer usar uma. Alguns homens no gostam.
       Bem, tenho pensado um pouco nisso.  Ele jogou uma azeitona na boca e mastigou-a lenta e exageradamente, como se ponderasse sobre uma deciso tremendamente 
importante.  Acho que gostaria de usar uma coisa diferente. No tradicional.
       Como o qu?
       Como um anel de ouro na orelha.
      Kyla ficou olhando para Trevor de boca aberta at compreender que ele estava brincando. Ento ela caiu na gargalhada.
       Qual  o problema?  perguntou ele, fingindo-se de ofendido pela gargalhada.  No acha que um brinco ia combinar com o meu tapa-olho?
       Sim, acho  disse ela, honestamente.  Brincos esto na moda para homens, e acho que um cairia muito bem voc.
       Ora, ento onde est a graa?
       S estou imaginando o que os trabalhadores dos seus canteiros de obras iriam dizer sobre isso.
       Hum, voc tem razo. Talvez eu deva reconsiderar. Riram juntos e, quando pararam, ele disse:
       At que enfim.
       Como assim?
       At que enfim consegui remover essa expresso tensa de seu rosto e substitu-la por um sorriso genuno, relaxado. Voc riu.
       Eu rio o tempo todo.
       No comigo. Eu quero ver voc rir com freqncia.  Ele se curvou e acrescentou num sussurro:  Exceto quando eu tirar minhas roupas.
      Pensar nisso espantou todo o riso da mente de Kyla.
       Eu prometo no rir  disse ela.
      Ela poderia ter beijado seu pai por interromp-los nesse momento para outra foto. Eles foram fotografados. Eles comeram, eles tomaram numerosos copos do ponche 
de Meg's, eles se despediram dos Haskells com uma promessa de se reunirem em breve.
      Babs saiu para um encontro.
       Pobre sujeito  disse ela a Trevor e Kyla na porta.  Ele no imagina o que o espera esta noite. Essa coisa toda de casamento me deixou num clima bem romntico. 
 Com uma piscadela, ela saiu.
       Me, deixe-me ajud-la a limpar esta baguna.
       No, no, no  disse Meg, expulsando Kyla da cozinha.   melhor voc e Trevor irem andando.
       Mas ainda no fiz todas as malas do Aaron. Achei que poderia trocar de roupa e...  Ela se calou ao perceber que os outros trs a estavam fitando como se 
tivesse perdido a razo. Apenas Trevor pareceu achar aquilo um pouco engraado. Ela j aprendera que quando seu bigode tremia de leve estava anunciando um sorriso. 
 O que foi?
       Bem, ns, a sua me e eu, apenas consideramos que voc deixaria Aaron aqui pelo menos esta noite  disse Clif, constrangido.
      Kyla abriu a boca para falar, apenas para descobrir que no tinha nada a dizer. Ela fechou a boca sem proferir mais nenhuma palavra.
       Obrigado, Clif, Meg  disse Trevor para preencher o silncio constrangedor.  Apreciamos a oferta. Se Aaron no for dar trabalho, ns o deixaremos aqui esta 
noite. Amanh, quando viermos busc-lo, viremos de picape. Kyla ainda tem algumas coisas para levar, no , querida?
       Sim  disse, rouca.  At amanh  noite termino de fazer as malas e tirar tudo daqui.
      Desde o anncio de seu casamento com Trevor, os Powers haviam iniciado o processo de venda da casa. Kyla sabia que quanto mais cedo ela retirasse todos os 
seus pertences, mais cedo a venda seria fechada.
      Contudo, ela no estava pensando nisso agora. Estava pensando sobre a noite por vir, quando no teria Aaron para agir como barreira entre ela e seu noivo. 
Ela arrastou as despedidas o mximo que pde sem deixar sua inteno bvia.
       Meg sabe como fazer uma grande festa  disse Trevor depois que eles estavam sozinhos e a caminho de casa.
       Ela sempre foi uma grande anfitri.
       Gostei muito de tudo que ela fez.
       Ela adorou fazer.
       Gosto do seu vestido.
       Obrigada.
       Seda?  Gosto do som que ele faz quando voc se move. 
       Som? 
       O som farfalhante que me faz pensar no que o seu corpo est fazendo por baixo dele.
       Ela dirigiu os olhos para o horizonte. 
       No sabia que ele fazia um som. 
       Faz. Cada vez que voc se move. Acho tremendamente sexy.  Ele segurou a mo dela e a puxou para si, para ento pous-la no alto de sua coxa.  E excitante.
      O corao de Kyla arremeteu contra suas costelas. Sentiu dificuldade em respirar. Ela tentou se concentrar na sensao provocada pelo tecido das calas compridas 
na palma de sua mo, mas o crebro parecia determinado a se concentrar na excitao dele, cuja extenso ela poderia medir caso movesse a mo uns poucos centmetros.
      Os faris varreram a frente da casa enquanto ele freava o carro.
       Voc precisa da mala esta noite?  Ele carregara uma malinha at o carro para ela.
       Sim, por favor. Tenho maquiagem e... coisas... nela.
       Ah, entendo. Coisas.  O sorriso dele no fizeram nada pelo corao ou pelos pulmes dela, rgos que pareciam ter encerrado operaes pela noite.  Bem, 
no se pode viver sem coisas, no  mesmo?
      Na varanda, ele pousou a mala no cho, destrancou a porta da frente e a abriu. Antes que Kyla pudesse se preparar, ele a tomou nos braos e contra o peito.
       Bem-vinda ao lar, Kyla.
      Ele a carregou para dentro. Assim que havia cruzado a soleira, baixou a cabea e a beijou. E a beijou de novo. E de novo.
      E de novo. At ficar difcil saber onde um beijo parava e outro comeava.
      Ele estava com ambas as mos ocupadas. Kyla poderia ter virado a cabea e posto fim aos os beijos, mas carecia da fora de vontade para faz-lo. A boca de 
Trevor era incrivelmente doce e quente. Ela sentiu uma compulso quase irresistvel de ver o quanto sua lngua poderia ser gil. Ela se movia loucamente dentro da 
boca de Kyla, com uma avidez temperada apenas por ternura.
      Trevor relaxou o brao por baixo dos joelhos de Kyla, mas a manteve ancorada a ele enquanto a deixava deslizar para baixo. Finalmente ela estava de p diante 
dele. E mesmo assim o beijo no fora interrompido.
      Com seus braos agora livres, suas mos exploraram. Elas subiram e desceram pelas costas dela. Ela sentiu a presso das palmas dele em suas ndegas, puxando-a 
contra sua rigidez. Ento Trevor colocou os polegares e indicadores em "V" e enclausurou seus seios entre as lacunas. Os "V" fecharam e abriram rtmica e gentilmente, 
fazendo os polegares de Trevor roarem de leve nos picos dos seios de Kyla.
      Ela arfou por ar. As mos de Trevor caram imediatamente, mas ele no recuou. Dobrou os braos em torno dela protetoramente. Ento pressionou a cabea de Kyla 
contra seu peito.
       Estou prestes a perder a razo  sussurrou ele nos cabelos dela.  Fazer amor de p no vestbulo no foi o que planejei para a nossa noite de npcias.  
Gargalhando, ele ps espao entre eles e olhou o rosto dela.  No sem antes fechar a porta da frente.
      Quando ele se virou para fazer isso, Kyla se moveu para o mais longe possvel que pde sem parecer que ela estava fugindo.
       Est com fome?  perguntou, esperanosa.  Eu posso preparar alguma coisa.
       Depois do banquete que Meg serviu?  perguntou, incrdulo.  Mais uma alcachofra marinada e eu explodiria. Mas tenho um champanhe gelando. Quer se trocar 
primeiro?
      Primeiro. Primeiro. Ele insistia em repetir essa palavra que tinha tantos significados para Kyla. Ela sabia o que era a culminao de todos esses "primeiros".
       Champanhe parece bom.  Ser que ele conseguiu detectar os tremores nos cantos da boca de Kyla quando ela tentava sorrir?
      Enquanto entrava na cozinha, Trevor retirou o palet e desfez o n da gravata. Displicente, largou ambas peas numa das cadeiras da mesa de jantar da cozinha 
enquanto passava por ela. Desabotoou os trs botes superiores da camisa e, depois de soltar suas abotoaduras, enrolou as mangas da blusa at os cotovelos.
      Ele parecia perfeitamente  vontade. Kyla invejava-o por essa tranqilidade. Ela adoraria descalar os sapatos novos, que deixavam seus dedos entorpecidos, 
mas no conseguia sentir-se nem suficientemente confortvel com sua privacidade para fazer isso.
       Ah, bom e frio  disse ele, retirando a garrafa de champanhe da geladeira de tamanho industrial. Kyla notou que suas prateleiras j estavam estocadas com 
comida, inclusive as coisas favoritas de Aaron. Trevor jamais esquecia nada?  Pode pegar as taas, meu bem? Esto naquele armrio ali  disse ele, apontando com 
a cabea para um.  Guardei tudo, mas fique  vontade para reorganizar se alguma coisa no estiver conveniente para voc.
       Tenho certeza de que tudo est timo  disse ela, indiferente.
      Ela achou as taas de champanhe e levou duas para ele. Ela deu um pulo quando a rolha saltou da garrafa. Rindo, ele serviu o vinho espumante na taa. Um pouco 
dele se derramou nas mos de Kyla. Ela comeou a rir, tambm. O vinho frio e efervescente pinicava sua pele enquanto as bolhas minsculas estouravam uma a uma.
      Tendo pousado os copos no balco da cozinha, ela estava balanando as mos para enxug-las, quando Trevor capturou uma delas e a levou at a boca.
       Permita-me.
      Ela o observou. Observou seu dedo desaparecer entre o bigode e o lbio inferior de Trevor, mas realmente no acreditou que aquilo estivesse acontecendo at 
ela sentir a lngua dele lavar a parte carnuda de seu dedo.
      Aturdida, Kyla sentia-se incapaz de fazer qualquer coisa alm de assisti-lo terminar com aquele dedo e sugar o seguinte para o calor sedoso de sua boca. Ele 
deslizou sua lngua entre os dois dedos seguintes, colhendo todos resduos do vinho derramado. A lngua de Trevor se enroscou na bela aliana de casamento que ele 
pusera em seu dedo.
      Sensaes deliciosas trespassavam Kyla. As carcias geis jamais se aventuraram alm das pontas dos dedos dela, mas pareciam toc-la em toda parte, em regies 
proibidas. Elas ecoavam por seu corpo reaes que Kyla julgava terem sido sepultadas no Kansas, com aquele caixo coberto pela bandeira.
      Aquela sensao de derretimento no meio de seu corpo. Aquela dormncia nos seios que faziam-na querer a lngua de Trevor ali, fazendo por ela o que ele estava 
fazendo pelas pontas de seus dedos. Aquele aceleramento em sua respirao. As batidas de seu corao.
      Finalmente ele virou a mo de Kyla e beijou sua palma, roando nela os fios do bigode. Kyla teve o impulso de enfiar a mo sob o brao como uma pessoa que 
sente ter espetado um dedo com um alfinete. Ou ela estava tentando esconder a mo por vergonha dela ter sido a responsvel por reaes to erticas?
       Aqui est o seu champanhe.  Trevor deu-lhe uma taa.  A ns.  Ele fez as taas se tocarem e cada um deles tomou um gole. Ento ele baixou a cabea e a 
beijou com suavidade.
       Sabe de uma coisa?  perguntou ele enquanto seus lbios ainda repousavam contra os dela.
       O qu?  Que colnia ele usava?, perguntava-se distrada. Era to inebriante quanto o champanhe.
       O seu gosto  melhor do que o do champanhe.  A lngua de Trevor correu pelo lbio inferior dela.  Na verdade, o seu gosto  melhor do que qualquer outra 
coisa. Eu podia me tornar um gluto de voc. Eu podia sorv-la at ficar bbado. E ainda no ficaria satisfeito. Eu sempre iria querer... mais... uma... provadinha. 
 Entre as palavras, ele dava-lhe beijinhos. Depois da ltima palavra, sua boca enviou a lngua para as profundezas da boca de Kyla.
      Tendo esquecido do champanhe derramado, ele removeu a taa da mo de Kyla. Sem muita preciso, pousou sua taa e a de Kyla no balco, sem jamais t-la liberado 
de seu beijo.
      Devagar, ele levantou os braos dela at seus ombros. Involuntariamente elas dobraram nos cotovelos e envolveram o pescoo dele. As mos de Trevor se encontraram 
na sua nuca. O beijo se aprofundou. Ele se moveu para a frente at t-la espremida como um recheio de sanduche entre ela e o balco. Ele embalou seus quadris de 
lado a lado, massageando a suavidade do corpo de Kyla.
       Oh, meu Deus  suspirou Kyla quando Trevor deixou sua boca plantar um daqueles beijos traioeiros em sua garganta vulnervel. Ela deixou a cabea cair para 
trs. Seus olhos se abriram e ela viu o teto desfocado enquanto a boca aberta de Trevor tocava sua pele.
      Por que Deus estava fazendo isto com ela? Por que ele havia mandado tanta tentao para sua vida? O casamento em si fora uma traio a Richard. Ela no amava 
este homem, mas mesmo assim o queria de uma forma puramente carnal. Era errado! Como podia suportar tamanha inundao de provocao sexual e no se submeter a ela?
       Voc gostaria de um pouco de privacidade no quarto antes de eu me juntar a voc?  perguntou ele.
      Estupidamente, ela fez que sim com a cabea e ele a soltou. Como uma sonmbula, ela se virou e cambaleou em direo ao outro lado da casa, e o quarto do casal. 
Trevor, tendo-a seguido, pousou a mala dela dentro do quarto, ao lado da porta.
       Volto daqui a pouquinho.  A porta fechou suave atrs dele.
      Ela carregou a mala para o banheiro e a abriu. Como se programada para fazer isso, ela automaticamente retirou seus cosmticos e produtos de higiene pessoal 
e os disps na penteadeira. Quando casualmente viu sua imagem no espelho que cobria a parede, ela congelou.
      Seus olhos! O que acontecera com seus olhos? Eles estavam ardentes, tremeluzentes, nebulosos. Eles no ficavam assim desde a noite em que Kyla descobrira estar 
apaixonada por Richard Stroud.
      Apaixonada! Meu Deus, sim. Era assim que ela parecia: uma mulher apaixonada.
      O pensamento extinguiu prontamente a luz em seus olhos. A luz fora extinta to depressa que Kyla quase conseguiu se convencer de que ela no estivera ali, 
que fora uma iluso, um produto de sua imaginao.
      Apaixonada por Trevor Rule? Impossvel. Ela no o conhecia o bastante. Ela amava Richard. Apenas e exclusivamente a ele. No havia espao em seu corao para 
nenhum outro homem.
      Mesmo se ela permitisse a Trevor o uso de seu corpo naquela noite, ela no estaria traindo Richard. Era, afinal de contas, apenas um corpo, fsico e transitrio. 
Seu corpo no tinha nenhuma relao com a personalidade que ele continha, o corao, a alma, e a mente de Kyla Stroud.
      Kyla Rule, um demnio malicioso a lembrou.
      Kyla Stroud, insistiu ela.
      Ela dormiria com Trevor porque fizera um negcio e pretendia honrar sua parte nele. Ela iria conceder a Trevor privilgios de alcova em troca da paternidade 
que ele estenderia a Aaron. Ele teria acesso ao corpo de Kyla, mas nunca, nunca, ao seu corao. Ela prometera seu corao e seu amor a Richard. Trevor Rule jamais 
receberia permisso para violar esse pacto.
      Ela e Babs tinham trazido as roupas dela na noite anterior. O guarda-roupa inteiro de Kyla, todas estaes includas, encheram apenas uma frao do espao 
do armrio que Trevor embutira no quarto principal. Depois de um banho rpido, ela vestiu a camisola que comprara obrigada e escovou os dentes e penteou os cabelos. 
Quase sem perceber, aplicou perfume atrs das orelhas e na base do pescoo.
      No quarto, ela desfez a cama. Ela deixou apenas um abajur aceso. Quando a batida suave soou na porta, ela girou nos calcanhares, apertando uma mo na outra.
       Entre, Trevor.
      Ele passou pela porta. Quando a luz suave do abajur caiu nele, Kyla momentaneamente lamentou no am-lo. As calas pretas do pijama pendiam baixas em seus 
quadris, sustentadas ali por um cordo preto. Seu peito estava ainda mais impressionante, sombreado apenas por aquela nuvem de pelos escuros que formava uma ponta 
de flecha apontando para baixo do umbigo. Ela no queria nem pensar para que alvo seguia aquela faixa de pelos. A cicatriz que arqueava por baixo da mama esquerda 
de Trevor intrigou-a como antes. Queria toc-la, como se para mitigar uma dor que ela causasse. Ele estava descalo. Havia uma rede de cicatrizes em seu p esquerdo.
      Foi s depois de ter catalogado o corpo de Trevor que ela levantou os olhos para o rosto dele. Trevor estava fitando-a, uma insinuao de sorriso erguendo 
um canto de seu bigode.
       Voc  linda, Kyla.  Ele avanou pela sala at ficar parado a um brao de distncia dela.
      Ela no podia entender o quanto era atraente para ele naquele momento. Esta era a mulher das cartas, a mulher que falara ao corao dele mesmo antes que ele 
a tivesse conhecido. Agora ela estava de p diante dele, nua, salvo alguns pedaos de seda cor de pssego. A fantasia mais ertica de Trevor estava a distncia de 
um toque. Ela estava respirando, estremecendo os pelos em seu peito a cada exalao leve.
      O brilho dourado do abajur ressaltava a cor espetacular de Kyla. Fazia os cabelos brilharem como cobre e a pele assumir a magnificncia do cetim antigo. Trevor 
queria embrulhar a si mesmo nela. Os olhos de Kyla eram negros, grandes, reluzentes.
      A camisola era inteiria e acortinava o corpo de Kyla como um vu. Um lao estava amarrado abaixo de seus seios, deixando sua plenitude mais pronunciada. Seus 
mamilos eram tentaes escuras por baixo do tecido fino. Acima do corpete curto, os pequenos montes dos seios insinuavam-se cremosos e cheios.
      Seu corpo estava envolto em sombra contra o abajur. A medida que os olhos de Trevor desciam por ele, sua virilidade crescia com desejo por ela. A cintura de 
Kyla era incrivelmente fina, especialmente para algum que tivera um filho. Ele estava transfixado pela fissura sombria entre suas coxas finas, o corao de tudo 
que fazia dela mulher. Ele queria honr-la, ador-la com carcias e com sua boca.
      Incapaz de se conter, ele estendeu a mo e a ps em concha sobre aquele delta macio. Movendo o material da camisola de modo a fazer com que apenas uma camada 
de tecido ficasse entre ela e a mo dele, Trevor pressionou.
       Voc  to quente  sussurrou, feroz.  Estou parado aqui com voc, mas tenho a sensao de me mover.  A mo dele subiu pela barriga e pelos seios de Kyla. 
 Quero tanto voc que chega a ser doloroso.
      Moveu o dedo sobre o mamilo de Kyla e, quando ele respondeu belissimamente, Trevor gemeu e puxou-a para si. Sua boca cobriu a dela. Trevor beijou Kyla com 
todo o calor que ardia dentro de si. Ele acariciou os seios enquanto seu outro brao se fechava em torno da cintura de Kyla.
      Kyla tentou manter-se indiferente. Ela queria sair de si mesma e observar o abrao de um ponto de vista externo. Mas era difcil permanecer passiva quando 
o calor de Trevor a invadia, quando seu corpo latejava onde ele a tocava. A paixo de Trevor causava em Kyla uma lassido que ameaa sua resoluo de no participar 
com sua mente.
      Atravs da camisola inteiria, ela sentia a textura encaracolada dos cabelos do peito, a ereo dos mamilos de Trevor. As coxas de Trevor eram rijas e foravam 
as suas. A virilidade de Trevor aninhava-se na alcova oferecida pelo corpo de Kyla. Ele estava rijo e ela o queria.
      O corpo e a mente de Kyla travavam uma guerra. Ela lutava para manter suas emoes intactas. Mas o corpo de Kyla era to implacvel quanto seu corao era 
resoluto.
      De sbito, Trevor retirou sua boca. O movimento foi to abrupto que a cabea de Kyla foi jogada para trs e ela caiu vtima de um olho verde e frio.
      Ele agarrou os antebraos de Kyla e a empurrou para longe de si, segurando-a no limite de braos rijos e fortes. 
       No. obrigado, Kyla.
      Ela olhou temerosa para ele. Ele estava furioso e isso transparecia. As sobrancelhas escuras estavam franzidas. Suas narinas se alargavam levemente a cada 
respirao.
       No, obrigado?  repetiu ela numa voz fina.  Eu no entendo,
       Deixe-me explicar, ento.  Falava num tom seco que ela sabia estar sendo contido para no subir para um grito.  No quero uma ovelha de sacrifcio debaixo 
de mim, submetida ao meu desejo, fingindo fazer amor
      Ela baixou rapidamente os olhos, o que deve ter servido como admisso de culpa.
       Voc  meu marido. Voc pode exigir... Ele soltou uma gargalhada rude.
       Sc ao menos voc soubesse o quanto foi engraado o que disse. Exigir no faz meu estilo, Kyla. Eu certamente no pretendo exercer tticas de homem das cavernas 
com minha esposa!
      Ele soltou-a to abruptamente que ela se chocou contra a mesinha de cabeceira.
       Voc pode relaxar  disse ele, escarninho.  Est a salvo. No vou impor minha luxria a voc esta noite. Nem esta noite nem nunca.
      Ela arregalou os olhos.
       Isso mesmo, Kyla  disse ele em voz baixa.  Ainda a amo, mas isso no  condicionado a se voc vai ou no para a cama comigo. Mas esteja avisada  disse 
ele, apontando um dedo para ela.  Eu a amo tanto que ser impossvel voc no me amar de volta.
      Numa batida de corao, ele estava perto dela, mo esquerda apoiando as costas da cabea de Kyla. Com o brao direito, puxou-a e apertou-a contra si, de modo 
a no deixar qualquer dvida de sua disposio de tom-la, caso assim desejasse. Ele puxou a cabea dela para trs at for-la a olhar para seu rosto furioso.
       Eu lhe prometo uma coisa: ningum ser capaz de am-la to bem quanto eu. Vou me enterrar to dentro de voc que quando eu no estiver a, voc ter a sensao 
de que uma parte vital de seu corpo est faltando.  Ele baixou a cabea e deu uma mordidinha num seio de Kyla.  Quando voc tiver exorcizado esses fantasmas que 
te assombram, venha at mim e estarei mais do que satisfeito e lhe demonstrar o que estou falando.
      Soltando-a, ele girou nos calcanhares e caminhou at a porta.
       Durma bem  disse por sobre o ombro, um segundo depois da porta bater s suas costas.
      
      
      
     Captulo Dez
      
      
      
       Bom dia.
      No foi o tom de voz que ela esperava, nem aquele que, secretamente admitia, ela provavelmente merecia.
      Grosseiro, rabugento, sarcstico, cruel. Kyla teria esperado dele qualquer um desses estados de esprito, mas jamais afvel e de bom humor.
       Bom dia.
      Ela contornou a mesa  qual ele estava sentado lendo o jornal e caminhou em linha reta at a cafeteira no balco. Havia uma caneca esperando por ela. Kyla 
serviu do bule um caf cheiroso e quente.
       Espero que no tenha feito forte demais para voc. Ela bebericou.
       Est bom. Gosto de caf forte.
      Kyla no percebeu que ele chegara por trs dela at sentir a respirao dele soprar seus cabelos. Ela se virou rpido para encar-lo. Os braos de Trevor envolveram 
sua cintura e a puxaram para si. Abaixando a cabea, ele beijou a boca surpresa de Kyla. No foi um beijo apaixonado, foi um beijo temo, mas quase igualmente perturbador.
       Como foi sua noite?  perguntou, solcito.
      A noite de Kyla fora horrvel. Depois que Trevor sara batendo a porta da sute cinematogrfica que criara para sua esposa, Kyla desabara na cama e chorara 
por horas. Ela sentiu falta de coisas que lhe eram familiares: seu prprio quarto, Aaron, a presena confortadora de seus pais. Ela queria recuar no tempo. Ela desejava 
Richard.
      E ela desejava Trevor.
      Esse desejo em particular provocara mais uma onda de choro.
      Ela finalmente adormecera antes do alvorecer, e acordara com dor de cabea e olhos inchados. Quando saiu do quarto, embrulhada num robe velho que conseguira 
fazer passar pelo olho de guia de Babs, Kyla no soubera o que esperar de seu marido de menos de 24 horas, um marido a quem ela negara uma noite de npcias, se 
no por inteno, por atitude. Ele estaria, no mnimo, furioso.
      No estava preparada para o abrao carinhoso que a envolvia agora. Nem pelos beijos suaves que ele estava usando para tracejar a linha de seu cabelo. E muito 
menos a massagem gentil e relaxante que as mos dele estavam aplicando em suas costas, afugentando a tenso.
      Kyla sentiu a ansiedade vazar lentamente dela. Repousou a face nos msculos do peito dele, delineados pela camiseta branca apertada que estava usando sobre 
bermudas cortadas de calas velhas.
       Sabe cozinhar?
       Qu?  murmurou sonolenta.
       Perguntei se voc sabe cozinhar.
      Ela levantou a cabea e deu um passo para trs.
       Claro que sei cozinhar  disse com alguma aspereza. O bigode se curvou sobre seu sorriso.
       Ento que tal um caf da manh?
       O que voc quer?
       O que sabe fazer?
       Qualquer coisa  gabou-se com um balanar dos cabelos louro-avermelhados.  Se ficar longe e no me atrapalhar, vou provar que grande cozinheira eu sou.
      Ele curvou o tronco numa mesura e fez um gesto largo com a mo.
       A cozinha  toda sua, minha dama. Se no se importa, voltarei para o meu jornal.
      Minutos depois, ela pousou um copo de suco de laranja com gelo na frente dele. Ele marcou com uma dobra a ponta de seu jornal.
       Obrigado.
       No tem de qu  disse com um sorriso.
       Cheira bem.
       Est quase pronto.
      Ele dobrou os jornais espalhados e os empurrou para o lado para que ela pudesse pr a mesa. Aparentemente ela encontrara tudo onde ele havia guardado. Pousou 
na mesa um jogo americano, e disps a loua e os talheres casualmente. Ele observou as mos de Kyla enquanto ela dobrava com percia guardanapos de linho e dispunha-os 
em anis nos centros dos pratos. Antes que ela pudesse virar-se, ele pegou sua mo e a puxou at a boca. Beijou as costas da mo de Kyla.
        muito fcil ficar mimado. Acho que j estou me acostumando em ter uma esposa que cuida to bem de mim  disse baixinho.
      A forma como olhou para ela de sua cadeira fez Kyla sentir uma onda de calor espalhar-se pelo meio de seu corpo. Ela sentiu um rubor emergir da gola nada elegante 
de seu robe.
      Ela puxou a mo e disse:
       Deixe-me ir... no quero que queime.
      Ele liberou a mo dela e Kyla correu de volta para o fogo. Momentos depois, ela estava pousando uma bandeja de comida cheirosa na mesa. Ela ficou de p ao 
lado da mesa, aguardando ansiosa sua reao.
       Ovos Benedict!  exclamou, deliciado. A comida fora arrumada de forma apetitosa no prato, e guarnecida com fatias de laranja fresca e ramos de salsa.
       Gosta deles assim? Eu no sabia.
       Eu simplesmente como tudo que no se mova para fora do prato. E repolho. Jamais me sirva repolho.
      Ela riu.
       Aposto que era a nica coisa que no tinha na geladeira. 
      Durante esta conversa ela levou o bule at a mesa e tornou a encher sua caneca. Enquanto ela pousava o bule numa trip, Trevor se levantou da cadeira e puxou 
a dela para que ela sentasse. Ela olhou para ele surpresa, e quando o fez, ele lhe deu uma beijoca no nariz.
       No tem de qu.
      Ela afundou na cadeira. Suas mos tremiam levemente, mas ela encheu o prato dele, e em seguida o seu prprio.
       Delicioso!  decretou ele depois de dar uma mordida enorme.  Onde aprendeu a cozinhar assim?
       Minha me me ensinou o bsico. E fiz um curso de culinria enquanto...  Ela se calou abruptamente. Trevor olhou para ela, uma pergunta em sua expresso.
       Enquanto ...?  insistiu.
       Enquanto meu ma... enquanto Richard estava no exterior. Ela nunca mencionara o curso de culinria nas cartas. Por qu?, perguntou-se Trevor.
       O que Richard achou das suas aulas de culinria?  Teria ele perdido algumas cartas? Ele estava se sentindo sbita e irracionalmente enciumado por ela talvez 
ter escrito alguma coisa a seu marido que ele, Trevor, no tivera acesso. O que mais ele perdera?
       No contei a ele.
      A mo com que Trevor segurava o garfo relaxou um pouco.
       Por qu?
      Ela tomou um gole de suco e enxugou a boca com o guardanapo antes de responder.
       Queria surpreender Richard com todos os tipos de receitas exticas quando ele voltasse para casa  disse ela, cortando uma fatia de bacon.  Babs e eu fizemos 
o curso juntas. Foi muito divertido. Babs era a pior aluna da classe. Ela arruinava tudo que tentava cozinhar, mas no foi uma perda total de tempo porque ela acabou 
namorando o mestre-cuca.
      Agora Kyla estava tagarelando porque estava nervosa. Trevor podia perceber isso porque ela no estava olhando diretamente para ele, mas para um ponto logo 
acima de seu ombro. Ela no estava nem perto do momento em que poderia mencionar o nome de Richard sem se sentir estranha com isso.
       Aposto que voc era a melhor aluna, porque isto est maravilhoso.  Ela levantou a cabea e o brindou com um sorriso tmido que derreteu o corao dele e 
compensou a noite infernal que ele passara sozinho no quarto de hspedes. Bem, quase.  Eu sempre ridicularizei os ex-atletas que se casam e engordam. Agora posso 
ver como isso acontece.  Ele piscou para ela.
       Voc foi atleta?
       Nos tempos de escola.
       Qual esporte?
       Hum, deixe-me ver.  Ele bebericou seu caf.  Corrida. Basquete. Regata.
       Regata?
       No acredito que vocs tenham isto aqui no Texas.
       Deve ter sido isso que desenvolveu seus ombros e coxas.
      Quando o olhar de Kyla desceu para as pernas longas de Trevor, ela notou as cicatrizes. L estavam elas, costuras feias e rosadas em sua carne, correndo por 
toda a extenso da perna esquerda, entrecruzando-se e emaranhando-se como trilhos de ferrovia.
      Trevor baixou o garfo para seu prato e se ps a observ-la. Colocando os cotovelos na mesa, ele entrelaou os dedos na frente da boca e esperou pela repulsa 
para a qual ele se preparara para ver em sua expresso. Nunca chegou. Quando ela levantou os olhos para o rosto dele, ele viu apenas compaixo em seu rosto.
       Eu lhe disse que no era bonito  disse ele num tom amargurado.
       No  to ruim assim, Trevor.
       Tambm no  to bom. Ela olhou novamente para a perna.
       Deve ter sido terrivelmente doloroso.
       Foi.
       Voc nunca me disse o que aconteceu com voc. A pergunta pareceu lhe causar desconforto, e ela atribuiu isso  vergonha.
       No importa.
       Uma vez voc me disse que sentia vergonha de usar bermudas. No deveria.
      Um sorriso amargo levantou seu bigode.
       Voc no acha que as mulheres iam tampar os olhos, aterrorizadas?
       De jeito nenhum. Voc  atraente demais.
      Ele instantaneamente se animou. Inclinando-se para a frente, ele a lancetou com seu olho verde.
       Voc acha?
       Acho.
      Vrios instantes se passaram enquanto Kyla era mantida transfixada pela intensidade rouca de sua voz e pelo poder hipntico de seu olhar.
      Forando-se a despertar do transe, ela se levantou apressada, batendo a coxa na mesa com fora demais para estremecer os talheres.
       Depois que voc terminar, vou lavar os pratos.
      Kyla deu as costas para ele, mas foi detida quando Trevor afundou os dedos no cinto do robe. Puxando gentilmente, ele a fez virar-se; ento puxou-a entre suas 
pernas bem abertas, fazendo com que o meio do corpo de Kyla batesse contra seu peito. E o rosto dele estava nivelado aos seios de Kyla.
       Obrigado pelo caf.  As palavras, proferidas numa voz baixa e grave, quase foram abafadas completamente pelo tecido dobrado sobre os seios de Kyla.
       Era o mnimo que eu podia fazer.
      Ela baixou os olhos para o topo da cabea dele, onde seus cabelos escuros e ondulados espiralavam a partir da coroa. No foi fcil, mas ela resistiu ao impulso 
de correr os dedos pelos fios negros para ver se eram to macios quanto pareciam.
      Os olhos de Kyla batalharam para permanecer abertos quando ele esfregou sua face rija contra os seios, mas eles perderam a luta e se fecharam. Ela sentiu a 
vibrao do gemido emitido do peito dele quando seu nariz a cheirou.
       Voc tomou banho esta manh.  No foi uma pergunta.
       Sim.
       Voc cheira bem. A sabo. E talco. E mulher.
      Ele mordiscou o robe at finalmente alcanar o pico do seio por baixo do tecido. Ele no chegou realmente a beij-lo. O que ele fez foi esfregar sua boca aberta 
para a frente e para trs sobre ela at senti-la reagir, e ento tocou-a com a lngua.
       O caf estava delicioso  suspirou ela. Sua pele ficou mida onde a respirao de Trevor infiltrara-se pelo tecido do robe.  Tem alguma sobremesa?  Ele 
pressionou o rosto mais fundo em sua pele. Mas recuou quase imediatamente e olhou para ela.  Hum?
      Quando Trevor viu sua expresso trmula, soltou uma risadinha e se levantou, empurrando-a com gentileza.
       Esquea. Vamos nos vestir e ir pegar aquele garoto antes que os seus pais o mimem demais.  Ele olhou as horas no relgio do microondas.  Quando chegarmos 
l, eles j devero ter voltado da igreja. Eu gostaria de levar todos para almoar fora. Aos domingos o Petroleum Club oferece um bufe sensacional.
       No somos scios  Kyla encontrou voz suficiente para dizer. Ela ainda estava excitada por ter tido a boca de Trevor em seus seios.
       Mas eu sou.  Ele beliscou seu nariz.  Vou cuidar dos pratos, v se arrumar. Estou louco para exibir voc.  Ele deu um beijo rpido no rosto e um tapinha 
carinhoso nas ndegas de Kyla.
      
      Vinte minutos depois, Kyla saiu da sute principal, tendo aplicado sua maquiagem e arrumado os cabelos. Foi nesse momento que Kyla fez a descoberta surpreendente 
de que ela e Trevor podiam no estar compartilhando uma cama, mas sim dividindo um quarto.
      Ela o flagrou no ato de vestir um par de calas compridas. O lampejo de cuecas azuis claras se registrou em seu crebro antes que ela pudesse girar nos calcanhares 
e dizer, "Desculpe-me." Quase conseguira chegar  porta do banheiro quando sua fuga foi interrompida pela voz de Trevor:
       Kyla.
       O qu?
       Vire-se.
       Por qu?
       Porque quero falar com voc.
      Ela se virou bem devagar, tentando manter os olhos apontados para um ponto acima de sua cabea. Com toda a naturalidade do mundo, ele fechou o zper das calas 
e, ainda sem camisa e descalo, atravessou o quarto at ela.
       Tomei banho no banheiro de hspedes para no perturbar voc, mas minhas roupas esto todas guardadas nas gavetas e no armrio deste quarto. Vai ser muito 
inconveniente tir-las daqui.
      Ela lambeu rapidamente os lbios,
       Tudo bem. Vamos precisar apenas, bem, tentar no ficar no caminho um do outro.
       No vou tentar isso!  exclamou rindo, mas quando viu a expresso tristonha de Kyla, concluiu:  Certo, vamos planejar da seguinte forma. Voc pode ficar 
no meu caminho a qualquer momento que quiser, e eu vou tentar ficar fora do seu. Combinado?
      Era complicado demais pensar nisso, especialmente olhando para o peito nu dele, como ela estava fazendo. Assim, ela se limitou a repetir:
       Combinado.
       Bom.  Ele deu-lhe as costas, uma extenso lisa de pele fortemente bronzeada e bem esticada sobre msculos salientes e firmes, e voltou para seu armrio, 
do qual retirou uma camisa e a vestiu com a tranqilidade de uma pessoa que se encontra a ss.
      Kyla forou os ps a se moverem at seu prprio armrio. Ela ficou parada ali, imvel, reunindo coragem para despir o robe.
      Voc est se comportando como uma criana, disse zangada a si mesma. A camisola que usara diante dele na noite passada era mil vezes mais reveladora do que 
o suti e a calcinha grande que estava usando por baixo do robe. Rapidamente, antes que mudasse de idia, ela despiu o robe.
       Estive pensando.
      Ao som da voz de Trevor, ela deu um pulo como se tivesse sido acertada por um tiro nas costas agora expostas para ele.
       A respeito de qu?
      Ela comandou suas mos trmulas a pendurarem o robe num cabide e recoloc-lo na barra de metal do armrio. Isso exigiu uma concentrao imensa, porque ela 
sabia que ele provavelmente estava olhando para suas costas e para as alas de cetim cor de marfim de seu suti.
       A respeito de Aaron.
      Ela arriscou um olhar para ele sobre o ombro. Ele no estava olhando para ela. Estava amarrando a gravata, usando o espelho que pendurara sobre a penteadeira 
embutida em seu armrio. Sua camisa fora abotoada, mas ele ainda no a enfiara para dentro das calas. O colarinho duro fora levantado e estava encostado em seu 
queixo quadrado.
       O que tem ele?  Ela pegou o vestido que escolhera usar.
       Talvez devssemos encontrar uma creche adequada para ele.
       Acha que ele j tem idade suficiente?
       Voc  mais experiente nisso do que eu. Estava apenas pensando no que iremos fazer com ele durante o dia se Meg e Clif comprarem o tal trailer e partirem 
para regies desconhecidas.
      Kyla tambm estava preocupada com isso.
       Acho que ele deveria ficar com crianas da idade dele  reconheceu Kyla.  Isso  educativo.
       Sem dvida. Como mais ele vai aprender palavres? Ela riu com ele.
       Mas vou querer investigar a reputao da escola.
       Certamente. E voc deve ser inclemente. Precisamos conhecer primeiro as instalaes e corpo docente. Precisa de ajuda?
      Antes que ela pudesse formular uma resposta, as mos dele estavam empurrando as dela. Ela estivera com as mos esticadas para trs, tentando abotoar as casas 
inferiores de seu vestido. Como um homem daquele tamanho conseguia mover-se to silenciosamente? Ela ficou absolutamente reta enquanto os dedos dele mexiam nos botes. 
Depois de fechar a casa superior, as mos de Trevor desceram pelas costas de Kyla e assentaram em seus quadris.
       Ningum diria que voc teve um beb. A gravidez foi difcil?
       Nem um pouco.
       Voc  to magra  disse ele baixinho, apertando suavemente os quadris de Kyla antes de afastar as mos.  Pode me ajudar um pouco aqui?
      Ela se virou para ele. Poucos centmetros os separavam.
       Ajudar voc? Como?
       Veja se minha gola est voltada para baixo corretamente na parte de trs. As vezes eu no a dobro direito e minha gravata fica saindo por baixo.
      Ela inspecionou rapidamente.
       No est dobrada por completo at o fundo.
       Pode arrumar para mim, por favor? Est difcil de alcanar.
       Claro. Sua voz emanava muito mais tranqilidade do que ela estava sentindo. Na verdade ela estava se perguntando como, aproximando-se tanto dele, conseguiria 
manter as mos afastadas daqueles cabelos negros que se enroscavam convidativos sobre a gola.
      Ela mal havia levantado os braos e estava ocupando as mos tem ajustar a gola de Trevor sobre sua gravata quando ele levantou as fraldas da camisa e baixou 
o zper das calas. As mos de Kyla congelaram. Seus olhos subiram para o dele. Trevor manteve uma expresso calma enquanto enfiava a camisa para dentro das calas. 
Ocasionalmente, muito ocasionalmente, os ns dos dedos dele batiam contra o meio do corpo de Kyla.
       Alguma coisa errada?  perguntou ele.
       No, nada  arfou ela e rapidamente dobrou a gola para baixo. Ela a alisou com firmeza no exato instante em que o rudo Ido zper das calas sendo fechado 
chegou aos seus ouvidos. Os braos de Kyla deslizaram dos ombros dele. Ele acabou de fechar as calas.
      E ento eles se entreolharam enquanto o tempo mantinha-se parado.
       Obrigado  disse ele depois de um longo tempo,
       Obrigada a voc tambm.  As sobrancelhas de Trevor mexeram-se em sinal de humor. Ela acrescentou rpido:  Por fechar meus botes.
       Oh. Sempre que precisar.
      Eles se perderam em mais uma troca de olhares. Kyla foi a primeira a se afastar, e fez isso virando-se de costas para encontrar seus sapatos no armrio.
      Foi apenas quando estava enfrentando as dificuldades habituais de arrumar Aaron, que Kyla recuperou seu equilbrio. Mas mesmo isso no apagou uma imagem na 
mente de Kyla. Uma imagem de cuecas azuis claras esticadas sobre ndegas rgidas e bem torneadas.
      Os Powers ficaram impressionados com o nmero de pessoas que cumprimentaram seu cunhado enquanto almoavam no seleto Petroleum Club. At Aaron parecia embasbacado 
com o lugar. Seu comportamento durante a refeio foi irreprimvel.
      Depois do almoo Trevor levou os Powers para a casa que ele construra para Kyla e Aaron. Depois de uma turn que deixou-os sem fala, Trevor acompanhou-os 
de volta para sua casa na picape. O restante da tarde foi dedicado a empacotar e carregar os pertences de Kyla que no haviam sido levados.
       Nosso monstrinho est cansado hoje  disse Trevor a respeito de Aaron enquanto o punham no bero. Ele deu um tapinha no bumbum do garoto. As plpebras de 
Aaron j estavam a meio mastro. Seus bichinhos de pelcia estavam alinhados em torno do bero como sentinelas.
       O que provavelmente  muito bem  comentou Kyla, puxando um lenol sobre o filho.  A primeira noite num lugar novo pode ser traumtica para o beb se ele 
no conseguir dormir.
       Acha que ele gostou do quarto?
      Ela ouviu o tom de ansiedade na voz de Trevor e levantou os olhos para perceber que ele estava genuinamente preocupado.
       Que menininho no gostaria?
      Ela olhou para o quarto  sua volta, que fora decorado com um tema de estrada de ferro. O Trenzinho Que Sabia Que Podia estava subindo a colina pintada na 
parede. Um ba em forma de locomotiva a vapor, entupido at a borda, ocupava uma boa parte de outra parede. Uma ferrovia em miniatura corria ao longo das paredes 
15 centmetros abaixo do teto. A um toque num interruptor, um pequeno trem de carga circulava o quarto a um ritmo lento, periodicamente emitindo baforadas de fumaa 
branca e soando seu apito. Aaron batera palmas de alegria, e s ficara frustrado ao perceber que no conseguiria alcanar o trenzinho.
      Ela voltou a olhar para Trevor.
       O que quis dizer foi que s vezes uma criana fica nervosa ao dormir num lugar estranho. Mas parece que Aaron no se incomodou nem um pouco com isso.
      Aaron j estava dormindo profundamente. Kyla cobriu um bocejo enorme com a mo enquanto eles saam do quarto.
       Voc tambm est exausta.  Trevor pousou o brao sobre os ombros de Kyla. Numa questo de segundos, estavam massageando os ns dos msculos dos seus ombros. 
Os polegares do menino magicamente pressionaram a tenso na base de seu pescoo. Aproximando-se mais e encostando a face na dela, ele convidou:
       Quer passar uns minutinhos na banheira? Um banho quente no seria maravilhoso?
      Seria celestial. Ela no conseguia pensar em nada melhor do que estar imersa em gua quente e borbulhante.
       Eu te encontro l fora.
      Ou em qualquer coisa mais perigosa do que compartilhar de uma experincia to sensual com Trevor
      Ela se desvencilhou das mos mgicas de Trevor.
       Trevor, se voc no se importa, prefiro ir direto para a cama. Este fim de semana foi catico. Estou exausta.
       Tudo bem.
      Estava claro que ele estava tentando no deixar sua decepo transparecer. Este homem tomara-a como sua esposa sabendo que ela ainda estava apaixonada por 
outro homem. Ela no estava sendo uma pssima desportista? Ento ela acrescentou:
       A no ser que voc queira muito. Ele balanou a cabea, impaciente.
       No. Eu sei que voc est cansada. Boa noite.
      Ele envolveu o pescoo de Kyla com as mos e, com ambos os polegares debaixo do queixo, inclinou sua cabea para trs. Plantou os lbios firmemente sobre os 
dela, separou-os, aguardou que Kyla o acomodasse e, quando ela o fez, introduziu a lngua em sua boca como uma espada de veludo.
      Foi um beijo flamejante que transmitiu toda a paixo que ardia dentro dele. A tcnica incrvel de Trevor acendeu o desejo de Kyla, at ela jurar que pequenas 
lnguas de fogo estavam lambendo seu corpo.
      Quando ele finalmente a havia libertado, Kyla praticamente desabou contra ele, to exaurida fora pelo beijo.
       Boa noite  disse ela, rouca. E ento se retirou para o quarto no que esperava no ser um caminhar trpego.
      
      As luzes estavam apagadas enquanto Trevor, sentado no balano com os calcanhares apoiados no deque, embalava-se levemente.
      Um palavro grosseiro resumiu seu estado de esprito no momento. Ele jogou no cho o resto do usque que estivera bebendo. No precisava de lcool. Ele no 
precisava de nada para aquec-lo, de nada para aumentar o calor que ardia em suas entranhas.
      Ele precisava de Kyla. Nua. Debaixo dele. Embainhando aquela parte dele que doa de necessidade por ela.
      Praguejando de novo, bateu a cabea repetidamente contra a corrente grossa que sustentava o balano at sua cabea doer o bastante para lhe fazer bem.
      Ela iria am-lo um dia? Iria desej-lo como ele a desejava? At agora ele conseguira tudo que almejara. Ela e Aaron estavam morando sob seu teto, compartilhando 
sua vida, desfrutando de sua proteo.
      Mas ela ainda no estava em sua cama. Ser que um dia ela iria retribuir seu amor? Possivelmente.
      Mas jamais se ela souber quem voc . Ele tivera todas as intenes de contar a Kyla, antes que se casassem, que ele fora o lendrio Beijoca, mas acabara convencendo 
a si mesmo de que no deveria fazer isso. Era melhor estarem unidos legalmente antes de revelar o segredo.
      Ento ele decidira contar na noite aps sua noite de npcias, depois que ela tivera uma noite de seu amor e eles estarem ligados no apenas legal, mas fisicamente.
      Mas, ora diabos, a culpa deles no terem tido uma noite de npcias no era dele, era?
      Mas voc j deveria ter contado a ela, argumentou sua conscincia.
       Sim, eu sei  respondeu ele em voz alta. Mas como? Quando? Que momento seria o certo para ele dizer: Sabe, no nos conhecemos por acidente. Eu orquestrei 
tudo porque antes mesmo de t-la visto jurei que ia me casar com voc e dar um lar a voc e ao seu filho. Por qu? Bem, porque sou responsvel pela morte do seu 
marido e achei que devia uma compensao. Sou o responsvel pela morte do seu marido e acho que devo isso tanto a ele quanto a voc. Ah, mas eu te amo.
      Ele repetiu um mesmo palavro vrias vezes e se levantou do balano.
      Depois que contasse quem ele era, Kyla acreditaria que ele a amava? Diabos, no. Caso os papis estivessem trocados, ele no acreditaria.
      Com o ombro apoiado na parede externa da casa, ele ficou de p na beira do convs, observando, sem ver, o espao prximo.
       Que diabos estou fazendo?  perguntou para a noite. Ele sabia que com apenas um pouco de elegncia de sua parte, ele poderia faz-la render-se aos seus avanos 
sexuais. Ele entendia bastante sobre mulheres para saber que ela o desejava. O problema era que ela no admitia isso para si mesma. Mas esse era o caminho: ela precisava 
admitir para si mesma. Quando eles ficassem juntos  Deus, no permita que demore muito , a iniciativa teria de vir da parte dela. Ele no queria ser acusado mais 
tarde de se aproveitar dela tambm dessa forma.
      Voc precisa contar a ela, Trevor foi lembrado por aquela conscincia implacvel.
       Mas eu preciso conquist-la primeiro.
      Ele no precisava dizer a ela esta noite. Ou amanh. Ou ao menos na semana seguinte. Ele viveria um dia por vez. Quando ela soubesse que o amava, Trevor iria 
lhe dizer. Quando o momento certo chegasse, ele saberia.
      E se nunca houver um momento certo?, provocou-lhe a conscincia.
      Mas ele no ouvia mais. Comeou a pensar na mulher que estava dormindo em sua cama. Ele visualizou uma ampulheta com areia da cor dos cabelos de Kyla deslizando 
por sua passagem esguia. Um gro por vez. Um beijo por vez. Uma carcia por vez. E sua resistncia era reduzida mais a cada gro, beijo, carcia.
       O seu tempo est se esgotando, Kyla.
      O rouco sussurro no foi uma ameaa. Foi uma promessa.
      
       Desculpa o atraso  disse Kyla, sem flego, enquanto entrava pela porta dos fundos da Petal Pushers. Seus braos estavam cheios de blocos de pedidos, livros-razo 
e catlogos. Todos escorregando para o cho a despeito de seus esforos de mant-los seguros entre seus braos e seu peito. Ela os empilhou ma mesa e parou para 
respirar fundo. Seus cabelos tinham sido desgrenhados por um vento muito forte, Aaron babara em sua blusa.
       O que te prendeu?  perguntou Babs, fingindo preocupao.  Teve uma manh dura?
      Kyla fingiu no entender o trocadilho.
       Voc no faz idia do circo que foi tentar fazer ns trs nos vestir, comer e sair.  Kyla se aboletou na cadeira atrs da lesa e respirou fundo.
      Babs riu.
       Luademelite?
       Qu?  Kyla franziu a testa enquanto Babs sentava no tanto da mesa e se inclinava  frente com uma expresso animada no rosto.
       Eu sei o que te atrasou esta manh. E ento, ele  to bom quanto parece?
      Kyla levantou da cadeira sob o pretexto de catar os papis que acabara deixar cair.
       Quem?
       Quem? Pelo amor de Deus, Kyla! Com quem voc acabou de casar? O Trevor, claro.
       Ah, o Trevor  disse Kyla distrada, deliberadamente ficando de costas para sua amiga perspicaz.
       Bom no qu?
       Voc no vai me contar, no ? Kyla olhou nos olhos da amiga.
       Sobre minha vida sexual? No.
       Por qu?
       Em primeiro lugar, no  da sua conta. E, em segundo, no sei por que voc iria querer saber.
       Mas eu quero  disse Babs, levantando de trs da mesa e seguindo Kyla para dentro da loja.  Cada detalhe cintilante.
       Recebemos pedidos hoje?
       Ele  o tipo vido, tempestuoso, imprudente?
       Talvez devssemos mudar as amostras da vitrine.
       Ou  do tipo lento, lnguido, carinhoso?
       No estou ouvindo.
       Ele geme?
       O correio j passou hoje?
       Ele fala com voc? Tenho certeza de que ele fala. O que ele diz?
       Babs!  gritou Kyla para conter a avalanche de perguntas.  No tnhamos uma conversa to ridcula desde os tempos de escola.
       Naquela poca voc me contava tudo.
       Eu cresci. Por que voc no cresce?
       Voc at me contou como eram os beijos de Richard, quando vocs se beijaram pela primeira vez. No pode me dizer pelo menos isso? Como so os beijos de Trevor?
       Indescritveis  disse Kyla com honestidade.  Agora voc, por favor, pode mudar de assunto?
       Mais uma coisa.
      Suspirando, Kyla cruzou os braos sobre o peito e fingiu tdio. 
       O qu?
       Como ele  pelado? De tirar o flego?
      Kyla engoliu em seco. Ento, por que no conseguia nem imaginar qual seria a reao de Babs se ela dissesse que no sabia, ela simplesmente retorquiu:
       O que voc acha?
      E a partir da Babs teria de chegar s suas prprias concluses.
      
      
      
     Captulo Onze
      
      
      
      Eles aprenderam a viver juntos. Kyla descobriu que seu marido dormia muito pouco. Ele gostava de ficar acordado at tarde, mas sempre acordava cedo e feliz. 
Ela sempre acordava mal-humorada, tivesse dormido trs vezes ou treze. Trevor aprendeu a manter distncia de Kyla de manh, pelo menos at ela ter tomado uma xcara 
de caf.
      Quando se despia, ele tendia a dobrar roupas sobre a pea de moblia mais prxima, a espalhar cadernos do jornal  medida que terminava de l-los, e a deixar 
copos vazios nas pontas das mesas. Mas ele tambm tinha o cuidado de arrumar suas coisas e a ajud-la com tarefas domsticas, mesmo sem que lhe fosse pedido.
      Na sua primeira semana de casamento, Kyla tentou manter Aaron calmo e bem comportado perto de Trevor. Ele no estava acostumado a ter um garotinho ativo por 
perto. Ela temia que, com suas atividades e brincadeiras constantes, Aaron o perturbasse.
      Mas Trevor jamais demonstrou sinais de irritao, nem mesmo quando Aaron se comportava realmente mal. Ele dedicava ao menino muito daquilo que os psiclogos 
chamam de "tempo de qualidade", fazendo todo tipo de coisa, desde brincar com ele no deque enquanto Kyla preparava o jantar, at ler livros e dar banho nele quando 
ela estava com ambas as mos ocupadas. No quesito paternidade, Kyla no poderia achar qualquer falha em Trevor Rule.
      Quanto a ser um bom esposo, ela tambm tinha pouco do que reclamar. Ele era atencioso e bem intencionado. Todas as noites ele a deixava sozinho na sute principal 
enquanto ele dormia no quarto de hspedes. Ele no demonstrava qualquer timidez em relao a ela. Vrias vezes um surpreendia o outro em estgios variados de nudez 
abrindo a porta na hora errada. Essas cenas jamais falhavam em desconcertar Kyla, mas Trevor parecia no se importar com elas.
      Ele tambm era generoso com seus abraos e beijos. Qualquer um que os visse, acharia que eles eram um casal loucamente apaixonado um pelo outro. Ele freqentemente 
a abraava por trs e cheirava seu pescoo, elogiando-a por seu cabelo, pele, ou silhueta. Ele jamais pedia permisso para um beijo, mas se esforava ao mximo por 
sua qualidade. Muitas vezes seus beijos de boa noite eram to provocantes que depois que se fechava sozinha no quarto, se amaldioava por ser to idiota.
       Ele  meu marido. Devo a ele direitos conjugais. E se estar com ele aliviaria esta sensao de formigamento dentro de mim, por que no fao isso?
      Ento ela abria a gaveta de sua mesa de cabeceira, onde ela pusera a fotografia de Richard. Ela tivera o mnimo de sensibilidade para com os sentimentos de 
Trevor ao decidir no exp-la. Olhando para o rosto amado, ela prometia novamente a Richard que ele ainda vivia em seu corao, que ela jamais trairia sua memria 
apaixonando-se por outro homem, e que ele sempre seria seu verdadeiro marido.
      Mas o corpo dela no seria convencido com tanta facilidade. Enquanto ela estava deitada sozinha naquela cama grande e vazia, no era o rosto de Richard que 
a assombrava; era o de Trevor. Seu sorriso. Seu cabelo. Suas feies bronzeadas. Seu beijo. Tudo vivido.
      A medida que as semanas se derretiam em semanas, aquela sensao formigante dentro de si continuou a aumentar, at que, como acontecia com as panelas de presso, 
ela explodiu.
      Isso aconteceu depois de um dia particularmente rduo no qual havia discutido com um varejista de Dallas que havia cobrado por uma remessa de rosas que a Petal 
Pushers jamais recebera. Para piorar ainda mais, havia discutido com Babs a respeito de sua oferta de ficar com Aaron no fim de semana enquanto Kyla e Trevor desfrutavam 
de um pacote especial de hospedagem num motel de Dallas.
       Acho que voc est precisando de um passeio. Voc parece um equilibrista de corda bamba que acaba de perder o talento  observara Babs, como sempre, prxima 
demais da verdade.  Estou com medo que voc perca o equilbrio e caia.
       Estou bem.
       Tem alguma coisa errada com voc, e pretendo descobrir o que , nem que tenha de perguntar a Trevor.
       No ouse!  gritou Kyla, rodopiando nos calcanhares para encarar a amiga.  No se meta na minha vida, Babs.
      Ela se arrependera por suas palavras rudes no momento em que saram de sua boca, e se desculpou. Mas Babs passara o resto do dia de cara fechada. Trevor oferecera-se 
para pegar Aaron na creche, mas Kyla teria de cuidar das compras. Ela no conseguiu achar tudo de que precisava porque a disposio dos produtos nas prateleiras 
fora mudada, as filas estavam longussimas e os caixas incrivelmente lentos. Vrias vezes ela se viu tentada a deixar as compras em sua cesta e sair do supermercado 
sem elas.
      Quando chegou em casa, sentia-se fsica e emocionalmente exausta. Para se poupar de uma viagem de volta at o carro, tentou carregar todas as sacolas de compras 
ao mesmo tempo. Estava tentando equilibr-las enquanto cruzava o deque em direo  porta dos fundos.
      Seu humor turbulento no fora melhorado pela viso que lhe esperara. Trevor estava deitado na banheira, tomando um banho quente, uma cerveja gelada perto da 
mo. E Aaron...
       Aaron!  gritou ela, furiosa.  Que diabos  isto?
       Isto se chama pintura com pudim  disse sorrindo Trevor, que estava alheio ao mau humor de Kyla.  A professora disse que ele tinha adorado isso, e ento 
eu o deixei tentar em casa.
      O filho dela, que estava sentado  mesinha que Trevor comprara para ele e a posicionara  sombra no deque, estava coberto da cabea aos ps com uma gosma escura 
e grudenta que, Kyla ficou imensamente aliviada de descobrir, era pudim de chocolate.
      Felizmente, ele estava usando apenas sua fralda. As mos gordinhas estavam retirando o pudim de uma tigela e esfregando-o numa folha de papel que Trevor lhe 
dera. Ele espalhava o pudim pelo papel, e em seguida levantava a mo at o rosto e lambia o pudim dentre seus dedos. Aparentemente essa no era a primeira vez que 
seu estmago tinha precedncia sobre suas empreitadas artsticas. O rosto de Aaron estava coberto com pudim. Ele sorriu atravs da lambana de chocolate e tagarelou 
alguma coisa.
       Acho que ele disse "passarinho"  explicou Trevor.  Pelo menos foi isso que sugeri que ele desenhasse.
       Ele est imundo!  gritou Kyla.
      Ela podia sentir sua raiva subindo com a intensidade do mercrio num termmetro. Mesmo sabendo que no era racional ficar to irritada com praticamente nada, 
ela no conseguiu controlar a inevitvel exploso de raiva.
       Ele vai tomar banho  disse Trevor, animado. Mas entre suas sobrancelhas arqueadas, um "V" tinha se formado e estava aprofundando.  A professora disse que 
era um exerccio muito criativo para ele.
       A professora no tem de limpar a baguna!  retorquiu furiosa.  E nem voc. Quem vai limpar esta lambana sou eu. Voc e a professora no lembraram disso 
durante a conversinha amigvel e aconchegante que certamente tiveram?
      Ela caminhou at a porta de vidro deslizante e tentou enfiar o p no vo para abri-la. Mas a porta no se moveu, e com as mos cheias de sacolas de compras, 
cujos fundos comeavam a rasgar, ela estava indefesa.
      Finalmente, rangendo os dentes, ela olhou para o marido.
       Odeio interromper seu banho de espuma, Trevor  disse ela com doura fingida.  Mas acho que o mnimo que voc podia fazer  sair da banheira e me ajudar.
       Em qualquer outra hora, Kyla, mas...
       Bem, ento no precisa se importar!  gritou.  Eu mesma fao isso.
      Ele ento se levantou da banheira, zangado e... Nu.
      Ele pisou no deque de pau-brasil, espalhando gua a cada passada longa. Kyla ficou enraizada onde estava, mesmo quando ele a alcanou e arrancou as sacolas 
de compras de seus braos. Ele segurou todas as trs com um nico punho e abriu a porta de vidro com tanto mpeto que ela estremeceu no trilho. Alheio tanto  sua 
nudez e  gua que estava gotejando por toda parte, ele invadiu a cozinha e virtualmente largou as sacolas de compras no balco azulejado.
      E ento, como uma das mos no quadril e o joelho direito dobrado numa pose arrogante e beligerante, ele se virou para ela. Kyla leu a expresso dele com total 
clareza. Se ela dispusesse de legendas por cima daquela imagem, elas diriam: "Muito bem, moa, voc pediu.
      Furiosa consigo mesma por fazer uma cena daquelas e furiosa com ele por deix-la fazer isso, ela saiu correndo para o quarto e estremeceu cada janela de vidro 
na casa ao bater a porta s suas costas.
      
       Minha batata ainda est assando?
      As janelas do quarto emolduravam um crepsculo prpura. Kyla estava deitada de lado, joelhos recolhidos para o peito. Depois de passar muito tempo chorando, 
ela tomara banho e vestira uma camisola. O lenol estava puxado at sua cintura. Suas faces repousavam nas mos, que estavam dobradas, palmas juntas.
      Ela levantou muito pouco a cabea. Trevor estava  porta, parado na soleira como se temesse ser acertado por objetos caso ousasse entrar mais no quarto.
       No. Eu sinto muito.
      Ele entrou. Vestia nada alm de um par de bermudas, e Kyla fechou os olhos antes de recolocar a cabea no travesseiro. Lembrava com clareza torturante como 
era o corpo de Trevor, e de como ele estivera encharcado, com luz do sol filtrada por folhas caindo sobre cada riozinho prateado que corria pela floresta de plos 
em seu peito. Recordou os msculos rijos de seu estmago, o comprimento dos membros, o sexo impressionante aninhado num emaranhado de plos escuros.
      Ela chorara lgrimas amargas de arrependimento  arrependimento porque notara o quo magnfica era a nudez dele, arrependimento porque apesar de toda sua determinao 
em contrrio ela o desejava, e arrependimento por t-lo negado a si mesma por tanto tempo.
      Agora Kyla sentiu o colcho afundar com o peso dele enquanto Trevor deitava ao seu lado e curvava o corpo em torno do dela. Ele correu os dedos pelos cabelos 
de Kyla, e penteou uma mecha para fora de seu rosto. Ele disps essa mecha sobre o travesseiros. E esses cuidados acalmaram-na.
       Dia ruim?  A exalao dele era quente e suave em sua orelha.
       Horrvel. Ele riu.
       Ento acho que voc no estava preparada para ver seu filho parecendo um macaco.
      Eu no estava era preparada para ver voc se levantar daquela banheira como uma verso masculina da Vnus de Milo.
       Desculpe pelo escndalo. Foi uma combinao de coisas. Ele estava apoiado no cotovelo direito, debruado sobre ela.
      Seu indicador movia-se suavemente pela bochecha de Kyla.
       Agora entende por que no sa correndo da banheira de hidromassagem para ajudar voc?
       Sim.
       No estava esperando voc em casa to cedo, seno j teria sado, dado banho em Aaron e preparado o jantar.
       Voc no teve culpa, Trevor. Nenhuma. A culpa foi toda minha.  Ela suspirou.  No me sinto bem e...
       O que est errado?  Ele estava instantaneamente alerta, seu corpo retesando atrs do dela.
       Nada.
       Alguma coisa. Voc est doente. Conte para mim.
      Ela virou a cabea para o alto e para trs de uma forma que transmitiu sua mensagem.
       Oh  disse ele num tom desgostoso.  Aquilo.
       Sim, aquilo.  Ela reassumiu sua posio original.
       Quando?
       Descobri quando entrei. Devia ter sabido. Estava agindo como uma vbora.
       Voc est perdoada.  Ele a tocou com cautela, mantendo a mo na curva de sua cintura...
       Voc... isso di?
       Um pouco.
       Tomou alguma coisa?
       Umas aspirinas.
       Isso ajuda?
       Um pouco.
       No muito?
       No. Tenho simplesmente esperar que passe.
       Entendo.
      Movendo-se lentamente, ele abaixou o lenol. A camisola era curta e tinha alas estreitas. Era feita de algum material fino e branco que lembrou a Trevor alguns 
de seus lenos mais caros. No tecido havia flores bordadas, tambm brancas. Abaixo dele, ele viu a silhueta de calcinhas brancas. V-la to vulnervel, to virginal, 
fez seu sexo latejar com desejo.
      Ele tocou novamente a cintura. Ela no se mexeu. Gradualmente ele deslizou a mo para baixo e ao redor, dando-lhe tempo para protestar Quando ela no o fez, 
ele pressionou sua palma quente na parte inferior do seu abdmen.
       Aqui?
       Hum-hum.
      Movendo a mo em crculos lentos, ele a massageou.
       Melhor? Ela fez que sim.
       Pobrezinha.  Ele beijou carinhosamente sua tmpora. Ela suspirou e os olhos dela fecharam-se sonolentos.
       Trevor?
       Sim?
       J viveu antes com uma mulher?
      A mo dele fez uma pausa, mas to momentnea que a hesitao mal foi discernvel.
       No. Por qu?
       Ento o que sabe a respeito disso?
       Apenas que fico feliz por no ter de passar por isso uma vez por ms.
      Sem abrir os olhos, ela sorriu.
       Tpica resposta de homem.
       Mas honesta.  Ele deu uma mordiscada carinhosa no seu ombro.
      Ela realmente no pensou em mover as pernas. Uma mensagem consciente no foi transmitida a elas. Elas simplesmente se moveram, desdobrando-se e esticando-se 
para prover a ele mais acesso  barriga inchada e atormentada pela clica.
       Voc e Aaron conseguiram jantar sem mim?
       Tranqilamente.
       O que voc fez?
      Deslizando as pernas contra as pernas de Kyla, segurando as costas dos joelhos dela com os seus, e preenchendo os peitos dos ps dela com os dedos dos seus, 
ele disse:
       Bem, primeiro dei um banho de mangueira nele para tirar todo aquele pudim de chocolate.
      Ela riu.
       A propsito, eu aprovo a idia da pintura com pudim. Ele parecia estar se divertindo muito. Um dia desses, vou botar um mai e me juntar a ele.
       Como ns dois j sabemos, voc tinha o direito de estar meio fora de si.
       No devia ter gritado com voc.
       Gostei da parte sobre a conversinha "amigvel e aconchegante" com a professora do Aaron.  Do jeito que voc falou, pareceu que estava com cimes.  Desta 
vez a boca de Trevor encontrou a orelha de Kyla. E a lngua acariciou delicadamente o lbulo.   to macio. Um pouco encrespado.
       Continue  disse ela numa voz arfante.
       Esqueci de onde estava.
       Voc... voc... hum... Voc, hum, deu um banho de mangueira nele.
       Ah, sim, e depois fiz o jantar dele.  O que ele comeu?
       Sua comida favorita.
       Cachorro-quente?
       Hum-hum.
       Ou melhor, s as salsichas, sem os pes.
        claro.  Ele beijou o pescoo de Kyla e ela gemeu baixo.  Amanh de manh os pssaros do nosso bosque comero trs pes de cachorro-quente no caf da 
manh. Tomara que gostem de mostarda.
      Uma risada baixa saiu da garganta de Kyla, e ela no soube se foi por causa da piada ou do bigode dele, que estava espanando a coluna de seu pescoo como se 
fosse um objeto raro de porcelana.
       Voc...
       J sei o que vai perguntar Sim, eu observei Aaron dar cada mordida e fiz com que mastigasse.
       Obrigada.  A boca de Kyla procurou pela dele.
       Foi um prazer.  Os lbios dele encontraram os dela.
      O beijo funcionou como uma fagulha no fim de dois pavios muito curtos.
      A boca de Trevor se debateu faminta com a de Kyla, cujos lbios se abriram para deix-lo introduzir a lngua. Seu corpo seguiu sua cabea at eles estarem 
deitados face a face.
      Os braos de Kyla se fecharam em torno dos ombros dele. As pontas dos seios de Kyla espetaram a frente de sua camisola at tocarem a parede peluda do peito 
de Trevor. Ele a pressionou para baixo, cobrindo uma lateral do corpo dela com o seu prprio.
       Kyla, voc...
       Trevor, eu...
       O qu?
       Trevor?
      Da cama vieram sons. Gemidos gratos. O farfalhar sedoso de lenis. Respiraes sussurrantes. Suspiros incoerentes. Ganidos de prazer. A msica do acasalamento.
      As mos dele se moveram com cobia incansvel. Ele tocou as coxas de Kyla; por um breve segundo a panturrilha dela encheu a palma dele. Ele correu os dedos 
pela sua clavcula frgil. Ele segurou um seio.
       Ahh.  Ela arqueou as costas e libertou a boca do beijo dele.
       Qual  o problema?
       Est sensvel.
       Oh. Eu no... est?
       Sim.
       Sinto muito.
       No, na verdade... na verdade foi gostoso.
       Foi?
       Oh, sim  suspirou ela enquanto ele gentilmente tornava a acarici-la,
       Gosta disso?
       Hum...
       E os mamilos?
       Sim, sim.
       Diga-me se...
      Mas ele nunca terminou a frase, porque os dedos dela se entrelaaram no cabelo dele e puxaram sua cabea para mais um beijo faminto.
      Quando terminou, ele baixou a cabea para deitar beijos quentes e aleatrios nos seios. As mos de Trevor formaram um gancho para as costelas de Kyla. Ele 
a movimentou por baixo dele. Seu joelho se separou do dela. A camisola foi empurrada at a cintura. Ele pressionou sua coxa rija entre as dela. Ela comeou a se 
mover. Rodando. Esfregando. Alcanando.
       Droga!  gritou Kyla.
      Ele estava por cima, respirao soando como um vento forte na orelha de Kyla. Ela sentia o batimento rpido do corao de Trevor, no ponto em que seu busto 
esmagava o dela. Entre mos poderosas, ele estava segurando a cabea de Kyla, mantendo-a imvel. Seu rosto estava enterrado nos cabelos.
       No se mova, querida.
       O que foi?
       Por favor, no se mova, meu amor  gemeu ele.  Fique parada por um minuto.
      Ela fez como ele pediu. Vrios momentos depois, ele lentamente levantou a cabea. Seu rosto estava infinitamente meigo, sua expresso misericordiosa. Um canto 
de seu bigode subiu para formar um sorriso amargo.
       Quem diria. Eu tenho voc exatamente onde a queria e esta  a noite errada.
      Embaraada, seus olhos desceram do rosto dele. Ele beijou-lhe a bochecha e se afastou, saindo completamente da cama. Curvando-se at a cintura, ele pousou 
a palma contra a face ruborizada de Kyla.
       Voc est bem?
      Ela no estava sentindo dor, exceto pela parte inferior de seu corpo, que latejava horrivelmente, e no com as dores da menstruao.
       Eu me sinto melhor  garantiu.
      Ele se empertigou e, desconfortavelmente, mudou o peso de um p para outro. Penteou com os dedos alguns fios de cabelo negro que estavam cobrindo seu rosto.
       Voc deixou de jantar. Est com fome?
       No. Voc comeu?
       Belisquei. Estou bem.  Eles se entreolharam brevemente, e ento desviaram os olhares, compreendendo ao mesmo tempo como era banal esta conversa, depois 
da paixo que os consumira momentos antes.  Bem, vou deixar voc sozinha agora. Boa noite.
      Ele se virou e caminhou at a porta. Os msculos de suas costas ressaltavam na pele lisa. As bermudas cobriam suas ndegas.
       Trevor?
      Ele girou para olh-la.
       O qu?
       Voc...  No pare agora. Voc chegou at aqui.  Ela engoliu seu orgulho e seu julgamento.  Voc no precisa ir.
      Trevor olhou para sua esposa. Ela se apoiava sobre os cotovelos. A bainha rendada da camisola estava sobre a parte superior das coxas. Os cabelos desmazelados 
se derramavam sobre os ombros como fios de ouro. Seus beijos tinham deixado os lbios dela umedecidos e com cor de morango. O tecido da camisola estava mido nos 
pontos tocados pela boca de Trevor, grudada aos seios de Kyla, moldando-se transparentemente aos mamilos, que faziam covinhas rosadas invertidas contra o tecido 
branco e macio.
      Ele abriu um sorriso triste e esfregou suas palmas umedecidas nas pernas da bermuda.
       Sim, eu preciso, Tenho de ir. Se eu ficar...
      Se ele a tocasse novamente, nada iria impedi-lo de consumar seu casamento e aplacar seu desejo insano. Droga, ele no era perfeccionista, mas na primeira vez 
em que fizessem amor, ele no queria que ela se sentisse embaraada, desconfortvel ou arrependida.
       Mas a gente a gente vai continuar de onde parou  acrescentou num rouco sussurro segundos depois de sair do quarto.
      
      Na manh seguinte, Aaron j estava em sua cadeirinha alta e Trevor virava tiras de bacon numa frigideira quando Kyla entrou cautelosamente na cozinha.
       Bom dia, beb.  Ela se inclinou para beijar Aaron. E ele, afetuosamente, acertou o nariz da me com uma fatia gordurosa de bacon.  Muito obrigada  murmurou 
ela.
       Ou eu o tirava do bero ou o deixava pular no colcho at quebrar todas as molas  disse Trevor, retirando a frigideira da boca do fogo e caminhando at 
ela.
       Obrigada por cuidar dele.
        um prazer.
      Ele abraou delicadamente a cintura de Kyla e a puxou para si. Ele lhe deu um daqueles seus beijos matutinos que cheiravam a loo ps-barba e eram seguidos 
por mais outros. Porm, depois de outro beijinho rpido, ele disse:
       Sente-se. Voc deve estar faminta. Ela olhou preocupada para o relgio.
       Tenho de me apressar. Dormi demais.
       No precisa correr. Liguei para a Babs e falei para ela no esperar que voc chegue na hora hoje. A escola de Aaron no est esperando por ele antes das 
dez.
      Ele pousou na frente de Kyla um prato de bacon e waffles caseiros que deixou suas glndulas salivares em polvorosa.
       Estou morta de fome.
       Fora isso, como voc est?  Ele se curvou e correu a mo em torno da cintura de Kyla.  A barriguinha ainda di?
       Est muito melhor.
       E aqui?  Envolveu na palma um seio de Kyla e delicadamente segurou um mamilo entre o polegar e um dedo.
      Mal podendo respirar, ela arfou:
       Bom... muito bom... Quero dizer, bem melhor.
       Isso  bom.  Ele beijou a testa de Kyla e se sentou de frente para ela. Enquanto ela se atrapalhava com o guardanapo e tentava lembrar como se usava um 
garfo, ele amanteigou um waffle para Aaron e deslizou o prato para a bandeja da cadeira alta.
       Aqui, campeo. Ataque.
      Eles riram dos modos atrozes do menino  mesa e Kyla comentou:
       Precisamos comear a fazer alguma coisa sobre isso.  Quando percebeu que inclura Trevor nessa declarao, fazendo o "ns" soar to permanente, ela levantou 
os olhos para ele. A expresso no rosto de Trevor inundou o corpo de Kyla com calor dourado.
       Como voc dormiu?  perguntou ele. 
      Ela notou que os dedos dele eram to compridos e fortes que mal se encaixavam no pegador da caneca. Mesmo assim podiam ser muito gentis quando tocavam seu 
corpo, assim como tinham sido h poucos momentos. Ela mal conseguiu se concentrar o bastante para engolir um pedao de waffle, mas depois de fazer isso, respondeu:
       Muito bem.
      Ela sonhara com ele e acordara suando, com seu corao batendo forte e a respirao saindo em lufadas curtas e rpidas. Pelo menos ela poderia agora satisfazer 
a curiosidade de Babs e dizer a ela, sem qualquer exagero, que Trevor, pelado, era de tirar o flego.
       No dormi muito bem ontem  noite  disse ele.
       Sinto muito. Qual foi o problema?  Ele certamente tirara o flego dela ao sair daquela banheira. Seu peito, suas coxas, e seu...
       Estava duro demais.
      O garfo de Kyla caiu no prato. E quando esticou a mo para peg-lo, ela derrubou o suco de laranja. Aaron apontou e disse:
       Oh-oh! Oh-oh!
      Trevor empurrou sua cadeira para trs e avanou para um pano de prato. Ele o esfregou na poa de suco.
       Eu estava me referindo ao colcho do quarto de hspedes.
       O qu?  A cabea de Kyla girou para ele. Seu bigode estava se contorcendo com a necessidade de rir.
       O colcho estava duro demais.
      As faces de Kyla ganharam um vermelho vivo. Graas a Deus o telefone tocou, poupando-a de mais constrangimento. Trevor atendeu.
       Papai!  exclamou ele.
      Kyla pegou no colo Aaron, que havia comido seu waffle em tempo recorde. Ele estendeu a mo at a comida que restava no prato dela e, entre os beijos da me, 
tambm se serviu de um pouco de comida. Ela olhou para Trevor, que ostentava um sorriso enorme enquanto segurava o fone.
       Claro, no tem nenhum problema. Que horas...? Por quanto tempo...? Est tudo bem? Bem, isso  melhor do que nada... Certo, estaremos l. Tchau.  Ele desligou.
       O seu pai?
       Ele vai pegar um avio para c. Vir passar a noite conosco. Voc no se importa, no ?
       Claro que no. Sei o quanto voc ficou decepcionado por ele no ter podido vir para o casamento.
       Quero que ele conhea voc e Aaron. Ele pode ficar apenas uma noite, e depois ter de fazer uma viagem para Los Angeles, por causa de algum caso no qual 
est trabalhando.  Ele jogou um pedao de bacon na boca e mastigou vigorosamente.
       Quero lev-lo de carro pela cidade e lhe mostrar alguns de meus prdios. Voc sabe que ns... Sinto muito. Estou falando pelos cotovelos.
      Na verdade, ela estava gostando de v-to to entusiasmado.
       Continue. O que voc ia dizer?
       Que a gente no se dava bem. No at meu acidente.
       Ele queria que voc fosse advogado?
       E eu tinha outras idias. Mas enquanto estava no hospital, chegamos a um entendimento e agora tudo est bem entre ns.
      O sorriso de Kyla foi genuno.
       Voc vai de carro at Dallas para pegar seu pai?
       Se voc no se importar. Ele me deu o nmero do seu voo. Pensei que todos poderamos jantar na cidade.
       Aaron includo?  perguntou ela, preocupada.
       Claro que o Aaron est includo! Ele  parte desta famlia.  Ele tirou o menino dos braos de Kyla e o levantou acima da cabea. Aaron riu de alegria.  
Papai adora comida italiana. Ele disse o nome de um famoso restaurante de Dallas. Devo telefonar e fazer reservas?
      Ela odiava esfriar tanta empolgao, mas ele aparentemente no entendia o risco de levar um beb de 15 meses para jantar num restaurante fino.
       No sei se  uma boa idia, Trevor. No sei se eles recebem crianas.
       Ei, se no quiserem nosso garoto no restaurante deles, vamos levar nosso dinheiro para outro lugar.
      
      Do maitre ao lavador de pratos mais simples, todos no restaurante de gesto familiar ficaram encantados com os trs homens: George Rule, Trevor, e Aaron. A 
ansiedade de Kyla provou-se desnecessria. Trevor havia falado com o maitre pessoalmente ao fazer a reserva, e a equipe estava preparada para Aaron antes da chegada 
do grupo.
      O encontro inicial de Kyla com o pai de Trevor, em meio  confuso no aeroporto, fora to tranqilo quanto esperara. No comeo Aaron comportou-se com timidez 
diante do homem alto e grisalho, com voz autoritria. Mas a timidez de George para com a criana foi bem maior.
      Trevor propositalmente sentou os dois no banco traseiro do carro. Quando chegaram ao restaurante, localizado na prestigiosa rea de Turtle Creek, em Dallas, 
os dois j eram amigos. Inclusive foi George quem carregou Aaron para dentro e o apresentou a todos como seu neto.
       Trevor me disse que no vou poder conhecer seus pais  disse George na viagem de volta para Chandler.
       Recebemos um carto-postal deles ontem, remetido do parque de Yellowstone  disse Kyla.  Eles nunca se divertiram tanto em suas vidas.
      Ela explicou a George que os Powers tinham vendido sua casa poucos dias depois dela e Trevor terem se casado. As moblias que Kyla no quisera, eles haviam 
vendido em leilo. Trevor ajudara Clif a comprar o trailer que mais se adequava s suas necessidades. Meg mobiliara-o com a empolgao de uma menininha com uma nova 
casa de bonecas. Duas semanas depois, eles haviam partido.
       Ela sente saudades deles  disse Trevor, esticando a mo sobre o banco da frente para puxar o cabelo de Kyla.  Eles mimavam voc.
       Voc tambm me mima.
      Ele virou a cabea abruptamente para Kyla. Ela ficara surpresa em se ouvir fazendo aquela declarao, mas percebeu que era verdade. Trevor olhou pelo parabrisa 
para ter certeza de que no correria um risco, e ento virou a cabea novamente para Kyla.
       Fico feliz em ouvir isso. Porque sempre foi minha inteno...
      Eles continuaram olhando um para o outro at George tossir alto e dizer:
       No sei quanto a voc, Aaron, mas estou me sentindo segurando vela.
      Havia ainda luz suficiente quando chegaram a Chandler para que Trevor conduzisse George por alguns canteiros de obras de prdios que ele estava construindo. 
Kyla permaneceu no carro, observando as silhuetas moverem-se contra o cu que escurecia. Trevor pusera Aaron nos ombros, para que o menino brincasse de cavalinho. 
Eles compunham um quadro encantador.
       Mas aquele deveria ser Richard  sussurrou Kyla, lutando contra as lgrimas que anuviavam seus olhos.
      Ela chorou porque no poderia convencer a si mesma disso. Se aquele homem deveria ser Richard, por que parecia to certo ver as mozinhas rechonchudas de seu 
filho agarrando punhados dos cabelos negros de Trevor? Por que tocava tanto seu corao ver Trevor baixar Aaron com cuidado e abra-lo carinhosamente? E por que 
Kyla queria sentir aqueles braos fortes em torno de si?
      
      George ficou muito impressionado com a casa e desfiou elogios sem fim ao filho. Kyla tirou Aaron da cama e, depois de uma breve visita a George, pediu licena 
para dar a Trevor e seu pai um pouco de tempo a ss.
       Estou com uma mancha roxa na barriga da perna do tamanho de uma moeda de cinqenta cents  disse George.  Algum motivo particular para voc ter me chutado 
debaixo da mesa quando mencionei que foi dos fuzileiros?
      Na hora desse incidente, Trevor ficara aliviado por Kyla estar limpando espaguete da boca de Aaron e no ter ouvido o comentrio imprprio do seu pai.
       Prefiro que Kyla no saiba disso. Ela no sabe como me feri.
       No sabe nada?
       No.
       Hum.
      Trevor conhecia seu pai bem o bastante para saber que ele jamais dizia nada sem motivo, nem mesmo um "Hum".
       Vocs se apaixonou e se casou muito depressa, no foi?
       Isso  estranho?
       Para voc .  Trevor olhou torto para ele e George sorriu.  A sua reputao com mulheres alcanou at os ouvidos de seu pai, Trevor. Este romance repentino 
no condiz com a sua personalidade.
      Eles estavam sentados no deque, em espreguiadeiras confortveis. George fumava um charuto, hbito que seu mdico o aconselhara a largar. Trevor ficou feliz 
pela escurido esconder seu desconforto. Ele no gostava do rumo que a conversa havia tomado.
       Eu a amo, pai.
       No duvido, agora que o vi com ela.  apenas estranho que o "Beijoca", como seus amigos o chamavam, tenha se apaixonado to rpido. E to perdidamente.
       Estou apaixonado por ela h muito tempo  disse Trevor num sussurro quase inaudvel.
      George rolou o charuto entre os dedos, estudando sua ponta reluzente. 
       Ela no teria nenhuma relao com aquelas cartas que voc lia o tempo todo enquanto estava no hospital, teria?
      Trevor deveria ter imaginado. Nada, nem mesmo a prova mais nfima, escapava ao arguto George Rule. Para ele, nada era insignificante. Trevor levantou de sua 
cadeira e caminhou at a beira do deque. Apoiou o ombro na parede e olhou para a escurido, exatamente como fizera semanas antes, enquanto pensava em como contar 
a Kyla quem ele era.
       Papai, vou contar minha histria, mas voc vai sentir dificuldade em acreditar nela.
      Quando Trevor concluiu sua narrativa, vrios momentos de silncio denso se seguiram. Finalmente George disse;
       Prometi nunca mais interferir com sua vida, mas desta vez voc est brincando com fogo.
       Eu sei  admitiu Trevor, virando-se para encarar o pai.
       Como voc acha que aquela moa vai reagir quando descobrir a verdade?
      Trevor baixou o pescoo para o peito e enfiou as mos nos bolsos das calas.
       Odeio pensar nisso.
       Pois deveria  aconselhou o homem mais velho.  Porque ela vai descobrir.  Ele se levantou e espremeu seu charuto no cinzeiro que Trevor havia lhe fornecido. 
Pousando uma das mos no ombro de Trevor, George disse:  Mas quem sabe? Talvez d certo. Se voc ama de verdade essa mulher.
       Eu amo.
       E ela ama voc?
      Trevor hesitou, olhos correndo para as janelas escuras do quarto principal.
       Acho que ela est comeando a me amar. Ou talvez apenas esteja se acostumando a me ter por perto. Droga, eu no sei. 
      George sorriu. Ento seu olhar repousou no tapa-olho, e se lembrou, mais uma vez, do quanto seu filho era valioso para ele, e o quanto estivera perto de perd-lo. 
Lgrimas se juntaram em seus olhos e ele puxou Trevor para um abrao emocionado, ainda que curto.
       Filho, depois de tudo que lhe aconteceu, voc merece ser feliz.
       No, papai, depois de tudo por que Kyla passou, ela merece ser feliz  disse Trevor.
      Logo depois eles se deram boa noite e George seguiu para o quarto de hspedes onde Trevor pusera sua mala.
      Trevor aproximou-se da porta da sute principal com passos cautelosos e arrastados de um menino que acabara de ouvir um sermo do diretor da escola. Seu estmago 
estava embrulhado. O corao batia depressa.
      Mas que diabos havia de errado com ele? Estava excitado com a perspectiva de que ela o recebesse em sua cama? Ou assustado com a possibilidade de uma rejeio?
      Assustado? Ele estava com medo de uma mulher que devia pesar menos de 50 quilos? No seja ridculo.
      Ento por que est de p aqui como um retardado, olhando para essa porta com o estmago em ns, o corao acelerado, e a virilha...
      Deus, nem era bom pensar em sua virilha.
      Seus joelhos estavam realmente tremendo? Por que, pelo amor de Deus?
      Ele era um adulto, no um colegial. Esta era a casa dele. Ele a construra. Ele a financiara. Tinha todo o direito de dormir em qualquer quarto que quisesse.
      Ela era sua esposa, no era? E sim, ele a vinha mimando nas ltimas semanas. Ele vinha pisando em ovos, fazendo e dizendo tudo que podia para agrad-la e no 
permitindo que nada a perturbasse.
      Ela no ficara feliz quando ele instalara o velho balano repintado no quintal dos fundos para Aaron? Ela no ficara feliz quando ele construra aquela caixa 
de areia? E ela no rira quando tinham travado uma briga de ccegas na caixa, logo depois que ele a enchera com areia macia e fria? E ela no havia retribudo o 
beijo que ele lhe dera antes de se levantarem da caixa de areia?
      Sim, era a resposta para todas essas perguntas. Sim! Ele no ganhara o apelido "Beijoca" sem motivo.
      Mas Trevor no usara esse beijo, ou nenhum outro, para levar Kyla para a cama. Ele vinha agindo como um lacaio para ganhar sua aprovao. S que j estava 
cansado disso. Bem, era hora de mostrar a ela quem era o homem da famlia. Pelo amor de Deus, ele tambm tinha direitos!
      A porta abriu abruptamente e se fechou com uma batida forte. Kyla sentou abruptamente na cama, segurando o lenol at os seios.
       Trevor? O que aconteceu? O que est errado?
       No tem nada errado. Ou melhor, tem sim. Vou te dizer o que   rosnou ele avanando pelo quarto, dentes rangendo de indignao.  Meu pai est dormindo 
no quarto de hspedes, portanto, sra. Rule, esta noite ns vamos dividir esta cama.
      
      
      
     Captulo Doze
      
      
      
       Tudo bem.
      A concesso proferida em voz baixa havia desarmado completamente Trevor. Sua ira desinflou como um sufl tirado prematuramente do forno. Tentando recuperar 
a compostura, deu de ombros.
       Ora, muito bem ento  disse, seco  Estou feliz por ouvir isso.
      Por algum motivo, a cortesia prestada por Kyla apenas serviu para deix-lo mais furioso. Ele no precisava da bondade dela. No, senhor!
      Ele arrancou suas roupas com puxes zangados e violentos. Uma a uma, as peas foram atiradas para longe. E foram deixadas onde porventura cassem. Quando estava 
apenas de cuecas, puxou os lenis e se jogou na cama. Depois de brutalizar o travesseiro com um punho, ele enfiou e afundou a cabea nele.
       Boa noite.
       Boa noite, Trevor.
      Ele deu as costas para ela, balanando a cama inteira enquanto se ajustava numa posio confortvel, queixando-se com a rabugice de um gigante de contos de 
fadas.
      Pronto! Acho que mostrei a ela.
      Se esse era o caso, por que seu corpo estava rijo e ardendo em desejo? Por que seu corao latejava com amor que lhe era negado liberar?
      Kyla acordou para descobri-la observando-a. Ele estava de lado, voltado para ela, a cabea com seus cabelos negros e desgrenhados apoiada num ombro dobrado. 
Silencioso e imvel, a nica parte dele que se movia era seu nico olho verde que vagava sobre o rosto e os cabelos de Kyla, como se catalogando cada detalhe.
      Ela no percebeu que havia levantado a mo at ela ter-se movido para dentro de seu prprio campo de viso. Levemente, ela tocou o tapa-olho preto.
       Voc nunca tira isso.
       No quero que voc veja.
       Por qu?
        feio demais.
       No far diferena para mim,
       Curiosa?
       No. Triste. Eu estava apenas pensando no quanto o seu olho  bonito e no quanto  lamentvel que o outro tenha sido perdido.
       Estou feliz por este ter sido poupado.
       Graas a Deus.
       Sem ele eu no estaria desfrutando deste momento. No trocaria ver seu rosto agora por nada no mundo.  Sua voz estava rouca de emoo.
      A garganta de Kyla latejava com a necessidade de gritar. Sua mo moveu-se do tapa-olho para o bigode. Os dedos correram com suavidade por ele. E ento ela 
tocou-lhe o lbio superior.
      O hlito de Trevor bateu na nuca de Kyla. E seu sexo encheu-se de calor.
      Ela nunca tocara o rosto dele. Agora iniciou uma orgia de toques. Os ossos do rosto magro e moreno eram pronunciados. O osso da fronte ressaltava levemente 
sobre as cavidades oculares. As sobrancelhas em forma de asa eram insinuantes e grossas. Um restolho de barba cobria a parte inferior do rosto. Os fios do bigode, 
que os dedos de Kyla no conseguiam deixar em paz, eram surpreendentemente macios. Com a unha, ela traou, lnguida, a forma do lbio inferior.
       Cuidado, Kyla.
      Ela recuou o dedo uma frao de centmetros e perguntou:
       Por qu?
       Porque passei quase sete horas deitado aqui, desejando voc. Entende?  Ela fez que sim.  No acho que seja uma boa idia voc me tocar. A no ser...
      A condio ficou subentendida.
      L fora, raios de sol j eram filtrados pelos galhos frondosos das rvores, projetando padres nas cortinas fechadas. Pssaros cantavam alegremente. Esquilos 
caavam uns aos outros nos galhos superiores. Borboletas voavam de flor em flor. Cardeais e gralhas-azuis pareciam flechas emplumadas arremetendo-se entre as rvores.
      A atividade no quarto era consideravelmente menos bvia, mas no menos energtica. Emoes elevavam-se entre os dois como ondas gigantescas no Atlntico. A 
necessidade era to densa que parecia palpvel, o desejo to potente que podia ser respirado. Se auras pudessem ser vistas, o ar em torno deles tremeluzia com um 
brilho vermelho de paixo crescente.
      O corpo de Kyla no demonstrava seu desejo de forma to evidente quanto o dele, mas ela sofria da mesma aflio. Naquele momento, Kyla no conseguia pensar 
em nada mais seno satisfazer sua necessidade de ser mimada, acariciada, coberta, completada.
      Ela tocou novamente o lbio inferior de Trevor.
      Em um movimento fluido, ele se juntou a ela, posicionando Kyla sob si e capturando sua boca num beijo quente e faminto. Rgida e petulante, a virilidade de 
Trevor procurou pelo corao da feminilidade de Kyla. Encontrou-a. Favoreceu-a com carcias afoitas.
       Meu Deus, como te quero.
      Ele tateou frentico em busca da bainha da camisola. As mos dela puxaram para baixo o elstico de sua cueca. Ela introduziu a mo e tocou a curva rija de 
uma ndega.
      Gemendo, a boca de Trevor encontrou um mamilo e se fechou em torno dele enquanto ele apreciava a maciez sedosa das calcinhas de Kyla, assim como os contornos 
nela confinados. Kyla suspirou o nome dele e levantou os joelhos. Os dedos de Trevor enfiaram-se sob a cintura das calcinhas.
      A porta do quarto abriu-se e, com o mpeto de um ciclone em miniatura, Aaron adentrou o quarto. Ele estava agitado e barulhento como os pssaros e esquilos 
l fora.
      Todo o ar vazou do corpo de Trevor num chiado lento e estvel, aliviando a tenso de seu peito. Ele pressionou a testa contra a de Kyla e desejou ser capaz 
de desinflar seu sexo com a mesma facilidade com que esvaziou os pulmes. Uma gargalhada comeou a se formar dentro dele e fez seus lbios expulsarem ar contra a 
boca de Kyla.
       Me lembre de esgan-lo mais tarde.
      Kyla tambm estava sentindo a agonia de uma paixo contida  fora. Suspirando, pressionou o rosto no pescoo quente de Trevor.
       Se eu no o pegar primeiro.
      Trevor rolou para o lado dela, mas a manteve travada em seus braos. Juntos, voltaram sua ateno para Aaron.
       Ele deve ter convencido o av a libert-lo do bero  observou Trevor.
      Desejando a adorao de sua plateia, Aaron caminhou para o centro do palco e executou alguns de seus truques mais engraadinhos. Os risos deles apenas o encorajaram. 
Com um sorriso matreiro, ele comeou a girar em crculos. Surdo aos avisos de que ia ficar tonto, ele girou cada vez mais rpido at que, bbado, ele estendeu um 
brao para conter sua queda.
      O que sua mo agarrou foi o puxador decorativo da gaveta de cabeceira. A gravidade puxou Aaron e ele estava tonto demais para resistir a ela. Seu traseiro 
aterrissou slido no soalho atapetado e a gaveta saiu da mesinha para cair em seu colo.
      Ele no se machucou, mas os dois adultos reflexivamente sentaram na cama ao verem que o inevitvel estava para acontecer. Aaron fitou-os surpreso, e ento 
baixou os olhos para a gaveta sobre seu colo.
      A nica coisa no interior da gaveta era a foto emoldurada de 20x25 do fuzileiro naval em uniforme completo. Aaron bateu no vidro com as mos e disse:
       Papapai.  E ento sorriu para seus espectadores, esperando aplausos de p por sua atuao magnfica.
      Os braos que seguravam Kyla num abrao folgado e afetuoso subitamente ficaram duros como ao. Aos poucos, eles a soltaram. Ela sentiu o calor baixando lentamente, 
grau a grau. E ento, com um movimento abrupto, Trevor levantou da cama no lado mais distante e pegou as calas que largara no cho na noite anterior. Ele enfiou 
as pernas nelas e fechou o zper com uma puxada vigorosa enquanto caminhava a passos largos at a porta.
       Trevor, por favor!
      Girou nos calcanhares, peito nu, descalo, furioso. Rangia os dentes de raiva, e seu olho brilhou frio ao fitar a mulher agora sentada na cama, descabelada, 
rosto plido, lbios trmulos, olhos implorando.
       Eu no vou ser um duble  rosnou.  Enquanto houver outro homem dentro de voc, no haver espao para isto  disse, usando a mo para se exibir rudemente. 
Queixo empinado, saiu furioso do quarto.
      
        Lynn Haskell  reportou Kyla, tampando com a palma o bocal do telefone.  Ela nos convidou para um piquenique no lago no Dia do Trabalho. Vocs querem 
ir?
      Havia se passado uma semana desde a visita de George Rule. A semana mais miservel da vida de Kyla. A tenso na casa estalava como papel velho e era igualmente 
inflamvel. O suspense de no saber o que deflagraria o incndio inevitvel estava deixando os dois com os nervos em frangalhos.
      Trevor jamais perdia a cabea, jamais erguia a voz. Kyla at gostaria que isso acontecesse. Em vez disso ele parecia uma nuvem de tempestade escura e pesada 
que se recusava a romper. Ela ficava pairando sobre suas cabeas, nefasta e ameaadora.
      Ele no a estava tratando com menos delicadeza do que o normal, mas houvera uma suspenso sensvel em suas demonstraes de afeto. Ele raramente a tocava, 
e s o fazia quando isso era necessrio. Com Aaron ele se comportava da mesma forma amvel. Com ela, era remoto e mecnico.
      Que  a forma como eu quis que fosse no comeo, ela lembrava a si mesma cada vez que desejava seu sorriso reluzente... ou um olhar significativo... ou um beijo.
      Agora, em reao  pergunta de Kyla, ele deu de ombros.
       Vou deixar por sua conta, Kyla. Faa o que quiser.
      Ela o fulminou com o olhar. Ele a ignorou e se debruou novamente sobre o quebra-cabeas de madeira com peas grandes que ele estava pacientemente montando 
com Aaron, talvez pela dcima vez naquela tarde.
      Kyla no conseguia manter Lynn no telefone indefinidamente. Ela precisava dizer alguma coisa. Mas o qu? Os Haskells eram amigos de Trevor. Mesmo que Trevor 
se recusasse a dizer isso, ela tinha certeza de que ele queria ir. Lynn era astuta e saberia enxergar atravs de uma desculpa esfarrapada. Sair e passar um dia no 
lago provavelmente seria bom para todos eles. Com sorte isso iria alivi-los de alguma tenso.
       Lynn, ns vamos adorar encontrar vocs.  Com o rabo do olho, viu Trevor olhar para ela, mas ele imediatamente voltou sua ateno para Aaron.  O que posso 
levar...? No, no, eu insisto.
      
      Invariavelmente, a primeira segunda-feira de setembro no Texas era sem nuvens e escaldante. Este Dia do Trabalho prometia no ser diferente dos seus predecessores.
       Kyla, eles esto aqui.  Trevor chamou da varanda da frente, onde pousara suas tralhas e estava de p com Aaron. Os Haskells haviam sugerido que todos eles 
fossem at o lago em seu furgo, porque ele comportaria ambas famlias e tambm a parafernlia do piquenique.
       Estou indo.  Ela percorreu a casa verificando se as portas estavam fechadas ou se esquecera alguma coisa vital. Quando alcanou a varanda da frente, Trevor 
e Ted estavam carregando o porta-malas do furgo e Lynn estava com Aaron, brincando de cavalinho nos joelhos dela.
       Oi. Subam enquanto ainda h espao para vocs  disse Lynn, animada com o passeio.
      Durante o percurso at o lago, Ted mexeu com Kyla a respeito das coisas que ela trouxera.
       Se soubesse que vocs iam trazer tanta coisa, eu teria alugado um trailer.
      Kyla gostaria de saber se o outro casal notara que ela e Trevor poderiam conversar e brincar com eles, mas tinham pouco a dizer um ao outro.
       Trevor estava vestido com bermudas desbotadas, tnis de corrida precisando de uma aposentaria e um suter cor de cinza com as mangas cortadas. Ele tambm 
havia alargado o pescoo para que o tapete de plos em seu peito enchesse o "V" denteado e irregular.
      Kyla puxara seus cabelos para trs e os amarrara num rabo de cavalo. Ela estava usando um par de shorts velhos sobre a pea inferior de seu biquni, e amarrara 
as fraldas de uma camisa de malha em sua cintura. A gola da camisa abria-se para revelar a pea superior do biquni. Ela ficou feliz por no ter tentado se arrumar 
mais. Quando eles chegaram ao lago, ela j fora desmazelada por Aaron que fora contaminado pelo clima festivo dos filhos dos Haskell.
      Eles encontraram um local que todos concordaram ser perfeito e comearam a descarregar o furgo. Quando terminaram, Trevor celebrou tirando uma lata de cerveja 
da caixa de isopor. Ele tomou a bebida em toda em trs goles.
      Ele bebeu mais uma cerveja para apagar as chamas de desejo que subiram por seu corpo quando Kyla ficou s de biquni depois que Lynn sugeriu que elas pegassem 
um sol.
      Fizeram uma caminhada at a beira da gua com as crianas. Aaron se ps a bater na gua, e no ficou satisfeito at ter encharcado sua me com a gua fria 
do lago. Quando o frio enrijeceu os mamilos de Kyla, Trevor resmungou uma desculpa qualquer e voltou at a caixa de isopor para pegar outra cerveja.
      Ele levou a lata at o lago e ofereceu um gole a Kyla. Ao aceitar, Kyla acidentalmente tocou a mo dele. E quando ela inclinou a cabea para trs, ele foi 
tomado por um desejo de cair de boca naquele pescoo lindo.
      Enquanto ele e Ted permaneciam na gua rasa com as crianas, Lynn e Kyla nadaram at o cais que marcava o incio das guas fundas. Trevor observou cada arco 
gracioso que seus braos faziam na gua. Ele devorou Kyla com os olhos enquanto ela subia a escada do cais. Quando ela se empertigou para acenar para Aaron, seu 
corpo esguio foi marcado em silhueta contra o cu de vero. O nvel da gua batia em suas coxas, e ele amaldioou aquela barriga plana e desejvel.
       Volto j  murmurou Trevor.
       Para onde voc vai agora?  perguntou Ted a ele, cobrindo os olhos contra o sol para olhar Trevor.
       Eu... bem... acho que Aaron quer um biscoito.
      Ele pegou Aaron, que estava perfeitamente satisfeito em empilhar lama nos joelhos, e o levou at o furgo. Aaron pegou um biscoito e Trevor tomou outra cerveja.
      Depois de um almoo que teria alimentado uma caravana de ciganos, as crianas dormiram  sombra. Quando acordaram, todo mundo caminhou at o campo de beisebol. 
O jogo anual de "Camisas X Sem Camisas" era uma tradio entre os empresrios locais. Qualquer pessoa que quisesse jogar teria apenas de levar seu equipamento e 
se reunir aos outros no campo, onde os participantes seriam divididos em dois times.
      Trevor tinha apenas um olho e capengava, mas meses de fisioterapia e um programa dirio de exerccios que ele seguia religiosamente o mantinham em condies 
fsicas muito superiores s dos levantadores de lpis que tinham dez ou mais quilos de vida sedentria para perder.
      Kyla roeu a unha de seu indicador quando Trevor entrou em campo no nono ciclo. Os Sem Camisa, time no qual tanto ele quanto Ted jogavam, estavam trs pontos 
atrs. As bases estavam cheias. J tinham havido duas eliminaes. Tudo dependia de Trevor. Ele no decepcionou; rebateu a bola e fez um belo home run.
      Kyla, como todo mundo que estava torcendo pelos Sem Camisa, ovacionou fervorosamente. Trevor recebeu as congratulaes de seus colegas de time. Ento ele e 
Ted vieram correndo at suas famlias.
       Voc foi fantstico!  disse Lynn a Trevor.
       Ei, e quanto a mim?  perguntou Ted, fingindo orgulho ferido.
       Voc tambm foi fantstico.  Lynn enlaou os braos em torno do pescoo do marido e o beijou ardentemente.
       Eu estava com o corao na mo  disse Kyla, rindo empolgada. Enquanto sorria para Trevor, o rosto de Kyla foi banhado com sol, e seus olhos franziram contra 
a luz. Por trs de uma tela espessa de clios, eles brilhavam. As mos de Kyla estavam premidas contra o peito, como se ela estivesse tentando conter seu jbilo.
       Foi uma tacada de sorte  disse, modesto.
      Eles deram passos hesitantes um at o outro. Pararam. E ento Kyla se jogou contra ele e, ficando na ponta dos ps, pressionou a boca na dele para um beijo 
ao heri do dia.
      Trevor, reagindo instantaneamente, envolveu a cintura de Kyla em seus braos. O sabor da boca deliciosa, pela primeira vez em mais de uma semana, trespassou 
seu corpo com uma flecha de prazer que explodiu como uma bola de fogo no fundo de sua barriga. Perdido no sabor de Kyla, afogando-se nele, a lngua de Trevor sondava 
as profundezas de sua boca. Alheio  luz do dia,  multido, a tudo, suas mos deslizaram para as ndegas de Kyla e levantaram-na contra sua virilidade intumescida.
      Alguma coisa, possivelmente Ted cutucando-o com sua luva de beisebol, mas alguma coisa, lembrou-o de onde estavam. Ele levantou a cabea e, baixando o olhar 
para Kyla, soltou uma gargalhada.
      Kyla olhou para ele, confusa. Ela estava com os olhos anuviados. Os seios subiam e desciam rapidamente a cada respirao. Seus lbios estavam vermelhos e levemente 
irritados pelo bigode de Trevor. Levantando trs dedos at o bigode, ela o tocou com cautela, como se eles estivessem quentes.
       Prontos para voltar?  Ted estava de p com Lynn, braos nos ombros um do outro. Cada um segurava a mo de uma criana, e Aaron estava aterrorizando um besouro 
com o p.  Que tal uma cerveja, Trevor?
       Sim, claro, uma cerveja.
      Ele a tomou em dois goles, foi nadar para lavar-se do suor e do cansao do jogo, e depois se refrescou do esforo do nado com mais uma cerveja.
      A guisa de jantar, beliscaram sobras e pouco a pouco um cansao saudvel se instalou. Quando o furgo j estava carregado e eles iniciaram a viagem de volta 
para casa, Trevor estava sonolento e no sentia dor. O trfego estava congestionado. Ele ficou feliz em dividir a direo com Ted.
      Na verdade, ele abriu mo de cada responsabilidade, exceto a de encontrar um lugar de descanso para sua cabea no ombro de Kyla. Trevor se encostou nela e 
deixou o brao deslizar pela lateral do corpo at aninhar o cotovelo no vale entre a coxa e o colo de sua esposa. A mo de Trevor enroscou-se em torno da lateral 
de sua coxa. Ele acariciou a pele macia com um polegar preguioso e descobriu que era gostoso mover o brao de leve, fazendo os pelos varrerem a pele de Kyla.
      Em dado momento, ele achou que tinha virado a cabea e beijado o pescoo de Kyla, mas no teve certeza se realmente concretizara essa inteno ou se apenas 
pensara nela com tanta vontade que imaginou ter feito.
      Quando chegaram em casa, ele se concentrou em no parecer alto  conforme suspeitava que estava  na frente de seus anfitries. Ele agradeceu aos Haskells 
pelo dia maravilhoso e desejou-lhes boa noite.
      Ele compreendeu o quanto seus braos e pernas estavam moles quando tentou carregar os seus equipamentos de piquenique at a varanda. Depois de dar alguns passos 
cambaleantes, murmurou, "Acho que vou deixar para guardar essa tralha toda amanh", e se deixou cair no cho.
       Tudo bem  disse Kyla, pressionando os lbios para no rir.  Mas ser que voc pode por favor destrancar a porta?  Aaron, que dormia em seus braos, estava 
ficando pesado.
       Claro, claro.
      Estupidamente, ficou simplesmente parado ali, olhando para ela enquanto os segundos se arrastavam.  Trevor, voc est com a chave.
       Oh! Claro que estou.  Ele iniciou uma busca descoordenada em seus bolsos at tirar a chave. Segurando a chave a centmetros do nariz, ele disse:
       V? Eu disse que estava comigo!
      Ela conteve outra risada, mas ele pareceu no notar enquanto se atrapalhava com a fechadura.
       Algum mudou a fechadura!  Sua exclamao foi proferida com a mesma determinao com que Edison deve ter dito "Funcional", quando sua primeira lmpada acendeu.
       Vire a chave de modo que os dentes fiquem para cima. Ele seguiu a instruo de Kyla. Quando a fechadura girou e a porta abriu, ele olhou para ela e disse:
       Voc  maravilhosa. Sabia disso? Maravilhosa.
      Ela olhou para o cu como quem pede misericrdia e passou por ele, indo direto at o quarto de Aaron. Depois de colocar o menino para dormir, voltou para a 
sala de estar e encontrou Trevor jogado no sof. Ela checou se ele havia fechado a porta da frente, e ento seguiu ate o sof e se debruou sobre ele.
      Trevor estava dormindo. Ela afastou de seu rosto uma mecha de cabelos negros, e ele acordou.
       Kyla?
       Sim?
       Voc  um amor.  Obrigada.
       To delicada, to linda.
       Sim, eu sei.
      Ele no notou a inflexo seca de Kyla. Ele no fazia a menor idia de que ela o estava tratando com condescendncia. Tudo que sabia com certeza era que ao 
luar plido, que entrava pelas portas de vidro, a mulher que ele amava estava linda.
      Ele segurou o pescoo de Kyla e puxou seu rosto para um beijo. Kyla, no preparada para este movimento repentino, e muito menos para a paixo do beijo, perdeu 
o equilbrio e caiu por cima dele. Trevor esforou-se para corrigir a situao, mas s conseguiu fazer ambos rolarem para o cho.
      Durante vrios momentos, ele no compreendeu que o travesseiro macio no qual sua cabea estava deitada pesadamente eram os seios de Kyla. No at ele levantar 
a cabea e olhar para ela. Ento baixou o rosto e, com o nariz, empurrou a camisa que ela havia tornado a amarrar na cintura antes da viagem para casa. Ele a tocou 
com seus lbios.
       Voc tem cheiro de sol.  Ele enfiou o nariz no vale entre os seios de Kyla.  Adoro o cheiro do sol.
      Trevor se mexeu de modo a fazer suas coxas repousarem entre as dela num encaixe aconchegante. Se registrou que Kyla estava com os braos estendidos lateralmente 
ao corpo e com as palmas voltadas para cima numa atitude de rendio, no comentou. Apenas alterou a posio das mos de Kyla para que elas repousassem acima de 
sua cabea; e ento, com o dedo indicador, tracejou a parte interna do brao de Kyla da palma s axilas, como se estivesse desenhando uma trilha para ser seguida 
por suas veias.
       Se o sol tivesse gosto, seria tambm como o seu.  A boca de Trevor se moveu sobre os seios de Kyla, abrindo e fechando como se estivessem dando mordidas. 
Animado com o que estava fazendo, empreendeu uma tentativa selvagem de desatar o n da camisa de Kyla. Quando finalmente conseguiu desfaz-lo, empurrou para os lados 
as fraldas da camisa e atacou p fecho frontal do biquni dela.
        Quando Kyla estava nua debaixo dele, Trevor sussurrou:
       Senhor Todo-Poderoso, voc  linda.
      Ele a tocou reverentemente, as pontas dos dedos roando a carne macia. Ele agiu sem pressa e no pediu desculpas. Como se estivesse convencido de que ela era 
apenas outro sonho. Um dos muitos que ele tinha com Kyla. Mas Deus, este parecia real!
       Ele tomou um seio em cada mo e os remodelou com movimentos de seus dedos. Tomando um mamilo entre o polegar e o indicador, beliscou-o de leve, e ento baixou 
a cabea e o enclausurou com a boca.
      Os sons que ele fazia eram os de um homem faminto que acabara de encontrar sustento. Ele sugou ambos os seios. Ele esfregou seu lbio coberto de pelos sobre 
os mamilos, que agora estavam lustrosos por causa dos beijos. Com a pontinha da lngua, brincou com os mamilos, tentando fazer com que encolhessem, com que endurecessem. 
E conseguiu.
      Estava vagamente cnscio dos movimentos coleantes abaixo dele, falado ao seu corpo numa linguagem que ele entenderia sem precisar de qualquer traduo.
      Usando os braos como apoio, ele se ergueu e abriu os shorts dela. Com preciso cirrgica, sua mo enfiou-se entre os shorts e a pea inferior do biquni, 
ainda mida. Ele cobriu o delta, que coube com perfeio na palma de sua mo. Ele o esfregou, pressionando, deleitando-se com a l macia que o cobria. Seus dedos 
se curvaram sobre os doces mistrios que residiam abaixo.
      O gemido de Trevor comeou no fundo de sua alma e ecoou por todo seu corpo.
       Voc est molhada para mim.
      Apaixonadamente, ele beijou a garganta da qual um som arfante se levantava, e introduziu os dedos na fonte daquele calor mido.
      A respirao de Trevor estava entrecortada, arfante. Ou seria a de Kyla? Ele no tinha certeza. Ele resolveu o enigma lacrando sua boca sobre a dela e beijando-a 
at nenhum dos dois poder mais respirar. Com a lngua, buscou pelo pescoo de Kyla.
      Os shorts de Kyla saram com facilidade. A pea do biquni exigiu mais pacincia e percia, qualidades que j o haviam desertado quando ele os puxou violentamente 
sobre os tornozelos de Kyla. Frustrado e desajeitado, ele se libertou de suas prprias roupas.
      Deus, como a pele dela estava fresca! E a dele quente demais.
      O corpo de Kyla o aceitou. Ele afundou em sua feminilidade sedosa e mida, e estremeceu com prazer. Envolvido pela bainha quente e cremosa, decidiu que jamais 
experimentara uma to deliciosa.
      A boca de Trevor procurou pela orelha de Kyla.
       Eu esperei por isto por tempo demais. Eu queria... Mas  muito melhor... Voc ... meu amor...
      Pondo as mos por baixo dos quadris de Kyla, Trevor levantou-a para si e se moveu com estocadas rpidas e certeiras. O corpo de Kyla comeou a tremer em torno 
do dele. Os seios sob sua boca estremeceram e o mamilo contra sua lngua perolou num boto duro e redondo.
      E no instante em que sentiu o prazer de Kyla derramar-se nele, Trevor jorrou o seu.
      
      Huntsville, Alabama
       Nunca mais vou me mudar de novo. Vamos viver aqui pelo resto de nossas vidas.
       Por mim tudo bem  disse, cansado, o homem.  Que forma de passar o Dia do Trabalho. Trabalhando!
       Mas arrumamos tudo. Finalmente. Tudo menos aquela caixa na qual voc guardou todas suas tralhas de fuzileiro.
       Para voc pode ser tralha, mas algumas daquelas coisas significam muito para mim.
      Ela acariciou a mo dele.
       Eu sei. S estava brincando. Por falar nisso, voc mandou aquela foto para a viva do sujeito? Stroud, certo?
       Sim, e no, no mandei. Farei isso amanh.  Franziu a testa.  Mas no sei como encontr-la.
       Por que no manda para os Fuzileiros Navais? Tenho certeza de que eles vo encaminhar para ela.
       Boa idia.  Ele se levantou e ofereceu sua mo para ajud-la a se levantar.  Vamos para a cama. Estou exausto. Mas no me deixe esquecer de achar aquela 
foto e mand-la amanh  acrescentou enquanto apagava a luz.
      
      
      
     Captulo Treze
      
      
      
      Ela levou um momento para lembrar por que estava dormindo no cho. Sem travesseiro, cobertor, ou qualquer coisa para aliviar seu desconforto, ela dormira um 
sono sem sonhos pela primeira vez em semanas.
      Movendo nada alm dos olhos, olhou atravs das portas de vidro e viu que ainda era cedo. Hesitante, esticou as pernas atormentadas por cimbras e tentou se 
sentar. Os dedos dele estavam emaranhados nos seus cabelos.
      Ela precisou puxar gentilmente, mas finalmente se libertou. Pegou seus shorts descartados e caminhou na ponta dos ps at o corredor. No caminho at o quarto 
de Aaron, recolocou o suti do biquni, cujas taas haviam passado a noite torcidas abaixo de seus braos.
      Aaron ainda estava dormindo e no demonstrava qualquer sinal de que iria acordar logo. Seu dia anterior fora exaustivo. Kyla estava grata por isso. Neste momento, 
ela precisava pensar e no queria distraes.
      Puxou seus shorts at a cintura e refez o caminho pela casa. Trevor ainda estava na mesma posio, deitado no cho diante do sof da sala de estar. Ele no 
estava roncando, mas sua respirao era profunda e estvel. Kyla escapuliu sem acord-lo.
      Ela tirou uma toalha da pilha que mantinham no armrio perto da banheira de hidromassagem, e foi caminhar pelo bosque em direo ao crrego. A manh estava 
parada. O novo sol ainda no penetrara os galhos densos das rvores. A grama estava fria e mida sob seus ps nus.
      O crrego flua languidamente. Um aguaceiro recente o havia enchido. Mesmo assim estava calmo e provinha um excelente campo de procriao para camares de 
gua doce. Aaron batera palmas de alegria ao v-los quando Trevor... Trevor.
      O nome ecoou por sua mente, erradicando todos os outros pensamentos. Suspirando, Kyla estendeu sua toalha na grama alta perto da margem do crrego, e se sentou. 
Trouxe os joelhos para junto do peito, e pousou o queixo neles.
      Havia acontecido
      Ela fechou os olhos enquanto os tremores de prazer ecoavam por sua memria. Pressionando a fronte contra os joelhos, tentou no lembrar da forma esplendorosa 
como ele fazia sexo, mas no adiantou. Seu crebro poderia no querer lembrar, mas o corpo tremia a cada recordao.
      Por que ela no resistira? Poderia t-lo feito. Ele bebera demais. Quando ele caiu sobre ela, Kyla poderia t-lo empurrado e ele provavelmente no teria notado 
a diferena. Por que no fizera isso?
      Porque eu queria fazer amor com ele.
      Pronto. Ela havia admitido.
      Ela levantou a cabea e olhou para o crrego como se esperando que ele conversasse com ela. O crrego prosseguiu despreocupadamente seu curso em direo a 
um terreno mais baixo.
      Kyla queria que ele fizesse amor com ela desde o beijo depois do jogo de beisebol. Aquele beijo tinha sido decisivo. Mesmo agora, ela podia lembrar com exatido 
de sua aparncia enquanto corria at ela, capengando mais que o normal devido ao esforo exigido pelo jogo.
      Seu sorriso largo reluzira por baixo do bigode. Mechas de cabelos negros, midas de suor, estavam grudadas em sua testa. A cintura de suas bermudas estava 
mida com suor e ligeiramente baixa, expondo o umbigo. As pernas, mesmo a esquerda coberta de cicatrizes, eram ricas em msculos protuberantes que retesavam e relaxavam 
enquanto ele caminhava at ela.
      Nunca em sua vida ela vira um homem to msculo. Trevor era a eptome do macho, e tudo dentro dela que era mulher gravitava em direo a ele, como o crrego 
flua para o lago.
      O beijo que ele pressionara em sua boca fora salgado, selvagem. O suor em seu peito parecera grud-la a ele. Quando sentira sua mos, poderosas e msculas, 
ancorando-a contra sua virilidade despertada, Kyla soubera que o queria. Ela iria se entregar a Trevor, mas no apenas para satisfazer o desejo dele; iria entregar-se 
para satisfazer o seu.
      Mais tarde, quando ele comeara a beijar-lhe os seios, ela desejara com todas suas foras que nada os interrompesse desta vez.
      Chame de pecado.
      Chame de infidelidade a Richard.
      Chame do que quiser, mas ela desejara sentir Trevor Rule dentro dela.
       Kyla?
      Ela deu um pulo e girou abruptamente. Trevor estava de p atrs dela, usando apenas bermudas, a sombra de uma barba, e uma expresso cautelosa.
       Oi.
       Est se sentindo bem?
      Ela voltou a olhar para o crrego, encontrando dificuldade em fitar Trevor depois da noite anterior. Seu peito doa com o esforo de respirar.
       Sim, estou bem. Acordei cedo e a manh estava to bonita... Aaron acordou?
       Quando sa, no tinha acordado ainda.
       Acho que o dia de ontem deixou ele modo.
       Acho que sim.
      Ele se acocorou ao lado e ligeiramente atrs dela. Ele puxou tufos de grama, examinou-os, e ento espalhou as folhas de volta no cho.
       A que horas voc vai sair para trabalhar?
       No vou. Babs e eu trocamos. Sbado passado por hoje. Foi por isso que no estava com pressa de acordar Aaron.
      Ele agradeceu a informao com um leve meneio de cabea e se levantou de novo. Sentia-se inquieto. Nenhum deles estava tendo coragem de falar o assunto mais 
importante que havia em suas cabeas.
      Com o canto do olho, Kyla o viu caminhar at uma rvore. Ele parou. Ele se virou e olhou para ela. Quando finalmente chegou at a rvore, ele levantou os braos 
at um dos galhos mais baixos, ligeiramente acima dele. Apoiou-se na casca de rvore spera e baixou a cabea para olhar para o cho.
      Ela deitou a cabea e rezou para que alguma coisa quebrasse o silncio.
       Kyla, a noite passada aconteceu mesmo?
      Como ela sempre havia achado, Deus tinha senso de humor. Cuidado com as coisas pelas quais voc reza.
      Ela olhou na direo de Trevor. Ele agora estava arrancando pedacinhos de casca de rvore com as unhas e jogando-os na gua.
       Voc no lembra?
       Eu lembro de um sonho ertico incrvel...  Ele respirou fundo.  ...ou da melhor coisa que j me aconteceu.
      Kyla olhou para ele rapidamente, golpeando os ombros com cabelos dourado-avermelhados. Ele viu as lgrimas nos olhos dela. Um espasmo de arrependimento monumental 
contorceu as feies de Trevor.
       Meu Deus!  exclamou Trevor.  Eu sinto muito.
       Est tudo bem.
       Uma ova que est.
        verdade, est tudo bem.
       Eu estava bbado.
       Voc estava relaxado.
       Machuquei voc?
       No.
       Forcei voc?
       No.
       Fiz alguma coisa que voc no tenha gostado?
       No.
       Porque eu jamais poderia me perdoar...
       Trevor, eu queria!
      Ento os 101 pedidos de desculpa que ele catalogara na mente morreram em seus lbios.
       Voc queria?
       Sim.  Ele respirou fundo e comeou a catar a mesma grama que ele havia desenraizado.  Tenho pensado.
       Sobre o qu?
       Se voc gostaria... se voc gostaria de ter outros filhos, alm de Aaron, quero dizer. Alguns, pelo menos um, que seja realmente seu. Seria injusto para 
mim... impedir...
      Os lbios de Kyla foram calados por um dedo longo e bronzeado que se deitou sobre eles. Ela no podia mais evitar aquele olho penetrante. Ele apontava direto 
para sua mente.
       Eu gostaria de ter pelo menos um filho meu. E fico agradecido pela oferta. Mas foi s por causa disso que voc fez amor comigo?
       No  sussurrou ela, balanando a cabea.  Eu apenas no sabia o que mais dizer.
       Por que voc quis fazer amor comigo bbado e estpido, como tenho certeza de que fui?
      Ela voltou a face para a palma que provera um apoio para ela. Seus olhos se fecharam e duas das lgrimas que ela reunira nos olhos rolaram por sua face. Mas 
quando ela abriu os olhos, estava sorrindo.
       Voc no foi bbado nem estpido.
       No precisa mentir para mim.
      Rindo, ela estendeu a mo e tocou os cabelos dele afetuosamente.
       Voc se comportou do mesmo jeito de sempre. O jeito que se comporta desde que o conheci.
       Qual jeito?
       Gentil, generoso, divertido de estar por perto.
       Por favor, pare. Vai me deixar vermelho de vergonha. Mas voc est descrevendo a mim ou a Papai Noel?  Ele assumiu a expresso pattica de um menininho 
pedindo por mais doce.  No tenho nenhum atributo de natureza mais romntica?
      A gargalhada dela foi to cintilante quanto a gua do crrego sob o sol.
       Est precisando de uma massagem de ego?
       Para incio de conversa.
      Ela lanou um olhar tmido para ele, mas continuou fazendo o jogo.
       Muito bem. O que voc quer ouvir? Que voc  lindo de morrer? Que a minha melhor amiga acha que voc  um pedao de mau caminho, mas um bom pedao de mau 
caminho, o que  raro?
       Sua melhor amiga? Como ela entrou nesta histria? Quero saber o que voc pensa.
       Todas as alternativas acima  confessou Kyla numa voz rascante.
       Tem mais?  O nariz dele se perdeu nos cachos acima da orelha de Kyla.
       Voc vai me fazer admitir que a mera viso do seu corpo ateia fogo no meu sangue?
       Gostei disso.
      Kyla curvou a cabea para trs quando os lbios de Trevor encontraram sua garganta.
       Voc  incrivelmente bonito, sexy, e...  Ela mordeu o lbio inferior.
       E?  instigou ele, levantando a cabea para v-la.
       E...  acrescentou lentamente.  E... estou muito feliz por ter casado com voc.
      Trevor invocou uma divindade, se em prece ou em vo, Kyla jamais saberia. Ele aplicou uma presso levssima no ombro dela e ela se deitou na toalha. Ele a 
seguiu para o cho, parcialmente cobrindo-lhe o corpo com o seu.
       Eu te amo, Kyla Rule.
      Eles se abraaram. Suas pernas nuas se entrelaaram. O que seus corpos haviam feito horas antes, agora suas bocas reencenaram.
       Vai tirar o dia de folga?  perguntou bruscamente Trevor, vrios momentos depois.
       Hum-hum.
       Ento tambm vou. Mas mesmo assim vamos acordar o Aaron, dar a comida dele, e lev-lo para a creche.
       Por qu?
      Trevor olhou para sua esposa com um sorriso malicioso que fez o corao de Kyla flutuar, e suas coxas se liquefazerem.
       Porque quero passar o dia inteiro na cama transando com a minha esposa.
      
       ...sim... sim...
       Gosta disso?
       Sim!
       Sinto medo de te machucar quando pressiono muito fundo.
       No... ... ah... Trevor... sim...
       Querida... Kyla... Eu no posso... Mais quanto tempo?...
       Ainda no. Quero que isto dure para sempre.
       Eu tambm, mas...
       Agora, agora, agora...
      
       Voc  to linda.
       Voc faz com que me sinta linda. E safada.
       Safada?
       Nunca me puseram sentada na frente de um espelho para eu ser admirada.  decadente, no ?
       Puramente. Mas desta forma eu consigo ver voc inteira ao mesmo tempo. Levante os braos.
       Como? Deste jeito?
       Perfeito. Voc amamentou Aaron?
       Durante algum tempo. Por qu?
       S estava pensando. Os seus seios so belssimos. Eu disse alguma coisa errada?
       No,  que apenas...
       O qu?
       Algumas das coisas que voc diz me embaraam.
       No fique embaraada. Eu te amo. Incomoda-se que eu a toque deste jeito?
       Se me incomoda? Claro que no, eu... ah...
       Oh, Deus, olhe para voc. Eu mal a toco e...
       Voc sabe como me tocar... como...
       Voc tem gosto de leite.
       Use seu bigode.
       Leite, leite doce...
       E a sua lngua...
       Voc tem gosto de Kyla.
      
       Ento no diga que  feio.
       Todo homem deveria ter um lado esquerdo com uma pista de corrida escavada nele.
       As cicatrizes no doem?
       No.
       Nunca?
       Bem, de vez em quando.
       Por que esta se curva desde a sua espinha at o seu esterno?
       Neste momento estou feliz por ela estar a.
       Feliz?
       Sim. Porque adoro sentir os seus lbios no meu peito.
       Eu o beijaria mesmo sem a cicatriz.
       Beijaria mesmo, querida?
       Sim. J tem muito tempo que quero beijar seu peito.
       Isso no  mais o meu peito.  o meu umbigo.
        perto.
       Falando de perto... Hummm, queri...
       Voc me desviou do assunto. Por que elas gostam voc desse jeito?
       Tive hemorragia interna em vrios rgos.
       Meu Deus!
       Tudo bem. Apenas continue o que voc est fazendo que nem vou me lembrar mais disso.
       Assim?
       Oh, querida, como isso  bom. Kyla... Kyla... Oh, querida, oh...  a primeira vez que voc me toca a.
       A primeira vez que te vi...
       Sim?
       Quando voc saiu daquela banheira...
       Sim?
       Voc tirou meu flego.
       Agora voc est tirando o meu... Do jeito como me est tocando...
      
       ...mas EU disse para a Babs que de jeito nenhum ia entrar no nibus com o time de futebol.
       Voc era uma boa menina.
       Era uma covarde, sempre com medo de me meter em encrencas. Ento voltei para casa com a banda, que era o nosso lugar.
       E a Babs?
       Como voc achou esse montinho de sardas?
       Apenas sorte, acho.
        a minha marca de nascena.
       Sim. Agora me conte sobre a Babs.
       Bem, quando voltamos para a escola, ela saltou do nibus com um cara que antes ela chamava de "alce feio". Ela estava com uma... sei l... uma expresso... 
e eu entendi o que tinha acontecido. Foi assim que soube que ela e eu ramos diferentes. Eu no podia simplesmente fazer sexo por fazer sexo.
       Droga. Tem certeza disso?
       Pare, Trevor, pare agora. Achei que a gente ia conversar.
       Ento pare de ficar deitada a to sedutora. Tudo bem, desculpe. Vamos conversar.
       Esqueci do que estvamos falando.
       Voc era virgem quando se casou?
       Da primeira ou da segunda vez?
       Muito engraado. Responda  pergunta.
       No era disso que estvamos falando.
       Voc tem razo. Desculpe ter perguntado. No  da minha conta.
       Sim, eu era virgem.
       Voc quase parece envergonhada disso.
       Tenho medo que voc perca a atrao por mim por causa da minha falta de experincia.
       Eu estaria fazendo isto se no sentisse atrao por voc?
       No sei do que gosto mais: do que voc est fazendo ou a expresso no seu rosto enquanto faz.
       Veja como enrosca em torno dos meus dedos.  uma cor to bonita. E macia. E isto tambm.
       Trevor... o que?...
       Relaxe.
       Mas o qu... No!
       Eu quero.
       No, eu...
       Por favor, Kyla, me deixe amar voc.
       Mas... oh, meu Deus... Trevor?...
       Sim, meu amor, sim. Voc  deliciosa.
      
       Pare, por favor. No vou agentar. Minhas costelas esto doendo.
       Mais uma. Esta  sobre um homem que entra numa loja de animais para comprar um papagaio.
       Trevor, estou falando srio. No quero mais ouvir suas piadas obscenas.
       Voc estava rindo.
        isso que estou dizendo. Eu sou uma dama.
       Como pode fingir ser uma dama enquanto est montada no meu colo e estou mordiscando os seus mamilos?
       Trevor!
       Ai, querida. Fique parada ou vai me deixar ainda mais aleijado do que j sou. Por outro lado, pode se remexer. Eu adoro ver eles balanarem.
       Voc  obsceno.
       Espere s at ouvir a piada do papagaio.
       No tem nada que pare voc?
       No. Agora seja uma boa esposa e escute. Um cara entra na loja de animais e... Kyla, pensei que tinha mandado voc ficar parada. O cara entra na loja de 
animais e o dono diz, eu tenho um papagaio incrvel. "Ele fala?", pergunta o homem. Kyla, voc est pedindo por confuso. Agora pare com isso. "Claro que ele sabe 
falar", diz o dono da loja, "mas tem um problema". Kyla, estou te avisando. "Qual  o problema?", pergunta o cara. "O papagaio sabe falar, mas ele no tem ps." 
Kyla... Ento o cara diz, "Ento como ele fica no poleiro?" E o dono da loja diz... Ah, que se dane.
       Essa  a piada?
       No, mas pensei num desfecho melhor.
      
      
       Essa foi a pior parte de aceitar. No havia nada que os fuzileiros pudessem me mandar. Nenhuma lembrana. Nada. Era como se ele no tivesse existido. Foi 
muito difcil para mim. No havia nem o bastante dele para encher um caixo.  No, no, meu bem.
       Ele merecia uma morte melhor. E lidar com os militares foi frustrante. Eles no podiam ou no nos diziam nada por motivos de segurana. Os detalhes eram 
superficiais.
       Por exemplo?
       Richard nem estava no seu prprio beliche naquela manh. Por que? Por que nenhum pertence dele sobreviveu  exploso? Eu queria alguma coisa tangvel, alguma 
coisa dele na qual eu pudesse colocar a mo. Uma lmina de barbear. Um relgio de pulso. Qualquer coisa.
       Calma, calma. Se isso perturba voc,  melhor no falarmos mais nisso.
       No  to doloroso quanto parece. Na verdade falar sobre isso me faz bem. E  muita gentileza sua me ouvir.
       Eu te amo, Kyla. Precisvamos falar sobre Richard. Eu queria que ns dois tivssemos a liberdade de falar o nome dele em voz alta.
       Eu te amo, Trevor.
       Eu sei.
       E voc sabe que eu te amo? Eu achava que no seria capaz de amar outro homem, mas eu te amo. Acabo de compreender isso. Eu te amo! Trevor, voc est chorando?
       Eu te amo tanto, Kyla.
       Voc nunca vai me abandonar, vai?
       No tem a menor chance.  Jure.
       Jamais vou te abandonar.
      
       Mal posso acreditar que est chovendo.
        s uma chuva da tarde. Vai passar logo. Ento vamos nos vestir e sair para pegar o Aaron.
       Ainda no. Vamos aproveitar a chuva.
       Uma chuva no  divertida se voc no tem com quem dividi-la.
       Como voc faz isso?
       O qu?
       L a minha mente.
       Eu leio?
       Desde o comeo, voc sempre pareceu saber o que eu estava pensando. Como?
       Porque eu te amo.
       Sim, mas...
       Vire-se Kyla.
       Eu no entendo como voc...
       Vamos fazer amor mais uma vez antes de irmos pegar Aaron ou no?
       Hum, Trevor, no  justo. Voc sabe que eu me derreto toda quando voc mc toca a.
       Onde? Aqui?
       Sim, sim.
       E quando te beijo ali?
       Eu morro um pouco.
       Ento me beije ao mesmo tempo e vamos morrer um pouco juntos.
      
      Huntsville, Alabama
      Uma carta foi enviada.
      Cantarolando, Kyla verificou o assado. At Meg Powers teria ficado orgulhosa dele. Kyla recolocou a tampa na assadeira e desligou o forno. A assadeira manteria 
a carne quente at Trevor e Aaron terem voltado. Trevor fora fazer compras e levara o menino, deixando Kyla em casa para preparar o jantar, tarefa que ela agora 
adorava.
      Na verdade, ela adorava praticamente tudo que fazia ultimamente. Nas ltimas trs semanas, desde o Dia do Trabalho e da noite seguinte, ela vivia numa bolha 
de felicidade.
       Uns dias de folga certamente fizeram maravilhas por voc!  exclamara Babs no dia quem que Kyla voltara para trabalhar depois do feriado.  Voc est brilhando 
que nem uma moeda nova. E aposto que ficou com esse brilho depois que o Trevor te deu uma boa polida.
      A piada de mau gosto fizera Kyla dar uma gargalhada gostosa.
       Voc tem razo. Estou apaixonada.
       Bem, isso  contagioso, porque Trevor j ligou duas vezes para saber se voc tinha chegado, e ele disse para te dar um beijo por ele, o que me recusei a 
fazer. O que aconteceu com vocs dois?
       Nada  mentiu Kyla, enquanto pegava o telefone para ligar de volta para Trevor. Fazia mais de meia hora que ela no o via.
       Aposto que vocs andaram alugando vdeos porn.
       No.
       Voc encomendou aquele kit de acessrios sexuais que te mostrei na Playgirl? O que o Trevor achou das calcinhas comestveis?
       Pare com isso, Babs!  dissera Kyla, rindo.  No fiz nada disso.  Ento ela disse ao telefone:  Oi, querido. Voc ligou?
       Voc est tomando plulas de ginseng?  insistira Babs.  Servindo ostras na meia concha para ele todas as noites?
       No! Desculpe, Trevor. Babs s queria saber se estou te servindo ostras na meia concha todas as noites... O qu?... No, eu no posso dizer isso a ela... 
No... Oh, est bem. Babs, o Trevor mandou dizer para voc que se ele estivesse comendo ostras na meia concha todas as noites, ns teramos de comprar um novo colcho. 
Agora fique quieta, por favor. Eu te disse que estou apaixonada e que quero falar com o meu marido.
      E estou apaixonada, pensou agora Kyla enquanto atravessava alegremente a sala de estar, catando os brinquedos que Aaron deixara em seu rastro. Notando as cartas 
no abertas na mesa do vestbulo, levou-as para a cozinha em sua viagem de volta. Sentou-se numa banqueta do bar olh-las, e assim passar o tempo at que seus homens 
voltassem para casa.
      Um envelope em particular chamou sua ateno. Era dos Fuzileiros Navais. Rasgando-o, encontrou outro envelope dentro, este com o carimbo de Favor Encaminhar. 
O nome impresso no canto superior esquerdo atiou a sua memria, mas ela no se lembrou dele at ter notado o endereo de devoluo. Huntsville, Alabama. Um dos 
amigos de Richard no morara em Huntsville, Alabama? Curiosa, ela abriu esse segundo envelope e retirou uma folha de papel de carta branco. Uma fotografia caiu no 
bar.
      A carta era curta. Ela apresentava o remetente, que expressava condolncias pela morte de Richard. Explicava que o remetente recentemente havia encontrado 
a fotografia e pensado que Kyla poderia gostar de t-la. Terminava com sinceros desejos de felicidade futura.
      Deixando a carta de lado, ela pegou a fotografia. Sorrindo para ela do centro de um trio de fuzileiros estava Richard Stroud. Ele parecia exatamente como ela 
lembrava dele. Estava usando um corte de cabelo militar, alto sobre as orelhas e curto no topo. Estava totalmente uniformizado, mas havia um sorriso em seu rosto, 
como se algum tivesse dito uma coisa excepcionalmente engraada um instante antes da foto ser batida. As lentes tinham capturado o sorriso doce e espontneo de 
Richard.
      Ele estava de p entre dois outros fuzileiros. Seus braos estavam repousando nos ombros uns dos outros. O remetente da fotografia fizera o favor de colocar 
uma legenda para Kyla. Ele havia identificado a si prprio como o homem  direita de Richard. Ele tinha rosto franco, sorriso largo, e orelhas grandes. Ningum hesitaria 
em comprar um carro de um homem com uma cara to honesta.
      Os olhos de Kyla deslizaram para o outro lado da foto. "Beijoca" fora escrito sob o homem  esquerda. Todo mundo pensaria duas vezes antes de comprar um carro 
dele.
      Poderia algum to bonito ser merecedor de confiana? Ele tinha o sorriso de um crocodilo faminto, um sorriso branco brilhante que atravessava seu rosto bronzeado. 
Olhos verdes traquinas viam o mundo atravs de clios negros pontudos. Ele parecia prestes a piscar, e Kyla teve a sensao de que ele fizera o comentrio engraado 
do qual os outros dois homens estavam rindo. O sorriso de Beijoca era convencido e arrogante.
      E familiar.
      Era o sorriso de seu marido.
      No podia haver erro. Mesmo com o corte de cabelo reco de um fuzileiro, sem o tapa-olho, sem o bigode curvo, no havia engano naquele sorriso.
      Kyla deixou cair a fotografia como se ela tivesse lhe queimado os dedos. Ela olhou para a foto onde cara, no tampo do bar, mas no teve coragem de toc-la 
novamente.
      Tinha de haver uma explicao lgica. Richard e Trevor de braos dados? Trevor um fuzileiro? Como uma foto de Trevor fora legendada como "Beijoca", um apelido 
do qual ela lembrava bem das cartas que Richard lhe mandara do Egito?
      Beijoca era o mulherengo. O playboy desavergonhado. O amigo de Richard que ela sabia que iria odiar caso um dia se conhecessem.
      E estava casada com ele.
      As implicaes associadas com isso envolveram-na como um enxame de abelhas assassinas. Ela cobriu a cabea. Ela mordeu o lbio inferior para conter o soluo 
que subia de seu peito. Ela se forou a engolir a bile que subitamente encheu o fundo de sua garganta.
      Tinha de haver alguma explicao. Claro que havia. Trevor iria chegar, ver a foto e dizer alguma coisa como, "Rapaz, que coisa estranha. Est vendo como esse 
sujeito se parece tanto comigo?" Ou, "Dizem que todo mundo no mundo tem um gmeo. Acho que Beijoca  o meu." Ou, " surpreendente os truques que eles conseguem fazer 
com fotografia hoje em dia.
      Tinha de ser um erro.
      Mas no havia erro nenhum e ela sabia disso.
      Ela ouviu a picape de Trevor entrar no caminho de acesso da casa. Ela estava com as entranhas rolando, o sangue fervendo, e a cabea latejando, mas por fora 
ela parecia imvel como uma escultura.
       Antes que voc fique com raiva  comeou Trevor no momento em que passou pela porta , Aaron e eu fizemos uma votao e decidimos por unanimidade que no 
estava to perto assim da hora do jantar para eu no poder lhe dar um biscoito. Assim abrimos o pacote na vinda para c.  por causa disso que a camisa dele... Qual 
 o problema?  Ele havia olhado para ela e notado a expresso furiosa.  Kyla?
      Ele se moveu at ela, e quando alcanou o bar, viu a foto. Ele murmurou um palavro e girou nos calcanhares. Recitando um dicionrio de pragas, ele caminhou 
at a janela. Diante dela, curvou os ombros e enfiou as mos, palmas para fora, nos bolsos traseiros das calas jeans.
       Venha aqui, Aaron.  Com muito mais compostura do que sentia, Kyla pegou seu filho no colo. Ela sentia vontade de gritar at no poder respirar mais, de 
bater a cabea na parede. De bater a cabea de Trevor.
      Levantando Aaron at a pia, ela lavou o rosto e as mos do menino, ento pousou-o no cho da cozinha e cercou-o com xcaras de medida de plstico colorido, 
que estavam entre as coisas com as quais ele mais gostava de brincar.
      Finalmente retomou para o bar, pegou a fotografia e a estudou por um momento antes de dizer:
       Voc saiu bem na foto.
      Trevor virou-se lentamente, girando sobre os calcanhares de suas botas de caubi, que Kyla sabia agora serem to falsas e afetadas quanto tudo mais nele.
       Ento agora voc sabe.
       Sim eu sei.  verdade o que dizem, no ? Os clichs sempre tm um elemento de verdade neles. A esposa  sempre a ltima a saber.
       Eu ia lhe contar.
       Quando, Trevor? Quando? Quando estivssemos velhos e grisalhos? Quando eu estivesse fraca demais para odiar voc com cada fibra do meu ser, como odeio agora?
       A mim ou o que eu fiz?
       As duas coisas! Eu no agento nem olhar para a sua cara. Beijoca!
      Ela pronunciou o nome como se fosse o epteto mais odioso. Ele estremeceu.
       Eu sabia como voc se sentia sobre o Beijoca. Foi por causa disso que nunca me apresentei diretamente a voc.
      Ela riu, um pouco histrica.
       Beijoca. Eu me casei com Beijoca, um homem conhecido por suas conquistas sexuais. Um homem que corre atrs de qualquer rabo de saia porque no escuro todos 
os gatos so pardos.
       Kyla...
       Voc no disse isso uma vez ao Richard?
       Sim, mas foi antes...
       Eu no quero ouvir!  gritou ela, cortando o ar com as mos.  No quero ouvir nenhuma explicao de voc. Pensando bem, quero ouvir uma: Por que voc fez 
isto? Qual foi o seu propsito? Que jogo doente voc estava fazendo?
       No  um jogo.  Suas palavras racionais contrastavam com seu tom de voz esganiado.  Nunca foi o jogo. Desde o comeo, no foi um jogo.
      Ela refreou sua raiva e respirou fundo vrias vezes.
       E quando foi isso? Presumo que nosso encontro no tenha sido acidental.
       No foi.
       Ento, quando isto comeou?
       Quando acordei num hospital na Alemanha Ocidental e descobri que estava vivo. Sem um olho, ferido quase sem possibilidades de recuperao, mas vivo.
       O que isso teve a ver comigo? Ele deu um passo at ela.
       Voc quer saber por que Richard no estava dormindo em seu beliche.  Ela assentiu positivamente, embora a pergunta no tivesse sido realmente formulada. 
 Cheguei bbado na noite anterior ao atentado  embaixada. Richard me ajudou a tirar a roupa para dormir. Eu mal lembro do que aconteceu. Mas lembro de ter cado 
no beliche dele. Richard estava dormindo no meu beliche quando a bomba explodiu.
      Uma das mos voou de Kyla voou para sua boca, a outra agarrou seu estmago. Lgrimas formaram-se em seus olhos.
       Exatamente o que acho  disse Trevor.  Quando entendi que Richard tinha morrido no meu lugar, passei a no me importar mais se vivia ou morria.  Ele desviou 
o olhar, aliviando toda a dor, literalmente sentindo-a atormentar seu corpo novamente, reduzindo-o, tornando-o menos que um homem.  Mas sobrevivi. Com a ajuda de 
um enfermeiro que se tornou meu amigo, descobri a respeito de voc e de Aaron. Quando estava me sentindo bem o bastante para sair do hospital, vim procurar voc.
      Kyla cruzou os braos sobre o estmago. Ela caminhou ao longo do bar, abraada a si mesma, o corpo balanando levemente da cintura para cima, como se dores 
excruciantes dilacerassem suas entranhas.
      Quando se virou para fitar Trevor, ela gritou:
       Na minha opinio, voc levou seu dever militar longe demais. Voc foi acima e alm do chamado. No quero um marido que se casou comigo movido pelo senso 
do dever, muito obrigada!
      A voz de Kyla saiu to alta e estridente que Aaron parou de bater os copos de plstico no cho e olhou para ela. O lbio inferior do menino comeou a tremer.
       Ma-m.
      Arrancada de um poo de humilhao pelo som trmulo da voz de seu filho, Kyla ajoelhou ao lado dele e acariciou a sua cabea.
       Est tudo bem, querido. Brinque com seus copos. Est vendo? Upa-l-l. Eles caem. Empilhe eles de volta para a mame.
      Temporariamente acalmado, Aaron voltou a brincar. Kyla olhou novamente para Trevor. O rosto dele estava quase to ptreo quanto o seu. Os lbios praticamente 
no se mexiam.
       No  assim.
       Ento me diga como   rosnou Kyla.  Me diga o que o motivou a me seduzir a...
       Casar, Kyla  disse ele com nfase furiosa.  A seduzi para casar comigo. Isso  to desonroso?
       , porque foi tudo uma cilada. No acredito que fui boba a ponto de cair nela, de me apaixonar por voc. O seu cavalheirismo, a sua preocupao com Aaron, 
a sua atrao instantnea por mim, o seu... o seu... tudo. O seu maldito carro conservador! Parece que voc decorou o livro Como Ser O Segundo Marido dos Sonhos 
de Uma Viva! Por que se deu a tanto trabalho? O que o motivou a fazer isso?
       Eu amo voc.
      Ela estendeu os braos  frente, como se o estivesse afugentando.
       No... no ouse fazer jogos de palavras comigo.  Ela virtualmente cuspiu as palavras porque no queria alarmar Aaron novamente com sua voz alta.
       No estou fazendo jogo nenhum, Kyla. Eu estava e estou apaixonado por voc.
       Isso  impossvel.
      Ele balanou a cabea, terminantemente.
       H uma parte essencial desta histria que voc ainda no conhece.
       Ento por favor me conte.
       As suas cartas.
      Ela caiu em silncio, aturdida com o que ele acabara de dizer.
       Minhas cartas?
       As suas cartas para Richard.
      Ela afundou na banqueta enquanto fitava o homem que havia se convertido de um marido amvel para novamente um estranho. Acontecera to depressa. Ver a foto 
dele havia puxado o tapete de baixo de seus ps. Agora ela teve a impresso de que o cho havia se aberto. Quando ela chegaria ao fundo?
       Voc leu as cartas?  perguntou ela com uma inflexo que claramente indicava que considerava aquilo o crime mais hediondo cometido at agora.
       Elas me foram encaminhadas por engano quando eu estava no hospital.  Trevor contou a ela a respeito da caixa de metal e de como ele concedera a Richard 
o favor de us-la.  Quando eles enviaram os meus pertences, aquela caixa estava entre eles. Abri a caixa e, sim, Kyla, li as cartas de amor que voc escreveu para 
o seu marido.
      Ele caminhou at o bar e cobriu as mos dela com as suas.
       No espero que voc compreenda, mas eu te juro, acredito que devo a minha vida a essas cartas. Cada palavra preciosa me fazia mais bem do que qualquer remdio, 
cirurgia ou terapia. Elas me fizeram querer viver de novo, para que eu pudesse conhecer a mulher que havia escrito as cartas. Decorei cada uma delas. Eu poderia 
recit-las palavra por palavra para voc. Elas esto gravadas na minha mente mais profundamente do que o Juramento de Lealdade ou o Pai Nosso. Elas...
       Oh, por favor. Poupe essa conversa para a sua prxima vtima.  Ela puxou as mos de baixo das dele.  Eu no quero ouvir isso. Acha que vou acreditar em 
qualquer coisa que me disser depois da forma como voc me manipulou?
       Nunca pretendi manipular voc, Kyla. 
       No? As orqudeas, a casa.  Descendo da banqueta, voltou a caminhar de um lado para outro.  Tudo. Tudo agora se encaixa. A forma como parecia ler a minha 
mente. E o tempo inteiro voc sabia. Sabia porque havia lido as minhas cartas.
       E respondia ao que voc havia dito.
       No  de admirar que tenha conseguido me manipular to bem.
       Eu estava apenas te dando o que estava em meu poder dar.
       Voc me cortejou e foi to gentil com meus pais e...  Subitamente, o corpo de Kyla se empertigou como se assumisse posio de sentido. Seus olhos castanhos 
se estreitaram quando ela o fitou.  Meus pais. Voc fez o bairro deles ser rezoneado no momento mais propcio!
      Trevor fechou e espao entre eles em trs passos longos e pousou as mos nos ombros de Kyla.
       Agora, Kyla, antes... Ela se esquivou dele.
       Voc no fez isso?
       Tudo bem. Eu fiz!  gritou de volta.
       E a venda da casa? A venda que nos deixou a todos de queixo cado porque foi feita a um preo excelente. A venda que foi fechada em tempo recorde com um 
prazo de entrega que foi exatamente o que precisvamos para fazer a cerimnia l. Voc providenciou tudo isso tambm, no foi?
      O rosto de Trevor estava franzido, empedernido, e culpado como o pecado.
       Entendo  disse ela como uma risadinha.  Bem, no  de admirar que voc se achava no direito de casar comigo e criar Aaron. Voc havia comprado e pago por 
ns.  As mos de Kyla estavam subindo e descendo por seus braos vigorosamente, como se estivessem lavando uma sensao de sujeira.
       Pare com isso. Mas que droga. Eu j disse que te amo.
       Voc no imagina como  confortante ouvir isso de um homem conhecido por seus camaradas como Beijoca.
       Esses dias acabaram.
       Sem dvida. Mas voc os terminou em grande estilo, no foi? Voc escolheu para sua conquista final uma mulher que dificilmente iria recus-lo. Uma viva 
pobre e solitria com um filho para criar. Vamos, Trevor, confesse. Voc no pensou, nessa sua mente manipuladora e ardilosa, que eu iria aceitar voc, enquanto 
outras mulheres iriam rejeit-lo por que no  mais to bonito? As vivas so mais desesperadas por um homem, no so? A pobre Kyla Stroud estaria to desesperada 
por um homem para cuidar dela, que no iria ligar para um tapa-olho, uma perna manca, e um corpo coberto de cicatrizes!
      Kyla no iria se permitir abalar pelo lampejo de emoo que cruzou o rosto de Trevor.
       Isso no  verdade.
       No ? Quando estivesse novamente seguro do seu apelo sexual, como voc planejava se livrar de Aaron e de mim? Ou voc no planejava fazer isso? Estaria 
to grata pelo que voc fazia por mim na cama, que fingiria no ver voc com outras mulheres?
      A cabea de Kyla pendeu para a frente.
       O que voc quer de mim, Kyla?
       Quero que voc me deixe em paz.  Ela pegou Aaron, abraou-o protetoramente, e marchou para a porta dos fundos.  Voc j fez coisas demais por mim, Trevor. 
Voc mentiu e manipulou o meu futuro. Voc se casou comigo por piedade e por temer que eu fosse a nica mulher que poderia am-lo agora. Mas h mais uma coisa que 
pode fazer por mim, sr. Rule. Pode sair da minha vida!
      
      
      
     Captulo Catorze
      
      
      
       Voc  uma estpida, sabia disso?
      Babs ficara sentada, ouvindo fascinada Kyla contar toda a histria feia. Kyla batera na porta de Babs uma hora antes. Dizer que ela estava abalada seria pouco. 
Aaron fora alimentado com um sanduche de queijo quente, banhado, vestido com uma das camisas de Babs, e sua fralda fora retirada de um suprimento que Babs mantinha 
na casa da amiga. Ele foi convencido de que seria muito divertido dormir na cama da tia Babs, e era l que ele estava.
      Na sala de estar do apartamento pequeno, Babs sentou no cho, pernas cruzadas, enquanto Kyla ocupava um canto do sof estreito. Havia duas taas de vinho branco 
na mesinha de centro.
      Kyla esperara que Babs compartilhasse com ela seu ultraje pela traio de Trevor, e se mostrasse disposta a pegar em armas, se isso fosse necessrio para expuls-lo 
da cidade.
       Estpida?  repetiu ela, pensando que no ouvira Babs direito.
       Estpida. Burra. Uma verdadeira... Ora, esquea  disse Babs irritada, levantando-se.  Estou indo dormir.
       Espere um minuto!  exclamou Kyla.  Voc no ouviu uma nica palavra do que eu disse?
       Ouvi cada slaba.
       E isso  tudo que tem a dizer sobre o assunto?
       Isso  tudo que vou dizer sobre o assunto. Se espera que eu fique sentada aqui ouvindo voc descascar o Trevor, ento se prepare para uma decepo.
       Mas voc no ouviu o que eu acabei...
       Sim, sim, voc me contou tudo. Sobre como ele acordou num hospital militar em solo estrangeiro, sem um olho, paralisado, sem saber se ia viver ou morrer, 
se seria capaz de engatinhar, quanto mais andar, e muito menos fazer amor ou qualquer outra coisa que um homem normal tem o privilgio de fazer. Acordou para descobrir 
que um bando de fanticos tinha mandado os amigos dele pelos ares, mas que a vida dele havia sido poupada por um milagre. Mas duvido que isso tenha abalado muito 
um sujeito insensvel como o nosso Trevor.
      Desprezo gotejava da voz de Babs como a gua da taa que ela acabara de lavar na pia da cozinha.
      Surpreendida pelo sarcasmo de Babs, Kyla disse:
       Muito bem, vou conceder que fisicamente ele passou por momentos difceis.
       Tambm no precisa exagerar, no , Kyla?
       Tudo bem, foi um inferno. Mas e quanto s cartas? As cartas que ele leu, e decorou, como um pervertido.
       O crpula! Como ele ousou fazer uma coisa dessas? Nem Van Johnson fez nada to sentimental nos seus filmes. Imagine Trevor fazendo uma coisa to horrvel. 
Imagine Trevor tendo a audcia de replanejar o seu futuro apenas para se aproximar da mulher que havia escrito aquelas cartas. Imagine ele, um homem que poderia 
ter qualquer mulher que quisesse, tendo todo aquele trabalho para conhecer voc, a alma gmea dele. E ele nem teve a decncia de te atrair para a cama antes. No, 
ele tinha de casar com voc!
       S fez isso por pena  recordou Kyla  amiga nada compreensiva.  S para me compensar pela morte de Richard, porque ele se sentia responsvel. 
       Certo, ento ele seria considerado um mrtir. Qualquer outro homem teria ido procurar voc, oferecido suas condolncias, desculpado-se humildemente por estar 
vivo enquanto o seu marido est morto, oferecido ajuda, talvez dinheiro. E ento, quando voc recusasse, ele iria embora de conscincia limpa. Mas no Trevor. Ah, 
no. T na cara que ele queria que o mundo pensasse nele como um bom samaritano. Assim, ele procurou voc, conheceu voc, casou com voc, assumiu a responsabilidade 
de criar o seu filho, comprou para voc uma casa na qual um Rockefeller no teria vergonha de receber os amigos.  Ela estalou a lngua e balanou a cabea.  Que 
crpula, que cobra. Que rato.
       Voc no acha que foi errada a forma como ele manipulou o rezoneamento para a venda da casa dos meus pais?  explodiu Kyla, furiosa.  Voc no acha obscena 
a forma como ele ajudou a empurrar a venda da casa?
       O sujeito  mesmo um calhorda!  gritou Babs, fingindo horror.  Ele cuidou de todo o trabalho sujo para que eles no precisassem se preocupar com isso. 
Conseguiu com que a propriedade fosse avaliada no preo mximo e fechou a venda, permitindo que partissem para a viagem dos sonhos deles! O homem no tem corao. 
E a forma como ele trata Aaron  positivamente repugnante. Ele no sabe que a maioria dos pais no trata seus filhos naturais dessa maneira? Se ele queria ser um 
pai de verdade para o menino, ento deveria ter usado algumas palavras rudes, demonstrado um pouco de negligncia, e muita impacincia.
       Basta, Babs. Daqui a pouco voc vai me mandar voltar de joelhos para ele.  Kyla esfregou as tmporas latejantes.  Devia ter imaginado que voc tomaria 
o partido dele.
       Tomar um partido de um monstro como ele? De jeito nenhum. Se fosse fazer isso, teria de dizer na sua cara que voc  uma jararaca egosta.
       Egosta?
       Voc no reconheceria uma coisa boa nem se ela aparecesse para voc na rua e te mordesse a bunda. Se eu estivesse tomando o partido de Trevor, eu iria te 
lembrar que algumas pessoas preferem o martrio  felicidade.
       Pare com isso!
       Sabe por qu? Porque  mais seguro. No implica em riscos. Quando voc no ama, voc no corre o risco de perder.
       Voc fica toda boba quando fala dele.  por isso que est me passando este sermo. Voc tem uma queda por ele desde o comeo.
       Voc descobriu. Eu sempre tive um fraco por homens lindos e com sentimentos.
       Bem, vocs dois iriam se dar muito bem. Ambos pensam com os genitais.
      Babs respirou fundo e guardou o ar nos pulmes por muito tempo. Gradualmente, ela exalou, mas seu corpo permaneceu rgido.
       Antes que te d um soco, que  uma coisa que estou me segurando para no fazer desde que voc entrou aqui, eu vou para a cama. Aaron, cuja companhia madura 
eu prefiro  sua, pode dormir comigo. Voc, minha amiga, se vire.
       Volte aqui. Voc no pode dar as costas para uma briga.
       Me observe.
       Babs, me desculpe. Eu no devia ter dito aquilo. Babs, por favor, me diga o que fazer.
      Babs girou nos calcanhares e encarou Kyla.
       Muito bem. Voc pediu, ento vai ter. Voc no est brigando comigo, Kyla. Est brigando consigo mesma. E no  comigo que est zangada. Voc no est zangada 
com Trevor. Voc est zangada consigo mesma.
       Como assim?
       Voc era a melhor aluna da nossa turma. Descubra sozinha. Agora, boa noite.
      Babs atravessou o corredor e fechou a porta depois de entrar no quarto. Lgrimas escorreram dos olhos de Kyla enquanto ela voltava para a sala de estar. Ficou 
andando em crculos, nutrindo sua indignao com autopiedade.
      A amizade acabou, pensou. Kyla no teria se sentido mais abandonada nem se estivesse se afogando em guas lamacentas, gritando por socorro enquanto Babs ficava 
parada na praia, zombando dela.
      Ela contara com o apoio incondicional de Babs. Ela esperara que Babs ficasse do seu lado e lhe dissesse, "Essa  minha garota! Continua, descasca mais ele!" 
Ao invs disso, Babs voltara toda sua simpatia para Trevor.
      Kyla se deixou cair no sof e tomou um gole longo de vinho.
       Mas  claro  murmurou. Babs era mulher. Ela havia cado sob o feitio do Beijoca. Ela, como centenas de mulheres que a precederam. Foi isso. Bastara um 
par de bceps musculosos e um bigode escuro e felpudo para fazer de Babs uma traidora. O que era lealdade para com uma amiga, quando pesada contra a forma com que 
Beijoca enchia suas calas jeans?
      Com um risinho de desprezo, Kyla tomou outro gole de vinho.
      E o que ela quisera dizer com aquela histria sobre Kyla estar com raiva dela mesma?
      Nada. Absolutamente nada. Babs adorava jogar pensamentos como esses no meio das conversas, como pitadas de acar de confeiteiro sobre um bolo. Pura filosofia 
de botequim.
      Mas se era assim, por que Kyla no conseguia parar de pensar no que ela dissera?
      Por que estava dando ateno  possibilidade de estar zangada consigo mesma? Que motivo ela tinha para ter raiva de si mesma?
      Por ter se apaixonado por Trevor.
      Ela golpeou a base da taa contra a mesinha de centro e caminhou at a janela. Puxando violentamente a cordinha da persiana, levantou-a para olhar para fora. 
No viu nada alm de sua prpria imagem refletida no vidro. Face a face consigo mesma, ela foi forada a dialogar.
      Ela precisava admitir que era doida por ele. Ela tambm no era imune a um belo par de bceps. E quanto  sua generosidade? E sua gentileza constante? E  
forma ardorosa com que fazia amor?
      Para conter um soluo de choro, ela empurrou um punho fechado contra os lbios. Ela no queria lembrar de como ele era capaz de lev-la ao xtase. A culpa 
tinha um gosto ruim. Em algum lugar ao longo do caminho, viver com Trevor e fazer amor com ele tinha se tornado mais importante para Kyla do que manter Richard vivo 
em seu corao. Ela havia deixado que a pira funerria de Richard apagasse, e isso era uma ofensa imperdovel.
      Babs tinha razo. Ela estava zangada consigo mesma por, apesar de tudo, amar Trevor.
      Ela no podia culp-lo por ter estado no beliche de Richard na manh em que a bomba explodira na embaixada. Isso tinha sido uma pea do destino. Ele no havia 
usado as cartas de Kyla para explor-la, mas para lhe conceder cada desejo em seu corao. Ele era um pai exemplar para Aaron. Era ambicioso e bem-sucedido, mas 
no um daqueles homens que se tornavam escravos do trabalho para ganhar mais dinheiro.
      Era verdade que ele mentira ao omitir que conhecera Richard. Mesmo assim, se Trevor tivesse se apresentado a ela como Beijoca, Kyla teria fugido o mais rpido 
possvel, e eles jamais teriam ficado juntos. Se ele havia se casado com ela movido por um senso de dever, ento ele era um ator do calibre de Laurence Olivier.
      Um amor como o que Trevor lhe dera no podia ser falsificado, nem forado a nascer. Ele tinha de vir do corao.
      Se um amor era to forte, o que poderia haver de errado nele?
      Kyla saiu correndo do apartamento de Babs. Uma vez no carro, mil possibilidades cruzaram sua mente como os insetos pegos nos fachos de seus faris. E se ele 
j tivesse sado? E se ela tivesse perdido seu amor pela segunda vez? Na primeira vez, ela no tivera nenhum controle sobre a perda. Mas desta vez teria jogado o 
seu amor no lixo.
      Como Babs dissera, ela era estpida.
      Ela suspirou de alvio ao ver que tanto o carro quanto a picape de Trevor ainda estavam estacionados no caminho de acesso da casa. Ao entrar pela porta da 
frente, viu que uma luz tnue vinha do quarto, e correu at ele.
      Trevor estava sentado na beira da cama, cabea curvada sobre uma folha de papel, que fora fechada tantas vezes que as dobras estavam finas. Ela a reconheceu 
como uma de suas cartas. Outras estavam empilhadas ao lado dele. A luz tnue que provinha da lareira estava acesa apesar da estao. Ele estivera lendo  luz das 
chamas.
      Ao ouvi-la entrar, Trevor levantou a cabea para v-la. Seu olho inquisidor fixou-se em Kyla enquanto se aproximava dele. Ento ela tirou a carta amassada 
das mos de Trevor e a leu. Quando chegou  linha que dizia, "Ele parece o tipo de homem que eu detesto", seus olhos foram anuviados por lgrimas.
      Movendo-se depressa, ela pegou as cartas espalhadas uma a uma, inclusive os envelopes, at ter lido todas. Ento atravessou o quarto, moveu para o lado a tela 
de bronze da lareira e jogou as cartas no fogo.
       Kyla, no!
      Os papis pegaram fogo. Crepitando enquanto encolhiam e enegreciam, formaram uma pira empastelada sobre os cepos. As chamas duraram pouco. Numa questo de 
momentos as cartas foram consumidas, disparando fagulhas para a chamin.
      O rosto de Kyla estava lavado em lgrimas quando ela se virou para ele.
       Voc no precisa das sobras de outro homem, Trevor. Se quiser saber o que penso, pergunte a mim. Deixe abrir meu corao para voc. Richard...  Ela fez 
uma pausa para respirar fundo. Kyla sentiu as prprias unhas afundando nas palmas. Era a coisa mais dolorosa que ela j havia dito, mas ela finalmente conseguiu 
exprimir em palavras a verdade que ignorara por tanto tempo.  Richard est morto. Eu o amei. Ns criamos outro ser humano atravs desse amor. Sempre serei grata 
por Aaron ser um testemunho vivo desse amor. Mas Richard se foi. Eu amo voc.
       Kyla.  O nome dela engasgou na garganta de Trevor. Ela se jogou nos braos dele. Ele a abraou, puxando o corpo pequeno e magro de Kyla contra o dele. Ele 
afundou o rosto no pescoo dela.
       Eu te amo, Trevor. Para saber isso, tudo que voc precisa fazer  olhar para mim. Leia nos meus olhos.
      
       No, no me deixe  protestou ela. Com fora surpreendente, ela travou as coxas em torno das dele.
       No estou ficando pesado?
       Eu gosto.
       Voc  estranha.  Ele levantou a cabea do travesseiro para sorrir para ela.
       Eu sou estranha? Foi voc quem se apaixonou por uma mulher atravs das cartas que ela enviou para outro homem.  Ela angulou a cabea para trs para poder 
v-lo melhor.
       E se eu fosse uma baranga?
       Se voc fosse uma baranga, se voc no fosse nada exceto exatamente o que voc , eu teria me apresentado, oferecido minhas condolncias, oferecido assistncia 
financeira e ido embora.
       Foi o que Babs disse.
       Ela disse isso?
       Quando a gente ainda estava de bem.
       Eu perdi alguma coisa?
       Vou te contar sobre isso amanh de manh. Neste momento estou ocupada.
      Ela permitiu  sua lngua o prazer sem fronteiras de investigar a orelha dele.
       Presumo que nosso filho esteja seguro  murmurou Trevor em torno da ponta do seio dela.
       Ele est dormindo com a Babs.
       Voc considera isso seguro?
      Eles riram e, quando fizeram isso, Trevor fez uma careta de dor.
       Di?  perguntou ela.
      Os lbios de Trevor se curvaram em seu sorriso de jacar.
       Ria mais um pouco.
      Em vez disso, eles se beijaram. Quando sentiu o copo dele se encher com desejo renovado por ela, Kyla segurou a cabea dele com ambas mos e a levantou acima 
da sua.
       Perdoe-me. Eu lhe disse coisas terrveis. Sobre suas cicatrizes.
       Sei que voc no estava se referindo a elas.
       E quanto ao seu tapa-olho.  Ela tocou a face dele com carinho.  Acho que sei porque voc o preferiu a uma prtese.
       Por qu?
       Voc usa o tapa-olho como um desafio  deficincia que ele representa. Seria fcil para voc usar um olho de vidro, e cobrir as suas cicatrizes. Mas voc 
nunca escolhe o jeito mais fcil, no , Trevor?
       No mais. Antes eu escolhia. Antes que isto acontecesse comigo, eu no levava nada a srio. Achava que a vida era uma srie de festas em minha homenagem. 
Descobri do jeito mais difcil que isso no era verdade.  Ele meditou sobre seu pensamento seguinte enquanto sentia entre os dedos os fios dos cabelos de Kyla. 
 Ou talvez eu usasse o tapa-olho como um escudo. Debaixo dele est a cicatriz mais feia de todas. Talvez tivesse medo de que se a visse, voc veria a parte mais 
feia de mim: a minha fraude.
       Nada mais de segredos entre ns, Trevor.
       Nenhum. Nunca mais. Todas as minhas defesas esto abaixadas.
      Os dedos dele se perderam nos cabelos dela e sua voz assumiu um tom baixo e rascante.
       Voc tinha todos os motivos para ficar furiosa, Kyla. Eu realmente a manipulei para se casar comigo. Mas depois que a vi, e voc era ainda mais linda do 
que todas as coisas que havia escrito, eu simplesmente precisava t-la, jogando limpo ou no. Nunca foi minha inteno substituir Richard no seu corao, apenas 
criar um lugar nele para mim.
       Acho que o seu maior erro foi a impacincia.
       Por qu?
       Se voc tivesse se apresentado como o Beijoca...
       Voc teria me odiado imediatamente.
       No comeo, talvez. Mas no depois que eu passasse a conhec-lo. O que estou tentando dizer  que sinto que isto era inevitvel.
       Voc quer dizer que, no importa como acontecesse, ns acabaramos casados, deitados aqui, fazendo isto?
      Ele se moveu para dentro dela.
       Sim  arfou baixinho.  Lembra de quando voc disse que enquanto houvesse outro homem a dentro no haveria espao para voc?
      Envergonhado, ele sorriu torto.
       Disse isso de forma muito rude, se a memria no me falha.
       De forma rude, mas precisa.  Ela tocou a boca de Trevor com a sua e deixou-a ali, roando em seu bigode.  Voc me preenche completamente, Trevor. Corpo, 
mente, alma.
      E ento, muito gentilmente, e sem nenhuma interferncia da parte dele, Kyla correu os dedos pelos cabelos dele, alcanou seu rosto, e removeu o tapa-olho.
Sandra Brown - Cartas de Amor (Rainhas do Romance 41)




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